A inteligência artificial (IA) deixou de ser um experimento pontual e passou a ocupar papel estrutural no varejo e na indústria de bens de consumo embalados. É o que mostra o estudo State of AI in Retail and Consumer Package Goods: 2026 Trends, da NVIDIA, apontando avanço consistente na adoção da tecnologia, impacto financeiro mensurável e aumento dos investimentos para 2026.

Segundo o levantamento, 58% das empresas já utilizam IA de forma ativa, avanço de 16 pontos percentuais em relação a 2024. Outras 33% estão em fase de avaliação, o que indica redução do período exploratório e maior foco em soluções com retorno comprovado. No total, 91% das organizações do setor já estão engajadas com IA, seja em uso ou análise.
A pesquisa mostra uma diferença clara por porte. Entre companhias com mais de 1 mil funcionários, 69% já usam IA ativamente, enquanto entre empresas menores esse índice cai para 48%. Apesar disso, o estudo indica que negócios de menor porte vêm recorrendo com mais intensidade a soluções como IA agêntica para compensar limitações de equipe e recursos.
Impacto direto
Os efeitos financeiros aparecem de forma ampla. 89% das empresas afirmam que a IA contribui para o aumento da receita, enquanto 95% relatam redução de custos operacionais. Em ambos os casos, parte significativa aponta impactos acima de 5%.
Os resultados superam, inclusive, os objetivos iniciais. As empresas começaram suas jornadas buscando eficiência operacional (45%), melhoria da experiência do cliente (38%) e ganho de produtividade (29%). Na prática, 54% relataram aumento de produtividade, 52% melhora na eficiência operacional e 41% avanços na experiência do consumidor.
Com os resultados, o apetite por investimento cresce. Mais de 90% dos executivos planejam ampliar o orçamento destinado à IA em 2026, sendo que 58% projetam aumentos superiores a 10%. As prioridades incluem otimização de fluxos de trabalho e ambientes produtivos, identificação de novos casos de uso e capacitação das equipes internas.
IA agêntica começa a sair do piloto
Um dos destaques do relatório é o avanço da IA agêntica, capaz de planejar, decidir e executar tarefas de forma autônoma. 47% das empresas já utilizam ou avaliam esse tipo de solução, sendo que 20% afirmam ter agentes de IA em operação.
Os principais objetivos associados a essa tecnologia incluem ganho de velocidade e eficiência dos processos, personalização da experiência do cliente e suporte à tomada de decisão em tempo real. Na prática, os usos mais citados são automação de fluxos internos, gestão e recuperação de conhecimento, assistentes para clientes e funcionários e aplicações em marketing e publicidade personalizados.
IA em aplicação
O estudo detalha a distribuição dos casos de uso ao longo da cadeia de valor. O digital commerce lidera, citado por 61% das empresas, seguido por back office, com 54%, cadeia de suprimentos, com 45%, e lojas físicas, com 24%.
Em marketing e publicidade, aparecem com destaque análise e segmentação de clientes, criação de conteúdo e sistemas de recomendação. No digital commerce, ganham espaço assistentes de atendimento e motores de recomendação. Já nas lojas físicas, as empresas priorizam customer analytics e insights operacionais em tempo real.
Cadeia de suprimentos
A pressão logística aumentou. 64% das empresas afirmam que os desafios da cadeia de suprimentos cresceram no último ano, impulsionados por fatores como instabilidade geopolítica, exigências regulatórias e expectativas mais altas dos consumidores.
Nesse contexto, 91% das organizações relatam que a IA ajudou a reduzir custos operacionais na logística. As aplicações mais comuns envolvem ganho de eficiência e throughput, cumprimento de prazos e expectativas do cliente e rastreabilidade e transparência, esta última com crescimento expressivo ano contra ano.
Robótica e IA física
O uso de IA física e robótica ainda está em estágio inicial, com 17% das empresas usando ou avaliando essas soluções. Entre os casos citados aparecem simulação e otimização intralogística, robôs de separação e movimentação e veículos autônomos em armazéns, apontados como promissores para enfrentar escassez de mão de obra e aumento da complexidade operacional.
Talentos como principal gargalo
Embora questões ligadas a dados tenham perdido relevância, o estudo mostra que o déficit de profissionais qualificados se tornou o principal obstáculo. A falta de talentos especializados em IA é citada por 46% dos respondentes, superando desafios como privacidade, soberania de dados ou disponibilidade de informações para treinamento.
Inferência no centro da estratégia
Outro ponto que ganha destaque é a inferência, etapa responsável por colocar os modelos em operação. As empresas passaram a olhar com mais atenção para fatores como custo total de operação, latência, precisão, capacidade de escala e benchmarking de performance, considerados decisivos para manter a IA financeiramente sustentável em ambientes de alto volume.
Da experimentação à execução
Segundo o estudo, o varejo e o setor de bens de consumo entram em 2026 com uma agenda mais pragmática. A discussão deixa de ser se vale a pena investir em IA e passa a girar em torno de como escalar a tecnologia com eficiência, equilibrando custos, desempenho e capacidade interna, em um cenário de competição cada vez mais orientada por dados.