No palco principal da NRF 2026, o maior evento de varejo do mundo, o grupo LVMH apresentou uma das visões mais sofisticadas sobre a integração tecnológica no mercado premium. No painel “Where craft meets intelligence”, executivos da holding e da Louis Vuitton detalharam como estão transformando a Inteligência Artificial em uma aliada invisível para amplificar a criatividade humana e a personalização em escala global.

A tecnologia como serva da essência humana
Para Gonzague de Pirey, Chief OmniChannel and Data Officer da LVMH, o sucesso da IA no grupo depende de uma premissa filosófica: o humano deve permanecer no centro da cultura. “Tudo é sobre o ser humano no fim das contas. A tecnologia precisa servir a essência humana”, afirmou durante sua apresentação.
Pirey destacou que a estratégia de IA da LVMH é guiada por quatro valores fundamentais: criatividade, excelência, singularidade e impacto positivo. Para o executivo, o objetivo não é criar silos tecnológicos, mas sim uma “IA para todos”, garantindo que a ferramenta seja acessível e compreensível por colaboradores de todas as áreas, democratizando o ganho de eficiência em todas as camadas da operação.

Criatividade aumentada: a IA no ateliê
Soumia Hadjali, Global Senior VP de Client Development & Digital da Louis Vuitton, trouxe a perspectiva prática da Maison sobre o processo criativo. Hadjali foi categórica ao afastar o temor da substituição do talento humano: “A IA jamais poderá substituir a criatividade humana. O que ela faz é facilitar a visualização, o movimento e a aplicação da visão dos designers”.
Nesse modelo, a tecnologia atua como um catalisador produtivo que permite aos criativos explorarem novas fronteiras de forma mais ágil, garantindo que a assinatura final e a essência artística continuem sendo um diferencial exclusivamente humano.

O salto da IA agêntica no e-commerce
Um dos pontos de maior destaque na palestra foi a discussão sobre a IA Agêntica. Hadjali explicou que o grande desafio da Louis Vuitton é replicar a aura de exclusividade das lojas físicas — onde cada momento é memorável — para o ambiente digital.
A proposta é utilizar agentes virtuais inteligentes para oferecer uma experiência de e-commerce altamente personalizada e individualizada. No entanto, a executiva pregou a cautela: “É preciso ter humildade ao adotar esse tipo de tecnologia, pois ainda não conhecemos todos os desdobramentos de ter um agente virtual tão personalizado”.
A preservação da identidade de marca
O encerramento da sessão reforçou que, para o luxo, a tecnologia não deve ser um ruído, mas um suporte silencioso. Gonzague de Pirey enfatizou que manter a individualidade, o tom de voz e a personalidade da marca é essencial, mesmo em interações mediadas por algoritmos.
A mensagem deixada na NRF 2026 é clara: o futuro do varejo de luxo não reside na automação que substitui, mas na inteligência que quietly (silenciosamente) capacita a experiência moderna, permitindo que a inovação seja invisível enquanto o artesanato permanece sagrado.