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Seu negócio vai quebrar porque você ainda acha que ROAS é métrica de crescimento

Por: Gustavo Esteves

Fundador e CEO da Métricas Boss, Autor do livro “Menos Achismo Mais Dados” e já trabalhou em gigantes como B2W. Autoridade na área de Digital Analytics, com mais de 15 anos de experiência e 3 mil projetos atendidos, incluindo gigantes como PUC, Rede D’Or, Globo, Stanley, Médico Sem Fronteiras, Alura, entre outras. Atua como Mentor, Palestrante e Professor. Eleito por voto popular um dos destaques de Business Intelligence e Métricas pelo Digitalks, além de ser Host do Podcast Analytics Talks, o podcast mais ouvido de Analytics no Spotify.

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Vou começar com uma verdade que vai incomodar: se o seu P&L depende exclusivamente de Meta e Google, você não tem uma empresa. Você tem um emprego temporário pagando aluguel para Zuckerberg e Sundar Pichai.

Caderno com “ROAS” e gráfico crescente sobre mesa de trabalho com gráficos e café.
Imagem gerada por IA.

Os custos de anúncios no Meta subiram 13% recentemente. Não foi um ajuste técnico. Foi um aviso. O “Trio de Ferro” (Google, Meta, TikTok) virou um cassino de retornos decrescentes para quem insiste em jogar o mesmo jogo que todo mundo. Enquanto a maioria briga por centavos no ROAS, quem entende de negócio já migrou para outra liga: a construção de ativos que algoritmo nenhum pode taxar.

O Verão das Startups acabou. Queimar caixa em aquisição não é mais estratégia, é suicídio financeiro. E se você ainda está otimizando campanhas achando que isso é “fazer marketing”, preciso te dar uma notícia: você não é estrategista. Você é gestor de cliques.

Construir em terreno alugado é mentalidade de perdedor

A dependência de algoritmos externos não é apenas arriscada. É uma burrice estrutural disfarçada de conveniência.

Quando você coloca 100% do esforço em canais de terceiros, você abdica do controle sobre sua margem de contribuição. Se o algoritmo muda (e vai mudar), se o leilão inflaciona (e está inflacionando), sua lucratividade vira refém de regras que você não escreveu. Você construiu um império de areia na maré enchendo.

Caio Matos resumiu isso de forma cirúrgica no podcast Analytics Talks: “Você está construindo o prédio no pântano. O terreno não é controlável, as regras mudam a qualquer momento”.

Community-Led Growth não é modinha, é sobrevivência

A grande jogada para 2026 não está em interromper mais gente. Está em construir relacionamento proprietário. O Community-Led Growth (CLG) é o antídoto definitivo para o CAC inflacionado, mas 90% do mercado ainda acha que isso é “criar um grupinho no WhatsApp”.

Errado. Completamente errado.

Notion, Figma e Vercel não “têm comunidades bonitinhas”. Eles transformaram a comunidade em alavanca de eficiência operacional. A Vercel usa código aberto para que a própria comunidade desenvolva SDKs e frameworks. Eliminaram custos astronômicos de engenharia interna. O Notion resolveu o problema da “página em branco” incentivando a comunidade a criar templates. A comunidade virou suporte técnico, time de vendas e equipe de produto ao mesmo tempo.

Enquanto você queima orçamento em CPA, essas empresas têm gente evangelizando produtos de graça, criando conteúdo de graça e trazendo novos usuários de graça. Não porque são boazinhas. Porque entenderam que propriedade de audiência vale mais que aluguel de atenção.

O feijão com arroz técnico que você ignora custa 15% do seu CAC

Antes de reclamar que “o canal saturou”, responda com sinceridade: você está usando planilha de Excel e upload manual ou tem pipeline automatizado via API e server-side?

Porque o problema não é sempre a plataforma. Na maioria das vezes, é a sua preguiça operacional.

Tem case real de operação que reduziu CAC em 15% apenas automatizando a invalidação de compradores recentes. Em volumes de 1,4 bilhão de eventos mensais, esse “detalhe técnico” representa milhões de reais recuperados.

Você está enriquecendo seus dados primários (first-party data) e criptografando sinais de comportamento para educar o algoritmo sobre quem é seu ICP? Ou está dando tiro no escuro rezando para o Advantage+ fazer milagre?

A verdade é essa: você não atingiu o teto do canal. Você atingiu o teto da sua capacidade técnica.

A mentira do “medimos tudo” criou uma geração de gestores míopes

Durante anos, o marketing digital vendeu a fantasia de que tudo era 100% mensurável via cliques. Essa ilusão criou uma geração inteira de profissionais que só enxerga o que pisca no dashboard.

A realidade? A jornada do consumidor é complexa e exige uma trifeta de mensuração: MTA (Multi-Touch Attribution), MMM (Marketing Mix Modeling) e incrementalidade. E não, você não pode escolher só um.

MTA é operacional. Ajuda no dia a dia da alocação digital. Mas ele jamais vai dar crédito ao outdoor gigante da sua marca na marginal da rodovia. E aí entra o MMM.

Pensa no prédio da Afya na Barra da Tijuca. Milhares de pessoas passam por ele todo dia, não clicam em nada, mas buscam a marca no Google dias depois. Um modelo de atribuição clássico dá todo o mérito para o Search. O MMM usa estatística para isolar o impacto real da presença física e canais offline no volume total de conversões.

Sem essa visão, você corta investimentos que sustentam sua base de marca só porque “não geram clique direto”. É como demolir a fundação da casa porque ela não aparece na foto do Instagram.

A criatividade virou commodity, e agora?

O perfil do profissional de marketing mudou radicalmente há três décadas.

Anos 80: gênios criativos (era Washington Olivetto).

Anos 2010: nerds de dados.

2026: estrategista híbrido ou nada.

Para vencer hoje, você precisa equilibrar os “dois Peters”: Peter Drucker (rigor de métricas e P&L) e Peter Pan (criatividade disruptiva). E não, não é metáfora fofa. É estratégia de sobrevivência.

Com IA generativa, qualquer um cria 100 variações de criativo em minutos. Escala virou commodity. E quando todo mundo consegue escalar produção criativa, o diferencial não está em quantidade. Está em conseguir fazer as pessoas pararem de scrollar.

Em um mercado saturado de conteúdo sintético genérico, a capacidade de gerar o “uau” e interromper o padrão de consumo é a única forma de não virar invisível.

O novo CMO precisa sentar na mesa do CFO, dominando a economia do negócio, mas tem que manter alma de publicitário. Se você só entende de planilha, vira burocrata. Se só entende de criativo, vira artista desempregado.

Gestor de cliques não constrói império

Diversificação de canais não é “vamos testar TikTok”. É uma decisão de arquitetura de negócio.

O profissional de marketing moderno precisa deixar de ser vítima do algoritmo para se tornar proprietário de audiência. Isso exige planejamento consciente para construção de ativos próprios: newsletter, blog, YouTube, podcast, comunidade ativa. Coisas que garantem fôlego mesmo se Meta e Google mudarem as regras amanhã (e vão mudar).

A provocação final é profunda e incômoda: você está gerindo investimentos de marketing ou está criticando a tese do negócio para criar margem real?

Se o seu sucesso depende exclusivamente do ROAS da próxima semana no Meta, você não tem um império. Você tem um prédio construído em pântano alugado, esperando o próximo aumento de aluguel.

E quando o aluguel ficar impagável, não diga que ninguém te avisou.