
Só muda a interface.
“Kosé, figgheria é sacrifício.”
Foi isso que me disse, anos depois, um chefe italiano – il pugliese Massimo Ciociola – visionário dos toques de celular ainda em 2007, em Barcelona.
A frase ficou comigo. Não pela língua, mas pela verdade. O flashback, porém, me leva sete anos antes.
Bruxelas, 2000
No ano 2000, em Bruxelas – no coração da Europa -, eu trabalhava como Editorial Manager em uma startup de saúde chamada Planet Medica.
Era uma empresa ambiciosa: produção de conteúdo médico em escala europeia, times distribuídos em vários países, formados por médicos e jornalistas, produto desenvolvido no Canadá. E uma obsessão quase religiosa por uma palavra que hoje soa ingênua: hits.
François Noel, meu chefe direto e VP de Media, vinha do jornalismo francês clássico. Inteligente, afável – e absolutamente convicto de que visibilidade se comprava. Contratamos uma gerente de publicidade americana. Vieram os banners. Muitos banners.
Na virada do milênio, aquela parecia a fórmula mais curta entre existir e ser visto.
A outra sala
Enquanto isso, em outra sala – literalmente -, algo mais interessante estava acontecendo.
Conteúdo, analytics e promoções começaram a se reunir para discutir como “fazer o site aparecer mais”. Falávamos de palavras-chave, meta tags, densidade de termos, títulos. Não chamávamos isso de SEO. Não sabíamos que aquilo tinha nome.
Era apenas o esforço consciente de sermos relevantes para quem buscava informação.
Luxemburgo e a outra moeda
Doze meses depois, já em Luxemburgo, trabalhando como Web Sales Manager na Europe Online – uma das primeiras iniciativas de internet via satélite do continente -, fui apresentado ao outro lado da moeda: keyword advertising.
Lembro perfeitamente de reuniões em que o COO, um inglês típico chamado Phil Sabin, perguntava com uma naturalidade desconcertante: “você consegue colocar a Europe Online como primeiro resultado em uma semana?”.
Era o início de uma nova lógica: pagar para aparecer quando alguém demonstra intenção declarada.
O resto é história.
SEO nunca foi truque, sempre foi fundamento
Durante décadas, o verdadeiro SEO nunca foi sobre “enganar o algoritmo”.
Foi sobre entender como as pessoas formulam perguntas, estruturar conteúdo de forma compreensível, construir autoridade ao longo do tempo, aceitar que relevância exige trabalho contínuo.
Anúncios aceleram.
SEO sustenta.
Empresas inteligentes sempre trabalharam os dois eixos em paralelo.
Mas confundimos as coisas no caminho.
SEO virou checklist.
Ads viraram muleta.
E relevância passou a ser confundida com orçamento.
Até que a interface mudou de novo.
Quando a internet para de apontar e começa a responder
Do ano 2000 avançamos 23 anos.
O que parecia um experimento – uma empresa chamada OpenAI, com investimento inicial de Elon Musk – começou a responder a perguntas melhor do que qualquer mecanismo de busca.
Depois vieram outros: Anthropic, Google, Meta, Perplexity.
E algo fundamental mudou.
A internet deixou de ser um sistema que leva você a respostas e passou a ser um sistema que responde por você.
Não há mais dez links azuis.
Há uma resposta.
E essa resposta não é neutra.
Ela é construída.
GEO não é o novo SEO, é outra camada de realidade
Generative Engine Optimization (GEO) não substitui SEO.
Ela o transcende.
Se SEO organizava páginas, GEO organiza significados.
Modelos de linguagem não perguntam: “qual site rankeia melhor?”.
Eles perguntam, implicitamente:
– O que é consenso?
– Quem explica melhor?
– Quais fontes reduzem ambiguidade?
– O que parece confiável quando tudo isso é cruzado?
Relevância, agora, é ser parte da resposta, mesmo quando o clique nunca acontece.
O novo paradoxo da visibilidade
Existe um desconforto silencioso que muitos executivos ainda não sabem nomear.
Hoje, marcas podem:
– Influenciar decisões antes do clique.
– Gerar tráfego mensurável a partir de interfaces como o ChatGPT.
– E, ao mesmo tempo, exercer impacto relevante fora do alcance da maioria dos dashboards.
Sim, há tráfego – e ele cresce rapidamente.
Mas ele não conta a história inteira.
O que os analytics começam a mostrar é apenas a superfície de um fenômeno maior: a convivência entre visibilidade mensurável e relevância implícita.
Não se trata de falta de dados.
Trata-se de uma mudança na arquitetura da atenção.
Assim como no início dos anos 2000 muitos acreditavam que banners resolveriam o problema da visibilidade, hoje ainda subestimamos o que significa ser relevante em uma interface que responde, resume e recomenda – mesmo quando não redireciona.
E os anúncios da OpenAI?
Eles não são o ponto.
São o sinal.
Não porque anúncios substituem relevância, mas porque nenhum sistema dominante de informação permanece não monetizado.
Foi assim com mecanismos de busca.
Foi assim com redes sociais.
Será assim com IA?
Anúncios exigem capital.
Relevância exige entendimento.
Empresas maduras sempre trabalham os dois eixos.
A pergunta real não é se haverá anúncios.
É quem continuará relevante quando eles chegarem.
GEO como pilar, não como campanha
É aqui que GEO se torna um pilar estratégico para os próximos anos.
Não como truque.
Não como “hack”.
Mas como disciplina contínua de:
– Clareza conceitual
– Autoridade distribuída
– Consistência narrativa
– Presença sem dependência de mídia paga
Algumas empresas perceberam isso cedo.
A Revere AI, por exemplo, liderada por Mike Ensing, iniciou essa jornada ainda nos primeiros momentos da popularização do ChatGPT – quando poucos entendiam que o jogo não era “aparecer mais”, mas ser entendido corretamente por sistemas generativos.
Não se trata de controlar respostas.
Trata-se de merecer ser parte delas.
O que vem pela frente? Ninguém sabe, mas dá para perguntar.
Estamos no início de uma nova consolidação de relevância.
Algumas perguntas seguem abertas:
– A relevância de conteúdo será diluída ou amplificada?
– Haverá redes de anúncios unificadas entre múltiplas plataformas de IA?
– Quais formatos vencerão: texto, listicles, recomendações, vídeo, advertoriais?
– A autoridade será concentrada ou mais distribuída do que nunca?
Não sabemos todas as respostas, mas sabemos uma coisa.
Toda transição de interface cria vencedores antes que o mercado perceba que o jogo mudou.
Foi assim com SEO.
Foi assim com mídia paga.
Está sendo assim com GEO.
Empresas que esperam “clareza total” normalmente chegam quando o espaço já foi ocupado.
O tempo agora não é de executar às cegas. É de entender profundamente.
Porque relevância nunca foi automática, ela sempre foi construída.
E como diria o Signore Ciociola: figgheria é sacrifício.