
Algum tempo atrás, meu amigo e empreendedor Eric Santos me disse algo assim: “O próximo salto não é criar mais software. É deixar o software se encontrar com outro software e ver o que nasce daí.”
“… É deixar o software se encontrar com outro software e ver o que nasce daí.”
Ele chamava essa ideia de Plasma Software.
Não como produto. Não como plataforma. Mas como um estado da matéria digital. Sistemas vivos, recombináveis, capazes de gerar novo código a partir de interação, contexto e intenção.
Na época, soou exagerado.
Hoje, olhando para o que está acontecendo no e-commerce, na inteligência artificial e na forma como negócios digitais nascem, crescem e morrem, a frase soa menos como provocação e mais como diagnóstico.
O tempo em que o software apenas obedecia
Houve uma época em que o software fazia exatamente o que mandávamos. Nada mais. Nada menos.
Na Web 1.0, sites eram vitrines. Código estático. HTML duro. Você entrava, consumia informação e saía. Nenhuma conversa. Nenhuma adaptação. O valor estava no acesso, não na experiência.
Mesmo os primeiros movimentos do comércio eletrônico seguiam essa lógica. Catálogo, carrinho, checkout. Funcional. Frio. Determinístico. O software obedecia e, por um tempo, isso parecia suficiente.
Quando as plataformas assumiram o controle
A Web 2.0 muda tudo.
O usuário passa a participar, criar conteúdo, interagir, vender.
No Brasil, esse movimento aparece cedo. O Mercado Livre deixa de ser apenas um site de classificados e se transforma em uma infraestrutura completa de comércio digital. Pagamentos, reputação, logística, dados. Tudo dentro do mesmo sistema.
Globalmente, plataformas como Shopify e, no Brasil, VTEX, reduzem drasticamente a barreira para vender online. Qualquer pessoa pode abrir uma loja. Qualquer marca pode escalar.
Mas existe um trade-off invisível.
Quanto mais poder a plataforma oferece, mais controle ela exige.
O usuário cria, desde que siga o caminho.
O software ajuda, desde que você configure corretamente.
Painéis, menus, plugins, integrações. O e-commerce se profissionaliza, mas também se torna técnico. Vender passa a depender não só de visão, mas de saber operar sistemas complexos.

APIs: quando o software aprende a conversar
A mudança estrutural acontece quando o software aprende a falar com outro software.
APIs conectam plataformas, serviços e dados. O e-commerce deixa de ser um site e vira um ecossistema. Pagamentos, logística, marketing, CRM, analytics. Tudo conectado.
No Brasil, esse movimento ganha força com fintechs crescendo junto com o varejo digital. O Nubank, por exemplo, não nasce apenas como banco, mas como sistema altamente integrável. Serviços fluem. Dados circulam. Experiências se constroem em camadas.
Mas ainda existe um gargalo.
Alguém precisa montar tudo isso.
Mesmo com APIs, o software continua esperando instruções técnicas. O humano ainda precisa traduzir intenção em configuração. Até agora.
Quando a linguagem vira interface
A IA generativa muda o jogo em um ponto fundamental. Ela elimina a necessidade de tradução técnica.
Você não precisa mais explicar como.
Você explica o que e, principalmente, por quê.
É aqui que surge o Vibe Commerce.
Em vez de começar escolhendo plataforma, depois tema, depois plugins e fluxos, o ponto de partida muda. Você começa dizendo algo como: “Quero vender um produto digital, com uma vibe simples, focado em creators brasileiros, checkout rápido e linguagem direta.”
E o sistema responde criando estrutura, páginas, textos e lógica de venda. Nada perfeito. Mas funcional. Iterável. Vivo.
A vibe não é design.
É intenção transformada em código.
O Brasil como laboratório silencioso
O Brasil está especialmente bem posicionado para esse movimento.
Plataformas como Loja Integrada cresceram atendendo pequenos empreendedores que não querem aprender tecnologia. Querem vender. Creators, infoprodutores, marcas independentes.
O Vibe Commerce conversa diretamente com essa realidade.
Menos configuração, mais expressão.
Menos setup, mais narrativa.
Em um país onde criatividade historicamente compensou a falta de infraestrutura, a ideia de descrever e vender parece quase natural.

Quando o software começa a se recombinar
O ponto mais radical do Vibe Commerce é o comportamento do software, e não é a velocidade.
Esses sistemas já nascem conectados. Chamam APIs, geram código sob demanda, ajustam fluxos, testam variações. O software deixa de ser um produto fechado e passa a funcionar como um ambiente de recombinação.
É aqui que a ideia de Plasma Software começa a ganhar forma prática.
Ainda não como algo totalmente autônomo, mas como direção. Software criando software quase em tempo real, a partir de intenção humana e interação com outros sistemas.
O fim da configuração como ponto de partida
No e-commerce tradicional, criar uma loja é um projeto principalmente técnico.
No Vibe Commerce, é um experimento criativo.
Testar um produto não leva semanas. Leva minutos. O foco sai da infraestrutura e vai para a proposta de valor. Quem entende o cliente avança. Quem apenas domina ferramentas perde relevância.
O que muda quando o software começa a sentir
Se a Web 1.0 foi leitura, a 2.0 foi interação e a era das APIs foi integração, o Vibe Commerce representa algo diferente: interpretação.
O software não apenas executa comandos. Ele entende contexto. Ele sugere caminhos. Ele cria junto.
Talvez o Plasma Software ainda esteja em formação. Mas o Vibe Commerce é um sinal claro de que o software deixou de ser apenas uma ferramenta obediente e começou a se comportar como algo vivo.
E quando isso acontece, não muda só a tecnologia.
Muda o ponto de partida. Ideias deixam de esperar por infraestrutura, e pessoas passam a criar antes de configurar. O mercado avança não porque ficou mais complexo, mas porque ficou mais acessível, e quem entende a própria visão agora tem, finalmente, software capaz de acompanhá-la.