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Fim dos rótulos etários: consumo de beleza vive era da longevidade

Por: Lucas Kina

Jornalista e produtor de Podcasts no E-Commerce Brasil

A longevidade deixa de ser um recorte demográfico e passa a funcionar como eixo estruturante da indústria de beleza. Durante o Congresso ECBR Lifestyle, Mariana Santiloni, head de Engajamento do Cliente na WGSN Latam, apresentou o estudo “Beleza 2030: 4 tendências que transformarão o futuro da longevidade”, apontando mudanças que atravessam comportamento, clima, saúde metabólica e ciclos de vida.

Mariana Santiloni, head de Engajamento do Cliente na WGSN Latam
Mariana Santiloni, head de Engajamento do Cliente na WGSN Latam (Imagem: E-Commerce Brasil)

Até 2030, 1 em cada 6 pessoas no mundo terá 60 anos ou mais. Além disso, os consumidores têm 1 em 3 de chance de chegar aos 90 anos. No Brasil, 10,9% da população já tem 65 anos ou mais, com crescimento de 57,4% em 12 anos. A idade média subiu de 29 anos, em 2010, para 35 anos, em 2022.

Esse cenário alimenta a chamada economia da longevidade. Globalmente, a cada US$ 20 gastos, US$ 1 é direcionado ao bem-estar, setor que já responde por 5,6% do PIB mundial. Para a WGSN, longevidade passa a orientar decisões de compra ao longo de todo o ciclo de vida, e não apenas na maturidade.

Espectro etário e o avanço do prejuvenescimento

O primeiro propulsor é o espectro etário. A era intergeracional reduz a força de estereótipos e marcos tradicionais ligados à idade. A segmentação baseada apenas em faixa etária perde relevância. Produtos passam a ser guiados por necessidade funcional e emocional.

Nesse contexto, ganha tração o conceito de prejuvenescimento, que desloca o foco do rejuvenescimento corretivo para a manutenção preventiva. Entre 2023 e 2024, o mercado global movimentou US$ 11,4 bilhões nesse campo, com crescimento de 9% em relação ao ano anterior.

A comunicação também muda. Segundo o levantamento apresentado, 97% das mulheres entre 30 e 80 anos desejam ver mulheres mais velhas nas imagens de beleza. A longevidade tende a impulsionar as decisões de compra dos boomers e amplia a demanda por representatividade real.

GLP-1 e o novo corpo metabólico

A expansão das canetas emagrecedoras à base de GLP-1 cria impactos diretos e indiretos na indústria de beleza. No Brasil, o mercado movimentou R$ 3,3 bilhões em 2024 e pode alcançar R$ 7,9 bilhões até 2030, com crescimento médio anual de 14,5%.

Entre usuários, 43% afirmam consumir mais proteína, 45% menos açúcar e 36% menos álcool. Ao mesmo tempo, as buscas globais por “flacidez da pele” cresceram 213% entre 2024 e 2025.

Nos Estados Unidos, 82% demonstram preocupação com elasticidade, 51% com qualidade da pele e 48% com aparência. Parte desses consumidores afirma comprar mais produtos de beleza após iniciar o uso.

A WGSN também aponta o possível surgimento dos “falsos-zempicos”, termo que descreve transformações estéticas associadas à rápida perda de peso. Para as marcas, abre-se espaço para soluções regenerativas, produtos focados em firmeza e integração entre nutrição e beleza.

Calor extremo e reorganização da rotina

As mudanças climáticas formam o terceiro eixo estratégico. A projeção indica que o aquecimento global pode atingir pico entre 1,7°C e 1,8°C acima dos níveis pré-industriais por volta de 2050.

Esse cenário acelera o desenvolvimento de produtos resistentes ao suor, ao frizz e à exposição solar intensa. O estudo também cita o surgimento do CHO, Chief Heat Officer, cargo corporativo voltado à gestão de impactos térmicos, sinalizando que o calor deixa de ser tema apenas ambiental e passa a integrar decisões operacionais.

Outro conceito destacado é o de “outdoor days”, ou dias confortáveis ao ar livre. Com temperaturas cada vez mais altas, o número de dias adequados para atividades externas tende a diminuir. Isso reorganiza horários de consumo, fortalece a vida noturna e amplia a demanda por produtos adaptados a um mundo mais quente.

Beleza sincronizada aos ciclos de vida

O quarto propulsor amplia o debate para necessidades hormonais específicas. Entre mulheres de 30 a 60 anos, 47% relataram desequilíbrios hormonais, mas 72% afirmaram compreender a causa apenas depois do ocorrido.

Oportunidades emergem em produtos sincronizados ao ciclo menstrual, soluções voltadas à perimenopausa e menopausa e experiências de cuidado direcionadas a essa fase. A recomendação é reposicionar a menopausa como potência e não como declínio.

A transição hormonal passa a ser tratada como fase ativa de consumo, com espaço para inovação em formulação, serviços e hospitalidade.

Pontos de ação para o varejo

A WGSN sintetiza cinco direcionamentos:

  • Quebrar estereótipos de idade;
  • Fortalecer o prejuvenescimento;
  • Integrar nutrição à beleza;
  • Preparar portfólio para mudanças climáticas;
  • Reposicionar a menopausa com protagonismo.

As tendências também se conectam à visão do consumidor do futuro 2027, que deve valorizar saúde metabólica, representatividade, adaptação climática e produtos alinhados aos ciclos biológicos.

Para o varejo de beleza, a mensagem é de que longevidade não é um nicho etário, mas uma reorganização sistêmica que impacta desenvolvimento de produto, comunicação, dados e experiência. Quem estruturar portfólio e narrativa com base nesses vetores tende a capturar valor em um mercado cada vez mais orientado por bem-estar e adaptação.