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Pensamento criativo em modelos organizacionais complexos

Por: Beto Sirotsky

Co-Founder da BPool

Co-Founder da BPool, plataforma de curadoria, contratação e gestão de serviços de marketing que viabiliza que grandes empresas se conectem ao ecossistema de comunicação, presente em mais de 10 países, com clientes como Unilever, Vivo, Novartis, Reckitt e L'Oréal.

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A conversa entre Andrew Huberman e Rick Rubin, lendário produtor musical e autor de O ato criativo: Uma forma de ser, traz uma provocação pertinente para 2026, momento em que observamos ideias, textos e discursos cada vez mais homogêneos sob a influência da inteligência artificial.

Vista aérea de seis pessoas ao redor de uma mesa rústica colaborando em um desenho de uma lâmpada amarela sobre papel branco, com lápis espalhados e uma pequena lâmpada azul no canto.
Imagem: Envato.

Rubin descreve a criatividade como algo efêmero, quase como um sonho. Ideias se transformam rapidamente ou desaparecem se não forem registradas. No ambiente corporativo, isso evidencia uma característica recorrente: organizações podem ser altamente competentes na execução – algo que considero essencial -, mas nem sempre estruturam espaço para perceber. Sem atenção ativa, a fase de coleta de sementes, termo utilizado por Rubin, simplesmente não acontece.

A mente de principiante e o modelo plataforma

Modelos tradicionais, lineares, privilegiam eficiência e previsibilidade. O modelo plataforma, embora também opere com eficiência, depende da qualidade das conexões que estabelece. Em um mercado como o de marketing e comunicação, criatividade precisa estar presente nas soluções que desenhamos, nos produtos que estruturamos e na materialização concreta das entregas aos clientes.

A chamada “mente de principiante”, trazida por Rubin, é fundamental para manter a vitalidade criativa. À medida que empresas crescem, acumulam sistemas e crenças que oferecem estabilidade, mas podem reduzir a abertura ao novo. Os negócios que desejam preservar a capacidade criativa precisam manter certo grau de porosidade. É um princípio que procuro levar às culturas das organizações em que atuo, seja na gestão direta ou no conselho.

O valor da intuição e das restrições no design de negócios

Rubin destaca ainda a importância de seguir sinais que não são puramente racionais. Nos negócios, isso se traduz na leitura de cultura, comportamento e contexto. Dados são indispensáveis, mas raramente indicam sozinhos o próximo movimento. A capacidade de perceber antes de medir continua sendo um diferencial crítico.

Há também uma reflexão importante sobre limitações. Restrições voluntárias estimulam a inovação. No desenho de modelos de negócio, isso significa foco e direção estratégica. A abundância ilimitada de possibilidades tende a dispersar energia. A escolha cria direção.

A dúvida, por sua vez, merece atenção. Em vez de sinalizar fragilidade, pode funcionar como mecanismo de qualidade. Questionar hipóteses, testar premissas e revisar convicções fortalece decisões. Em ambientes complexos, a ausência de dúvida pode ser mais arriscada do que sua presença. Lideranças influentes sabem usar o poder da dúvida. Ter muitas certezas hoje em dia gera, no mínimo, desconfiança.

Consciência estratégica e a transformação para o SXSW

Rubin escreve ainda que ampliar a prática da consciência é uma escolha contínua. A qualidade do que absorvemos: referências, conversas, repertório influencia diretamente nossa capacidade de discernimento. Em um cenário de sobrecarga informacional, selecionar melhor o que permitimos entrar torna-se parte da estratégia.

Ele também lembra que o mundo está em constante transformação, assim como nós. Nenhuma organização permanece estática. Se o ambiente muda e as pessoas mudam, os sistemas que criamos também precisam evoluir. Modelos organizacionais complexos precisam incorporar aprendizado contínuo. E mais: precisam gerar tensão entre ousar e preservar.

Às vésperas do SXSW, um dos principais encontros globais de inovação, revisitar todas essas premissas é um exercício potente. Mais do que consumir conteúdo, a ida a esses festivais precisa transformar provocações em ação concreta, tornar tangíveis as ideias que emergem dos painéis, dos encontros e das conversas informais. Infelizmente, o que vemos no dia a dia dentro das organizações ainda é o discurso da inovação. Mudar exige esforço, movimento e desafiar a si mesmo. Mas estar intencionalmente nos lugares certos, atento ao momento presente, pode ser o que diferencia a repetição da criação.