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Do clique à recomendação: como agentes de IA mudam a descoberta no e-commerce

Por: Andrezza Amadio

Coordenadora de Marketing Institucional na Social

Andrezza Amadio é Coordenadora de Marketing Institucional na Social Digital Commerce, com atuação em Eventos, Branding & Posicionamento e Estratégia Digital. Lidera diretrizes de marca e campanhas institucionais, além do planejamento e PMO de feiras e eventos, stands, pop-ups e ativações, conectando comunicação, presença de marca e geração de demanda. Também é responsável pela comunicação on e off, desenvolvimento de materiais e conteúdos, gestão de canais institucionais e interface com agências, assessoria de imprensa, produtoras e fornecedores, garantindo consistência de narrativa e execução de ponta a ponta. Ao longo da carreira, atuou com marcas de diferentes perfis em projetos de marketing institucional, branding, redes sociais e campanhas, além de relacionamento com imprensa e parceiros. É pós-graduada em Comunicação e Marketing Digital pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Cruzeiro do Sul. Utiliza IA generativa como apoio à pesquisa e produção, com curadoria final.

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A descoberta de produtos no e-commerce sempre foi mediada por dois sistemas dominantes: busca (intenção explícita) e feeds (descoberta por estímulo). O que muda com agentes de IA não é apenas a interface, é a arquitetura dessa mediação. E vale um recorte importante: este texto não trata de IA para atendimento. Trata do impacto dos agentes na descoberta e na decisão de compra, quando a jornada passa a se resolver antes do clique.

Pessoa usando um notebook com interface digital de **agentes de IA**, ícones de automação, chat, dados e anúncios em sobreposição.
Imagem: Reprodução.

Em vez de conduzir o consumidor por “consulta → lista de links → clique → site → decisão”, o agente tende a operar como um intermediador ativo: sintetiza, compara, filtra e entrega uma shortlist. Em alguns casos, a compra pode acontecer ali mesmo, dentro da conversa, sem redirecionar para um site, o que algumas plataformas têm chamado de instant checkout.

Para quem já vende online com maturidade (B2C, D2C ou B2B), isso não é “tendência de produto”. É mudança direta em aquisição, eficiência de mídia, descoberta de marca e no papel do próprio site: menos “descoberta”, mais prova, conversão e relacionamento.

O que a NRF 2026 sinaliza sobre agentic commerce

A NRF, maior evento de varejo do mundo, reforçou nesta edição uma virada: agentes de IA deixaram de ser apenas uma camada de recomendação e passaram a assumir etapas da jornada. É esse movimento que o mercado tem chamado de agentic commerce: quando sistemas com comportamento de “agente” influenciam e, em alguns casos, executam parte do processo de descoberta, decisão e compra. Um exemplo é a sessão “The rise of agentic commerce”, disponível na agenda oficial do evento.

O sinal mais prático, porém, está no esforço de plataformas e varejistas em encurtar a jornada entre “descobrir” e “comprar”. A discussão não é “mais automação” por si só, e sim a criação de infraestrutura para que a conversa se torne um novo ponto de entrada do varejo.

Do clique ao “share de recomendação”

Quando parte da jornada se resolve antes do clique, duas coisas mudam.

Primeiro: a lista de opções tende a ficar menor. Em vez de comparar dezenas de páginas, o consumidor vê poucas alternativas. Entrar nessa lista passa a valer muito mais.

Segundo: a escolha fica mais “fria” e comparável. O agente precisa entender o produto, a oferta e o risco. Se a informação é confusa ou incompleta, a recomendação tende a não acontecer.

Por isso, a pergunta deixa de ser “como melhorar CTR?” e vira: como aumentar a chance de ser recomendado quando o consumidor descreve sua necessidade em linguagem natural?

Agentes não escolhem por carisma. Escolhem por clareza.

Um agente não “se encanta” com slogan. Ele precisa comparar. E comparação depende de sinais claros e confiáveis.

