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Muito além dos algoritmos: o futuro do customer service é dominar o comportamento humano

Por: Regina Monge

Especialista em Neuromarketing e fundadora do Neurobranding LAB – Consultoria de Inteligência Estratégica e Performance de Marca, membro da diretoria de marketing da ABComm, palestrante, professora e autora do manual "O que é Neurobranding? Entenda como a Conexão entre Cérebro e Marcas pode impulsionar os resultados e valor de uma Marca e da metodologia Neurobranding Canvas® – A Method to Connect Brands to the Brain".

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Existe algo que nenhum algoritmo resolve, que é a sensação de abandono do cliente. Já notou como somos tolerantes com erros sistêmicos, mas implacáveis com a falta de cuidado humano? Isso acontece porque, do ponto de vista do neurobranding, o nosso cérebro evoluiu para priorizar e proteger relações de confiança. Quando uma marca interage com impessoalidade ou demonstra desconexão emocional em um momento de vulnerabilidade, ela ativa as mesmas áreas do cérebro responsáveis pela dor física. É um gatilho biológico de rejeição que marca negativamente essa experiência na memória.

Mulher loira de blazer cinza e headset, sorrindo enquanto usa um tablet em um armazém com caixas empilhadas ao fundo.
Imagem: Freepik.

O impacto da IA na percepção de valor da marca

E é exatamente aqui que acende o grande alerta do cenário atual: para o cérebro do consumidor, não existe separação entre o algoritmo e a empresa. Hoje, o ponto de contato com a inteligência artificial passou a ser o momento crítico para a construção de uma experiência positiva. Se essa interação inicial com a IA gera fricção ou soa robotizada, o desgaste na percepção de valor da marca é imediato. Em resumo, a forma como a sua tecnologia atende reflete diretamente no seu branding.

Dados confirmam o que o cérebro já sabe: 62% dos consumidores brasileiros já deixaram de comprar de uma empresa por causa de uma experiência negativa (CX Trends 2025). E mesmo com toda a evolução da inteligência artificial, 93% relatam barreiras ao usar chatbots, sentindo impessoalidade, desconexão emocional e incapacidade de lidar com o que realmente importa (ServiceNow Consumer Voice Report 2025). Essa quebra de expectativa ocorre porque grande parte do mercado ainda utiliza essas tecnologias primariamente como “barreiras de contenção de custos” para evitar que o cliente chegue ao humano, em vez de usá-las para a resolução empática.

A razão não está na perfeição do algoritmo, mas em como o cérebro processa informações. O cliente de hoje não quer apenas rapidez; ele busca a eliminação total da fricção. Quando unimos a IA ao entendimento profundo do comportamento humano, o jogo muda de nível, com a tecnologia assumindo novos papéis:

Conversas com intenção: hoje, é possível treinar IAs não apenas para dar respostas, mas para sustentar diálogos focados no comportamento humano, ajustando o tom, a cadência e a empatia em tempo real. Na prática, isso significa que um sistema avançado consegue identificar se o cliente está usando palavras que demonstram ansiedade e, instantaneamente, mudar sua linguagem para apaziguar a situação, ou realizar o transbordo para o atendimento humano no exato momento em que a emoção exige, antes que a confiança se quebre.

O fim da fricção cognitiva: se o cliente precisa repetir sua história várias vezes, passando da URA para o bot e, depois, para o atendente, o cérebro entra em fadiga, fenômeno documentado pela neurociência cognitiva. Essa sobrecarga eleva os níveis de estresse, fazendo com que o consumidor associe a marca à exaustão. Cada barreira desnecessária consome energia mental e desgasta a percepção de valor da marca. A IA de ponta deve atuar justamente na remoção dessas barreiras, tornando a solução instintiva e garantindo que o histórico acompanhe o cliente de forma fluida por toda a jornada.

Tecnologia que humaniza: parece contraditório, mas a IA bem aplicada libera o humano para ser mais humano. Ela cuida dos dados (como rastrear pedidos ou identificar falhas de sistema em milissegundos) para que possamos cuidar das pessoas e da estratégia. Assim, quando o atendente interage com o cliente, ele não precisa gastar tempo sendo um “pesquisador de telas”, mas sim um solucionador focado na escuta ativa.

A estratégia por trás da implementação tecnológica

No entanto, adotar a inteligência artificial mais avançada do mercado não garante que o cliente se sinta acolhido. A verdadeira transformação não acontece apenas com uma implementação técnica. Para que a tecnologia seja uma ponte de conexão e não o risco de virar apenas uma ferramenta operacional desconectada, é fundamental que a área de TI converse diretamente com as áreas estratégicas de negócios. Esse movimento exige, antes de tudo, uma decisão de liderança. Não é uma pauta só de tecnologia, nem só de atendimento. É uma pauta estratégica, que começa na forma como as empresas entendem o comportamento do seu consumidor e se traduz em cada ponto de contato da jornada.

Para que essa virada aconteça, é preciso que as diretorias adotem passos práticos. O primeiro deles é auditar a jornada do cliente com a lente da fadiga mental: identificar em quais momentos o consumidor precisa se esforçar para ser compreendido e aplicar a IA exatamente aí para suavizar a transição. Em seguida, é necessário redefinir as métricas de sucesso, abandonando o foco exclusivo na rapidez e passando a premiar a redução do esforço do cliente.

A grande virada ocorre quando líderes param de perguntar “como automatizo mais?” e passam a perguntar “como uso a tecnologia para ser mais humano?”. A mudança de pergunta altera tudo: a cultura, o produto, o atendimento e, no fim, a posição da marca na mente do consumidor.

Algoritmos evoluem. O que não muda é a necessidade que cada um tem de se sentir visto, ouvido e cuidado.