Logo E-Commerce Brasil

Plataforma pronta ou software próprio? O dilema que define o futuro do seu e-commerce

Por: Alex Tabor

Alex Tabor é CEO e cofundador da Tuna Pagamentos, empresa de orquestração que apoia varejistas a aumentar a conversão no e-commerce ao conectar múltiplos provedores de pagamento, antifraude e carteiras digitais. Formado em Ciência da Computação pela University of Southern California (EUA), foi cofundador do Peixe Urbano, onde atuou como CTO e depois CEO, liderando sua expansão no e-commerce na América Latina. Também foi cofundador e primeiro CTO da healthtech Alice. É especialista em pagamentos, inovação e experiência de checkout.

Ver página do autor

A decisão entre usar uma plataforma pronta ou desenvolver um sistema próprio costuma nascer de uma conta aparentemente simples. O empreendedor olha para o custo de implantação de uma solução existente, para a taxa sobre cada transação, para o valor mensal do contrato, e conclui que talvez seja mais inteligente contratar um programador e construir tudo dentro de casa. No início, essa escolha parece lógica. Os requisitos são básicos, o catálogo é pequeno, o carrinho funciona, os pedidos entram. Tudo cabe em um escopo controlável. O problema é que o e-commerce não permanece simples por muito tempo.

Notebook aberto sobre uma mesa, com ícone de loja e código na tela, cercado por celular, caneca e papéis com gráficos.
Imagem gerada por IA.

Crescimento e complexidade em camadas

À medida que o negócio cresce, a complexidade aparece em camadas. Primeiro vem a necessidade de organizar melhor o inventário, criar SKUs, lidar com variações de tamanho, cor e voltagem. Depois surge a demanda por um sistema mais robusto de gestão de pedidos. Em seguida, entram as integrações com meios de pagamento, gateways diferentes e antifraudes variados. O carrinho que antes servia para um produto passa a precisar suportar compras múltiplas, regras de frete mais elaboradas, cupons, promoções. Logo aparece a necessidade de permitir que o consumidor use dois cartões no mesmo pedido para somar limites. Cada uma dessas etapas exige mais código, mais tempo de desenvolvimento, mais manutenção.

O custo real do software proprietário não está no primeiro mês nem no primeiro ano. Ele surge com a rotina. A equipe técnica passa a operar em modo de sobrevivência, corrigindo remendos, sustentando puxadinhos feitos ao longo do caminho, tentando evitar que algo quebre. O foco deixa de ser evolução e passa a ser contenção. A tecnologia, que deveria impulsionar o crescimento, vira um gargalo silencioso. O empreendedor continua acreditando que economizou ao evitar uma plataforma pronta, mas paga a conta na forma de lentidão, dificuldade de adaptação e energia desviada do que realmente diferencia o negócio.

Vantagens da plataforma pronta e bases comuns

Plataformas prontas existem justamente porque milhares de empresas enfrentam desafios muito parecidos. Controle de estoque, gestão de pedidos, integração com pagamentos, antifraude, logística, tudo isso é comum na maior parte das operações de comércio eletrônico. Fornecedores que atendem centenas ou milhares de clientes conseguem diluir o custo de desenvolvimento nessa base ampla. Eles mantêm equipes grandes dedicadas exclusivamente à evolução do produto. Cada melhoria feita para um cliente passa a beneficiar todos os outros. Assim, recursos que seriam caros ou inviáveis para uma única empresa tornam-se acessíveis em escala.

Nesse modelo, a evolução deixa de ser um peso individual. Ela vira um processo contínuo e coletivo. O lojista passa a concentrar seu esforço em produto, marca, experiência, relacionamento, enquanto a infraestrutura acompanha o mercado quase em tempo real. É por isso que, em atividades altamente padronizadas, como o e-commerce tradicional, a plataforma pronta costuma ser a escolha mais eficiente do ponto de vista econômico e estratégico.

Isso não significa que desenvolver algo próprio seja sempre um erro. Existem modelos de negócio que não se repetem em milhares de operações. Uma tiqueteira precisa lidar com seleção de assentos, regiões de estádio, preços diferentes por setor, meia-entrada, regras específicas por evento, promoções ligadas a bancos ou bandeiras. Aplicativos de mobilidade, delivery ou contratação de serviços resolvem dores muito particulares, em nichos com poucos players. Nesses cenários, a tecnologia é parte central da proposta de valor. Ela não apenas sustenta o negócio, ela é o negócio. Faz sentido que seja desenhada sob medida para resolver problemas únicos.

Entre esses dois extremos, existe ainda o caminho híbrido. Em muitos mercados, parte das dores é comum à indústria, enquanto a outra parte é estratégica e diferenciadora. Usar uma plataforma pronta para aquilo que é padrão e investir em desenvolvimento próprio onde há inovação real pode ser a combinação mais inteligente. O importante é que o cliente final enxergue uma experiência única e integrada, sem perceber que, por trás, existem sistemas distintos conversando entre si.

Essa escolha define se a tecnologia será um alicerce invisível que evolui junto com o mercado ou um projeto permanente, sempre inacabado, consumindo energia que poderia estar sendo usada para fazer o negócio crescer. Entender onde sua empresa é igual à maioria e onde ela precisa ser diferente é o que separa uma decisão pragmática de uma aposta baseada apenas na ilusão de controle.