Na prática, ser “recomendável” costuma depender de quatro coisas:

Clareza de oferta: informação completa e padronizada (atributos, variações, compatibilidade, prazos, política de troca, garantias).

Prova pública: reputação fora do seu site (reviews, reclamações recorrentes, referências em comunidades e fontes setoriais).

Coerência: a mesma verdade da marca repetida sem contradições (conteúdo, políticas, descrições, promessas).

Baixo risco percebido: deixar explícito o que o produto faz e o que não faz, com regras e prazos transparentes.

Aqui entra o ponto institucional: marca deixa de ser só “lembrança” e passa a ser também confiança operacional.

O que muda na prática para quem já opera e-commerce

Para quem vende em escala, isso pede menos campanha e mais rotina bem feita. Três frentes ganham peso.

1) Governança de dados de produto e oferta

Se o agente precisa comparar, você precisa ser fácil de “ler”. Não é sobre encher campo: é sobre consistência. Um painel simples já ajuda:

– % de atributos críticos completos por categoria.

– padrões de nomes e variações (sem duplicidade).

– dúvidas recorrentes no SAC por falha de ficha.

– devoluções por “não era como esperado” (sinal de informação ruim).

2) Reputação distribuída e prova verificável

Na era dos agentes, não basta a marca dizer que é boa; é preciso existir prova pública consistente. Institucional vira governança de reputação: garantir volume e qualidade de avaliações, padrão de resposta, e coerência entre o que se promete e o que se entrega. Reputação confusa ou contraditória aumenta risco e reduz recomendação.

3) Conteúdo que reduz dúvida (não só conteúdo que gera clique)

O conteúdo que mais ajuda aqui é o que corta incerteza: guias de escolha, comparativos honestos, páginas de dúvidas críticas, documentação e políticas objetivas. Isso aumenta conversão e também dá sinais claros para sistemas que resumem e comparam.

A compra dentro do assistente é o próximo degrau

A descoberta por agentes ganha outra dimensão quando a plataforma tenta viabilizar checkout dentro do próprio assistente, reduzindo fricção. Isso já aparece em comunicados oficiais recentes:

– Walmart detalhou a integração com o Gemini para experiências de descoberta e compra.

– A Microsoft anunciou capacidades “agentic” para varejo, incluindo o Copilot Checkout.

Para o lojista/indústria, o impacto é direto: “ser descoberto” e “ser comprável” ficam mais próximos no mesmo fluxo. Isso aumenta a importância de clareza, reputação e regras simples, porque o consumidor confia com menos navegação.

Como medir sem ficar preso no painel do clique

Tráfego e CTR continuam importantes, mas viram mais consequência do que causa. Um painel sênior precisa combinar:

Demanda de marca: brand search, tráfego direto, recorrência, crescimento de CRM.

Reputação: volume/qualidade de reviews, temas recorrentes em avaliações e reclamações, taxa de resolução.

Presença em descoberta assistida: monitoramento por consultas-chave (por categoria e intenção), ao longo do tempo.

Eficiência: CAC por categoria/canal, elasticidade de mídia e conversões assistidas (quando o canal permitir).

Não existe um padrão universal de mensuração de “agentes” ainda. O que existe é a necessidade de uma medição híbrida e consistente. Enquanto isso, o comportamento já está mudando: menos navegação, mais síntese, menos comparação, mais shortlist.

Agentes de IA estão mudando a descoberta de marca no e-commerce porque estão mudando o intermediador da decisão. E quando o intermediador muda, o que define vitória muda junto.

A tendência é que o institucional entre numa fase mais prática: não basta ser lembrado; é preciso ser recomendável. Quem tratar isso como disciplina (dados consistentes, prova pública, conteúdo que reduz dúvida e governança) tende a ganhar espaço nas shortlists e reduzir o custo marginal de crescer. Quem tratar como campanha vai sentir o inverso: o clique fica mais raro, a comparação fica mais curta e o crescimento fica mais caro.