Sabe aquela sensação de entrar em um lugar e ter a impressão de que ninguém vive ali? Tudo branco, milimetricamente alinhado, superfícies impecáveis e uma assepsia estética que beira o impessoal. Bonito? Sim. Habitável? Nem sempre. O desconforto que muita gente passou a verbalizar nas redes se transformou quase em slogan: “quero casa com cara de casa, não quero casa quadrada”.

Mais do que uma crítica ao minimalismo, trata-se de um reposicionamento cultural. A casa deixou de ser vitrine e voltou a ser território.
A rejeição da “casa-cenário”
O ponto central dessa virada não é decorativo, é simbólico. Durante anos, consolidou-se a estética da “casa-cenário”, ambientes pensados para performar bem no feed, mas pouco tolerantes à bagunça, ao improviso e à transformação. O excesso de neutralidade, de linhas retas e de objetos calculados gerou uma espécie de fadiga visual e emocional.
A arquiteta e professora da Unicamp, Fabricia Zulin, observa que não se trata de abandonar o minimalismo, mas de abandonar o minimalismo rígido, prescritivo, que ignora a vida real. A casa, sobretudo após a intensificação do home office, passou a concentrar múltiplas funções: trabalho, descanso, lazer, cuidado e convivência. Quanto mais tempo se vive no espaço, maior a necessidade de pertencimento. A estética isolada não sustenta essa demanda.
Essa lógica sempre esteve presente na habitação popular, onde a transformação contínua não é tendência, mas estratégia de sobrevivência. Amplia-se um cômodo, muda-se a função de outro, adapta-se conforme a família cresce. O que hoje ganha status de estética autoral sempre foi prática cotidiana: a casa como organismo vivo.
Ambientes excessivamente “encaixados” não absorvem bem a imprevisibilidade da vida. E a vida, por definição, não é simétrica.
Curadoria afetiva e identidade
O movimento por “casa com cara de casa” também dialoga com um cansaço de fórmulas replicáveis. Em vez de seguir um padrão universal de bom gosto, cresce a valorização da curadoria pessoal: objetos herdados, peças garimpadas, lembranças de viagem, misturas improváveis.

Segundo Júlia Sabbag, do Pinterest Brasil, conforto emocional e nostalgia aparecem como motores comportamentais fortes para os próximos anos. A tendência não é copiar um catálogo, mas combinar referências. Estéticas como “Lar Lúdico”, com cores e formas mais expressivas; “Afrodecor”, que incorpora raízes africanas ao boho; e “Neo Déco”, que resgata elementos como latão e carrinhos de bar, indicam fome por identidade e camadas.
Não é sobre excesso, é sobre significado.
Esses insights ganham força no Pinterest Predicts 2026. Há uma busca maior por conforto emocional e nostalgia, que o relatório identifica como um dos grandes motores de comportamento para 2026. As pessoas usam a decoração para se reconectar com memórias, afetos e um senso de pertencimento, em vez de apenas reproduzir a “casa de catálogo”.
Tecnologia como aliada, não como ditadora
Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser curadora autoritária e passa a atuar como assistente. Ferramentas de recomendação visual ajudam a compor o ambiente a partir do que já existe no acervo pessoal. Em vez de sugerir a substituição completa da mobília, o foco recai na combinação: como integrar a cômoda herdada da avó a uma iluminação contemporânea? Como valorizar um objeto artesanal trazido de viagem?
Essa lógica incentiva um consumo mais estratégico e menos impulsivo. A casa passa a ser construída em camadas, ao longo do tempo, acompanhando fases da vida, e não reiniciada a cada nova tendência do algoritmo.
No fim, “casa com cara de casa” não define um estilo específico, mas uma mudança de mentalidade. Sai a lógica da perfeição fotogênica, entra a lógica da funcionalidade afetiva. O que está em jogo não é a quantidade de objetos, mas o grau de pertencimento. Ambientes excessivamente padronizados perdem força diante de espaços que assumem marcas do tempo, escolhas individuais e adaptações reais.
Congresso Lifestyle
Essa transformação do morar, que conecta comportamento, consumo e identidade, será um dos temas discutidos no Congresso Lifestyle e Marketplace, Ads e Performance, do E-Commerce Brasil, que acontece nos dias 3 e 4 de março, no Distrito Anhembi, em São Paulo, reunindo marcas, varejistas e especialistas para analisar as novas dinâmicas do desejo e da experiência no mercado de Lifestyle.