Logo E-Commerce Brasil

UCP do Google: por que o “HTTP do comércio” pode ser o anúncio mais importante da NRF 2026

Por: João Paulo Delbucio Amadio

CSO na After Click

Profissional com 25 anos de experiência em e-commerce e digitalização de Go To Market, atuando em líderes de mercado de segmentos B2B e B2C e em stakeholders distintos do ecossistema, como Coca-Cola FEMSA, Staples, Facebook, Ernst & Young, VTEX e Infracommerce. Atualmente, é CSO da After Click.

Ver página do autor

A NRF 2026 está sendo marcada por uma mensagem comum em praticamente todos os grandes cases: estamos diante de um momento de inflexão que afeta toda a jornada do consumidor — do pré-click ao pós-click, do front-end ao back-end.

Sundar Pichai, CEO, Google and Alphabet NRF Big Show 2026 - Jason Dixson Photography
Sundar Pichai, CEO, Google and Alphabet NRF Big Show 2026 – Jason Dixson Photography

E, curiosamente, um dos anúncios mais relevantes do evento não foi sobre uma nova loja, uma nova experiência ou um novo modelo de mídia. Foi sobre infraestrutura.

O Google anunciou o UCP — Universal Commerce Protocol.

À primeira vista, pode parecer “apenas mais um protocolo”. Mas a realidade é que o UCP pode ser a tentativa mais séria até aqui de criar o HTTP do comércio moderno: um padrão universal para permitir que agentes de IA possam executar compras de ponta a ponta.

Se essa adoção ganhar tração, o varejo digital muda de fase.

O que é o UCP (Universal Commerce Protocol)?

Em termos simples:

Até ontem, a IA ajudava você a decidir.

A partir de agora, ela começa a executar por você.

O UCP é um padrão aberto que tem como objetivo permitir que um agente (como o Gemini, do Google, ou outros agentes de mercado) consiga:

  • Buscar produtos;
  • Comparar opções;
  • montar carrinho;
  • Aplicar promoções e regras;
  • Escolher modalidade de frete;
  • Finalizar pagamento;
  • Acompanhar pedido;
  • Gerenciar cancelamentos, trocas e devoluções;
  • Acionar suporte / pós-venda.

Tudo isso com um fluxo muito mais fluido, com menos fricção e menos dependência da navegação tradicional.

A mudança estrutural: checkout deixa de ser uma página

Essa é a grande virada.

A jornada do e-commerce, por décadas, foi baseada em navegação:

“Eu entro no site, escolho e compro.”

O UCP abre caminho para outra lógica:

“Eu digo o que quero e um agente resolve.”

Isso significa que o checkout deixa de ser um “destino” visual e passa a ser uma capacidade de execução.

E quando isso acontece, a conversão tende a migrar:

  • De “cliques” para “ações”;
  • De UX para infraestrutura;
  • De mídia para execução.

É por isso que, do ponto de vista estratégico, o UCP é tão importante: ele sinaliza uma mudança de onde o valor será capturado.

O que isso muda na prática para o varejo?

Se agentes de IA passam a executar compras, o e-commerce entra em uma fase onde o consumidor (ou o agente) não quer “explorar páginas”. Ele quer concluir.

E isso altera profundamente o peso de cada etapa do funil.

1) Pré-click: Search e discovery viram conversa + execução

Hoje, o pré-click envolve:

  • Pesquisa;
  • Comparação manual;
  • Leitura de reviews;
  • Navegação entre sites.

No modelo agentic, grande parte disso pode virar uma experiência única:

  • O consumidor descreve necessidade e restrições (“quero rápido”, “quero barato”, “prefiro marca X”)
  • O agente encontra a melhor combinação possível e executa a compra

O resultado é uma migração do “funil de navegação” para um “funil de decisão automatizada”.

2) O click perde valor como unidade de conversão

Muita gente associa e-commerce à palavra “clique”. Mas o clique é apenas um subproduto da navegação.

Quando a compra vira execução feita por agentes, o clique perde protagonismo. O novo foco vira:

  • Capacidade de concluir;
  • Confiabilidade;
  • Eficiência;
  • Baixo atrito.

Isso afeta diretamente o papel dos canais, inclusive performance e retail media — porque parte das decisões pode passar a acontecer antes do usuário “ver” anúncios ou acessar páginas.

3) Pós-click vira o novo diferencial competitivo

Aqui está o ponto mais importante.

No mundo agentic, o que define o sucesso não é um banner bonito. É execução.

O agente tende a otimizar o que é mensurável e previsível. Ou seja, ele vai preferir quem entrega melhor a promessa.

Isso inclui:

  • SLA e confiabilidade logística;
  • Tracking consistente;
  • Troca e devolução sem fricção;
  • Pagamento aprovado sem perda de venda;
  • Atendimento resolutivo;
  • Conciliação, reembolso e disputa bem operados.

O pós-clique deixa de ser bastidor. Ele vira reputação.

E reputação vira conversão.

Ou seja: o varejo passa a competir em infraestrutura real.

Pagamentos: aprovação vira “novo CAC”

Pouca coisa tem impacto tão direto em faturamento quanto pagamentos.

Em um cenário onde agentes executam compras, o sistema tende a privilegiar operações que oferecem:

  • Alta taxa de aprovação;
  • Baixa fricção (menos reprocessamento);
  • Prevenção de fraude sem aumentar abandono;
  • Rapidez em cancelamentos e reembolsos.

Em outras palavras: a diferença entre uma transação aprovada e negada vira diferença entre existir ou não existir venda.

E isso, na prática, torna a taxa de aprovação uma das métricas mais críticas do e-commerce moderno — com impacto comparável ao CAC.

Logística e pós-venda: o “invisível” vira protagonista

Existe um erro comum no varejo digital: tratar logística e atendimento como centro de custo.

O UCP e o avanço do agentic commerce sinalizam o contrário:

logística e pós-venda passam a ser o produto.

Porque quando o consumidor não navega mais, ele não “se encanta” com páginas. Ele avalia (ou o agente avalia) o varejista por:

  • Cumprir prazo;
  • Comunicar bem;
  • Rastrear corretamente;
  • Resolver problema rapidamente;
  • Devolver dinheiro sem fricção.

A operação vira marca.

Minha leitura pós-NRF: do hype para a execução

A NRF 2026 reforçou um padrão claro:

A transformação não é mais “digitalizar”.

É operar em tempo real.

E operar em tempo real exige:

  • Dados operacionais;
  • Integrações;
  • Padrões;
  • Processos consistentes;
  • Excelência no pós-clique.

O UCP é menos sobre “tendência de IA” e mais sobre “nova infraestrutura de comércio”.

Quem estiver olhando apenas para a camada visível (layout, mídia, canais) pode perder o principal:

o varejo do futuro será vencido por quem dominar o que é invisível — experiência e cumprir a promessa feita pela marca.