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De “meios de pagamento” para “meios de crescimento”: quando pagar vira estratégia, não burocracia

Por: Eduardo Zucareli

Profissional com larga experiência em Gestão Comercial, Gestão de empreendimentos generalistas, Gestão de Mix de Lojistas, Mercado Varejista nacional e internacional. Participação no desenvolvimento de projetos comerciais voltados para empresas multinacionais ou nacionais, startups, empreendimentos de shopping center ou em concessionárias de aeroportos.

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Durante muito tempo, meios de pagamento foram tratados como o último passo da jornada. Um tema operacional, quase invisível, delegado ao financeiro e resolvido no “fim do funil”. Esse modelo ficou para trás.

Uma mão estendida toca uma interface digital transparente com ícones de camisetas, setas laterais e um carrinho de compras.
Imagem: Reprodução.

Hoje, o pagamento deixou de ser ponto final. Virou motor de conversão, retenção e crescimento.

Não é coincidência que, nas empresas mais bem-sucedidas do varejo físico e digital, as decisões sobre pagamento estejam cada vez menos no financeiro – e cada vez mais no e-commerce, no marketing e no comercial. Quem vive a conversão sabe: pagamento não é custo. É alavanca.

Pagamento como estratégia de crescimento

Os números ajudam a explicar essa mudança. Estudos recorrentes de mercado mostram que taxas de abandono de carrinho no e-commerce seguem acima de 60%. E, dentro desse percentual, uma fatia relevante está diretamente associada a fricção no pagamento: limite insuficiente, juros altos, reprovação no crédito ou meios pouco aderentes ao perfil do consumidor.

Nesse cenário, discutir meios de pagamento deixou de ser discutir adquirência ou taxa MDR. Passou a ser discutir crescimento de receita.

A lógica é simples: quanto maior a capacidade de aprovar uma compra, maior a conversão. E quanto menor a fricção, maior a recorrência.

Cartão de crédito: ainda relevante, mas sob pressão

O cartão de crédito continua sendo um pilar do consumo no Brasil, mas enfrenta limites claros. Dados do Banco Central do Brasil mostram juros do rotativo consistentemente acima de 400% ao ano, além de taxas de aprovação cada vez mais conservadoras em momentos de aperto monetário.

Para o consumidor, isso se traduz em medo de comprometer o orçamento. Para o varejo, em perda de venda.

É nesse vácuo que surgem novas soluções – não somente para responder às suas limitações, mas até mesmo para substituir o cartão de crédito.

BNPL: menos limite, mais inteligência

O Buy Now, Pay Later (ou no caso brasileiro, o Parcelamento Via Pix) não é apenas “parcelar sem cartão”. É uma mudança estrutural na lógica de crédito.

O crediário tradicional aprova um limite amplo para o consumidor comprar o que quiser. O BNPL faz o oposto: aprova uma compra específica. Isso muda tudo.

Ao analisar contexto, valor, histórico e comportamento em tempo real, o risco cai. E quando o risco cai, a aprovação sobe. O resultado é mais gente comprando, inclusive consumidores historicamente sub atendidos pelo sistema financeiro tradicional.

Não por acaso, mercados maduros já enxergam BNPL como ferramenta de inclusão e crescimento, não apenas como meio de pagamento alternativo.

Pix: o BNPL brasileiro já começou

No Brasil, o Pix entrou na conversa inicialmente como meio de transferência. Mas, na prática, virou infraestrutura de crédito.

Pix parcelado, Pix garantido, Pix com limite: estamos assistindo à tropicalização do BNPL em escala nacional, apoiada por uma infraestrutura pública robusta e com liquidação instantânea.

Os dados de adoção falam por si. O Pix já supera cartões em número de transações e avança rapidamente como instrumento de crédito no varejo, inclusive para consumidores sem acesso pleno ao cartão.

Mais do que um meio de pagamento, o Pix virou porta de entrada para novos modelos de concessão, com menor custo, menos fricção e mais inteligência.

Pagamento como camada de dados

Talvez a maior transformação esteja aqui: pagamentos se tornaram uma das camadas de dados mais ricas da jornada do consumidor.

Cada tentativa aprovada ou negada carrega sinais valiosos sobre renda, comportamento, propensão ao risco e momento de vida. Empresas que tratam pagamento apenas como “checkout” estão desperdiçando inteligência.

Não é à toa que varejistas, fintechs e plataformas de e-commerce estão integrando pagamento, crédito, CRM e mídia. Quem entende o dado antecipa a decisão. Quem antecipa cresce.

A provocação final

A pergunta que deve ser feita não é “qual meio de pagamento oferecer”, mas “como o pagamento ajuda minha empresa a vender mais, aprovar mais e entender melhor meu cliente”.

Meios de pagamento deixaram de ser tema financeiro. São, cada vez mais, uma agenda de crescimento, produto e estratégia.

Quem continuar tratando pagamento como detalhe operacional vai competir por preço.
Quem enxergar pagamento como motor de crescimento vai competir por relevância.

E, no varejo atual, relevância é tudo.