O mercado brasileiro de bens massivos de consumo inicia 2026 em um cenário de estabilidade em volume, mas com mudanças relevantes na forma como os consumidores compram, organizam suas rotinas e se relacionam com as marcas. É o que aponta um levantamento da Worldpanel by Numerator, que identificou dez movimentos estruturais que devem orientar decisões estratégicas do setor ao longo deste ano.

Segundo a análise, o contexto não indica apenas ajustes pontuais, mas um redesenho do consumo, influenciado por fatores demográficos, hábitos de saúde, avanço do digital e novas dinâmicas familiares.
1. Estabilidade com novas dinâmicas de compra
O setor deve registrar leve retração de 0,2% em volume em 2026, mesmo com o aumento da renda disponível após a atualização da tabela do Imposto de Renda. O consumidor tende a ir mais vezes ao ponto de venda, com alta de 12,8% na frequência, mas comprando menos itens por visita, movimento que pressiona marcas a repensarem sortimento e execução.
2. Menos filhos, mais pets
Lares com pessoas mais velhas ganham peso no consumo, concentrando 16% dos gastos em bens massivos e crescendo acima da média. Ao mesmo tempo, domicílios com apenas um filho já respondem por quase um terço do faturamento da cesta. A presença de pets também avança, com casais sem filhos representando 41% do mercado de alimentos para animais.
3. Qualidade de vida orienta decisões
O crescimento de afastamentos ligados a ansiedade e depressão nos últimos anos reforçou a busca por equilíbrio físico e mental. Produtos associados a bem-estar, rotina sustentável e benefícios claros passam a influenciar a escolha do consumidor e a diferenciação das marcas.
4. Alimentação entre saúde e novas terapias
A redução do consumo de açúcar já é prioridade para quase metade dos brasileiros. O uso de medicamentos da classe GLP-1 também vem alterando hábitos alimentares e o tamanho das porções, abrindo espaço tanto para produtos saudáveis acessíveis quanto para linhas premium com foco nutricional.
5. Funcionalidade e indulgência controlada
Categorias como bebidas proteicas e cervejas sem álcool ampliaram significativamente sua penetração nos últimos anos. A busca por funcionalidade, prazer moderado e benefícios objetivos segue impulsionando o crescimento desses segmentos. Enquanto em 2025, o café foi uma das bebidas que mais movimentou o comércio eletrônico.
6. Autocuidado no consumo diário
O cuidado pessoal deixou de ser associado apenas ao luxo. Perfumes, por exemplo, cresceram em volume puxados pelas classes D e E, enquanto o brasileiro passou a consumir, em média, seis categorias de Higiene e Beleza por semana, ampliando oportunidades para kits, embalagens maiores e produtos premium.
7. Limpeza com foco em experiência
Produtos de limpeza mais sofisticados, como limpadores perfumados e soluções concentradas, já estão presentes em mais de 90% dos lares. A preferência por praticidade e eficiência vem substituindo soluções caseiras.
8. Consumo em múltiplos canais
O brasileiro transita por cerca de oito canais de compra e realiza, em média, 24 compras de abastecimento por ano. O e-commerce cresce impulsionado pelo social commerce, especialmente via WhatsApp, enquanto o delivery de alimentos apresenta tíquete médio significativamente superior ao dos canais físicos.
9. Datas comemorativas ganham relevância
Presentes sazonais seguem como alavanca para categorias tradicionais. Mais de 60% dos consumidores receberam itens de Higiene e Beleza ou chocolates em datas comemorativas, reforçando o potencial de kits e edições especiais.
10. Esporte como motor de consumo
O futebol continua influenciando hábitos. A expectativa é de aumento no tíquete médio durante a Copa do Mundo de 2026, com impacto direto em snacks, bebidas e conveniência. As apostas esportivas, presentes em metade dos lares, também ampliam o engajamento do consumidor.
Para Luisa Teruya, gerente de marketing da Worldpanel by Numerator, o desafio das marcas está em transformar esse cenário complexo em ações práticas. Segundo ela, cada tendência representa uma oportunidade concreta de revisão de portfólio, inovação e geração de valor em diferentes frentes do negócio.