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A era da previsibilidade no varejo: por que prever melhor virou vantagem competitiva

Por: Ângelo Vicente

CEO e Fundador da SELIA Intelligent Commerce

Mestre em Ciências e Gestão de Tecnologia, pelo MIT Sloan School of Management (2023). Fundador da e-Cadeiras e da SELIA Intelligent Commerce, onde exerce o cargo de CEO atualmente. Com uma trajetória de mais de 12 anos no setor de comércio eletrônico, Ângelo é movido pela paixão em explorar o potencial de novas tecnologias, sempre com o objetivo de agregar valor significativo para seus clientes e parceiros. Além de seu papel na SELIA, ele é uma figura proeminente no cenário de E-Commerce, onde contribui ativamente para a comunidade do setor, participando como articulista, conferencista, professor e palestrante em diversas instituições de ensino e eventos. É membro do Conselho do E-Commerce Brasil e Cofundador da Escola Superior de E-commerce - ESECOM.

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Se a NRF 2026 consolidou a inteligência artificial como infraestrutura do varejo, ela também evidenciou uma mudança silenciosa, porém decisiva: o centro da vantagem competitiva está migrando da reação para a previsibilidade.

Notebook exibindo “PREVISIBILIDADE” na tela, com gráficos de dados, com o letreiro “NRF 2026” ao fundo.
Imagem gerada por IA.

Não se trata apenas de prever demanda. Trata-se de antecipar cenários, reduzir o custo do erro e tomar decisões melhores antes que o problema chegue à operação, ao caixa ou ao cliente.

Previsibilidade deixou de ser tema técnico e virou tema de negócio

Durante muito tempo, previsibilidade foi tratada como um assunto restrito a planejamento, supply chain ou áreas técnicas. Na NRF 2026, ela apareceu como tema estratégico transversal, impactando margem, experiência do cliente e crescimento sustentável.

Em sessões lideradas por executivos da Amazon, a mensagem foi clara: previsibilidade não é um exercício de precisão absoluta, mas de redução de variabilidade. Quanto menor a variabilidade do sistema, menor o custo operacional e maior a capacidade de escalar.

No varejo moderno, prever melhor significa operar com menos improviso.

Do forecast histórico ao uso de sinais antecipados

Um dos pontos mais debatidos em painéis operacionais da NRF 2026 foi a limitação do forecast baseado apenas em histórico.

Executivos da Target mostraram como a companhia vem incorporando sinais antecipados de comportamento, como navegação, intenção de compra, mídia, clima e contexto regional, para ajustar previsões continuamente.

A lógica apresentada foi simples: o dado mais valioso não é o que explica o passado, mas o que antecipa decisões futuras.

Previsão deixa de ser um número fechado e passa a ser um processo vivo.

Previsibilidade como alavanca de margem e experiência

Outro eixo forte do evento foi o impacto direto da previsibilidade sobre custos e experiência do consumidor.

Em painéis com líderes da FedEx e de grandes operadores logísticos globais, ficou evidente que previsões mais confiáveis permitem:

– melhor posicionamento de estoque
– redução de custos de frete emergencial
– promessas de entrega mais realistas
– menor volume de exceções operacionais

Quando a promessa é cumprida com consistência, a experiência melhora e o custo de atendimento cai.

No varejo atual, previsibilidade virou pré-condição de margem.

Prever não é engessar: o contraponto do varejo de marca

Um ponto importante discutido no evento foi o receio de que modelos preditivos engessem decisões criativas ou padronizem excessivamente a oferta.

Esse contraponto apareceu em sessões com executivos da Nike, que mostraram como previsões são usadas como base para decisões de sortimento e planejamento, sem substituir curadoria, design e leitura cultural.

A mensagem foi clara: modelos preditivos informam decisões humanas, não as substituem.

Para marcas que equilibram escala e identidade, previsibilidade é um suporte estratégico, não um limitador criativo.

Previsibilidade também é consistência de marca

Embora o debate sobre previsibilidade costume ficar restrito à operação, algumas sessões da NRF 2026 trouxeram uma visão mais ampla.

Executivos do setor de marketing e growth reforçaram que previsibilidade também se manifesta na consistência da experiência de marca. Quando o consumidor sabe o que esperar de uma marca, o custo de aquisição diminui, a conversão aumenta e a recorrência cresce.

Previsibilidade, nesse contexto, não é rigidez. É coerência ao longo do tempo.

Pessoas continuam no centro da tomada de decisão

Apesar do avanço dos modelos de previsão, a NRF 2026 reforçou um ponto fundamental: previsibilidade não é um tema puramente tecnológico.

Em painéis de liderança e gestão, executivos do Home Depot destacaram que modelos só geram impacto quando existe cultura de decisão orientada a dados, governança clara e times capacitados para interpretar cenários. Modelos apontam probabilidades, mas são pessoas que assumem riscos e fazem escolhas.

A leitura do E-Commerce Brasil sobre previsibilidade

Pela lente do E-Commerce Brasil, a NRF 2026 deixou aprendizados claros:

– Previsibilidade deixou de ser diferencial e virou condição mínima de competitividade.
– Forecast baseado apenas em histórico não responde mais à complexidade do varejo.
– Sinais antecipados são mais valiosos do que análises tardias.
– Prever melhor reduz custo do erro e aumenta margem.
– Previsibilidade sustenta experiência e confiança do consumidor.
– Tecnologia amplia decisões, mas não substitui liderança

O novo patamar do varejo

O varejo que cresce de forma sustentável não é o que reage mais rápido ao problema, mas o que consegue antecipá-lo com mais contexto e menos improviso.

A NRF 2026 mostrou que previsibilidade deixou de ser uma discussão operacional e passou a ser um pilar estratégico de competitividade.

Não se trata de controlar o futuro. Trata-se de estar consistentemente melhor preparado para ele.