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Confiança é o verdadeiro teste da nova fase do Pix

Por: Marcelo Bentivoglio

É cofundador e CFO da QI Tech. Líder empresarial inovador, possui ampla experiência multifuncional em diversos setores, incluindo startups, empresas de médio porte e um renomado banco global. Iniciou sua carreira no Goldman Sachs e, em 2014, fundou a Banfox (posteriormente adquirida), uma das pioneiras no financiamento de faturas para PMEs no Brasil. Após a Banfox, cofundou a QI Tech, a primeira SCD (Sociedade de Crédito Direto) aprovada pelo Banco Central do Brasil. Hoje, a QI Tech atende mais de 1.000 grandes clientes com tecnologia de ponta, transaciona bilhões e emite mensalmente mais de 4 bilhões de reais em novos empréstimos.

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O Pix cresceu rápido porque resolveu um problema de forma simples. Transferir dinheiro no Brasil era caro, lento e burocrático. O Pix eliminou tudo isso. Em poucos anos, virou hábito. Está no café dividido, no aluguel, no e-commerce, no pagamento entre empresas. Agora, ao avançar para modelos de recorrência e para estruturas como o Pix garantido, ele entra em uma nova fase. Uma fase ainda mais ambiciosa.

Smartphone com o logo do Pix ao centro, cercado por ícones de pagamento e segurança.
Imagem gerada por IA.

Os dados divulgados ao longo de 2025 pelo Banco Central do Brasil deixam isso claro. O Pix não apenas segue crescendo em volume e valor transacionado, como se consolida como o principal trilho de pagamentos do país. Meses com bilhões de transações ao longo do ano. Picos diários acima da casa das centenas de milhões tornaram-se parte da normalidade.

O Pix deixou de ser inovação para virar infraestrutura crítica.

A entrada do Pix na economia da recorrência

É justamente por isso que o Pix automático e o Pix garantido importam tanto. Eles não são apenas novas funcionalidades. Empurram o Pix para territórios historicamente dominados por cartões, boletos e débito automático. O território da recorrência. O território do compromisso financeiro contínuo.

Os benefícios são claros. Para o consumidor, surge a possibilidade de pagar assinaturas, mensalidades e serviços recorrentes sem depender de cartão de crédito. Para milhões de brasileiros que nunca tiveram limite aprovado, isso é inclusão financeira na prática. Não como discurso, mas como acesso real a produtos digitais, educação, entretenimento e serviços.

Para as empresas, o ganho é previsibilidade. Recebimento imediato, menor custo operacional, menos intermediários, menos fricção na cobrança. O Pix deixa de ser apenas o momento do pagamento e passa a participar da gestão do fluxo de caixa. Em um país em que capital de giro sempre foi um desafio, isso importa.

A experiência também tende a ser mais simples. A autorização acontece no aplicativo do banco, em um ambiente familiar ao usuário. Não há longos formulários nem múltiplas telas. Quando bem desenhado, o processo é tão simples como o cartão de crédito.

Simplicidade, confiança e novos riscos

Mas toda evolução estrutural traz novos desafios que não podemos ignorar.

O primeiro deles é comportamental. Autorizar uma cobrança recorrente é fácil. Fácil demais. Existe uma diferença relevante entre autorizar e compreender. Frequência, valores, reajustes, regras de cancelamento. Se isso não estiver claro, o risco não é tecnológico, é de confiança. O mesmo sistema que hoje transmite segurança pode gerar frustração se o usuário sentir que perdeu o controle.

Outro ponto é a visibilidade financeira. O Pix não tem fatura, fechamento ou limite explícito. Isso é uma virtude, mas exige novos mecanismos de acompanhamento. À medida que as autorizações se acumulam, cresce a importância de alertas, histórico claro e gestão ativa dos compromissos assumidos. Algo que as instituições vão precisar construir para atender bem o cliente.

A fraude também muda de natureza. O Pix automático não cria fraude, mas transforma o risco. Sai o golpe pontual, entra a exploração persistente. Uma autorização indevida pode produzir efeitos por semanas. Por isso, os avanços regulatórios e operacionais anunciados para 2025, especialmente em rastreabilidade e resposta, são tão relevantes. A segurança do Pix sempre foi construída em camadas. A recorrência exige mais uma na entrada e no acompanhamento.

Quando o Pix se aproxima do crédito

No caso do Pix garantido, quando o pagamento passa a carregar garantias, parcelamentos ou compromissos futuros, ele se aproxima do universo do crédito. Isso amplia a conversão, cria novas opções de compra e dá fôlego ao consumo, mas cobra mais responsabilidade.

A simplicidade, maior virtude do Pix, não pode virar opacidade. Se o usuário não percebe claramente que está assumindo um compromisso financeiro futuro, algo falhou na jornada. Quanto mais o Pix garantido se aproxima do crédito, mais ele exige controles, limites e governança semelhantes aos do sistema financeiro tradicional. Caso contrário, corre-se o risco de criar um crédito sem a mesma disciplina.

Nada disso invalida o modelo. Pelo contrário. Mostra que o Pix está amadurecendo. Infraestruturas que realmente transformam mercados passam por esse estágio.

O desafio não é decidir se o Pix recorrente e o Pix garantido vão funcionar. Eles vão. A questão é como fazê-los funcionar bem.

O sucesso do Pix até aqui veio da confiança. Confiança do usuário, das empresas e do sistema financeiro. Manter essa confiança, agora que o Pix começa a operar no mês seguinte e não apenas no instante, é o verdadeiro teste dessa nova fase.