Logo E-Commerce Brasil

Quando a logística farmacêutica vira gargalo (ou vantagem) no e-commerce

Por: Fátima Domingues

Gerente Geral de Logística

Fátima Christine Nunes Domingues é Coordenadora de Planejamento e Expansão na Infracommerce, uma das maiores referências em soluções logísticas e e-commerce na América Latina. Sua equipe transforma desafios em resultados, entregando inovação, excelência operacional e estratégias personalizadas para grandes marcas. Com mais de 8 anos de experiência em logística e planejamento estratégico, desenvolveu sólida expertise em warehouse, inbound/outbound, otimização de processos, redução de custos operacionais e implementação de sistemas, como o Protheus. Além disso, destaca-se na construção e gestão de estratégias de pricing logístico, garantindo competitividade e equilíbrio entre custos e serviços oferecidos. Em sua formação, possui MBA em Logística e Supply Chain Management pela Fundação Getúlio Vargas. Apaixonada por transformar desafios logísticos em oportunidades de crescimento, busca sempre alinhar inovação, eficiência e colaboração para impulsionar o sucesso dos negócios.

Ver página do autor

Imagine um centro de distribuição operando no limite, pedidos pingando o tempo todo, clientes esperando rapidez e, no meio disso tudo, medicamentos com validade curta, suplementos sensíveis à umidade e produtos que não podem, em hipótese alguma, sair da faixa de temperatura correta. Qualquer falha nesse processo não gera só atraso ou retrabalho: gera risco sanitário, autuação e perda de confiança do consumidor. Esse é o cenário real de quem vive a operação logística farmacêutica no dia a dia.

Centro de distribuição farmacêutico com controle de temperatura e operador ao fundo.
Imagem gerada por IA.

Os números divulgados recentemente ajudam a dimensionar essa responsabilidade. Segundo a Abrafarma, o faturamento das vendas digitais do varejo farmacêutico ultrapassou R$ 20 bilhões entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, com crescimento de 54,8% em relação ao período anterior. Foram 150 milhões de clientes atendidos digitalmente em um ano. O digital deixou de ser exceção, virou parte central do negócio. E, com isso, a régua regulatória subiu.

O digital cresce, mas a regulação cresce junto

Diferente de outros segmentos do e-commerce, no farmacêutico não existe “jeitinho operacional”. A base de tudo é a conformidade regulatória. A principal certificação para quem armazena, distribui ou opera um e-commerce de medicamentos é a Autorização de Funcionamento, a chamada AFE, emitida pela Anvisa, seguidos da Licença Sanitária local e da Certidão de Regularidade Técnica.

Esse conjunto de documentos comprova que processos, estrutura física, pessoas e controles estão alinhados às boas práticas exigidas pelas legislações vigentes, especialmente a RDC 430/2020, atualizada pela RDC 653/2022.

O ponto central da Anvisa é simples: qualquer falha no armazenamento ou no transporte pode comprometer a integridade, a qualidade, a eficácia e a segurança dos medicamentos, gerando perdas e riscos à saúde do paciente, e isso é inegociável!

O que um CD realmente precisa ter para operar com medicamentos

Toda a cadeia, desde a armazenagem até a distribuição e transporte, deve garantir condições adequadas para evitar contaminação ou degradação.

Na prática, um centro de distribuição que opera produtos de saúde precisa ser pensado para controle, não apenas para escala. A estrutura física já impõe requisitos claros: piso plano e lavável, paredes claras, ausência de fontes de contaminação, pé-direito adequado, telhas térmicas e proteção contra pragas e intempéries.

Mas o maior desafio está na operação diária. A norma da Anvisa exige setorização rigorosa das áreas: recebimento separado da expedição, áreas específicas para produtos devolvidos, vencidos ou em quarentena, além de controle de acesso restrito às áreas críticas.

O controle térmico é outro ponto sensível. Medicamentos em temperatura ambiente precisam se manter, em geral, entre 15 °C e 30 °C, com monitoramento contínuo, equipamentos calibrados e registros auditáveis. Produtos termolábeis exigem ainda mais cuidado, com controle constante e documentação que comprove a estabilidade durante todo o percurso.

Recebimento, estoque e validade não admitem erro

O recebimento é uma das etapas mais críticas dessa operação. Cada carga precisa ser avaliada quanto às condições corretas de manuseio, transporte, integridade física, temperatura, número de lote e data de validade. Qualquer desvio leva o produto diretamente para quarentena, até que seja realizada uma avaliação pelo departamento de garantia da qualidade em conjunto com o farmacêutico responsável técnico.

No estoque, inventários periódicos são obrigatórios. Divergências precisam ser investigadas para evitar trocas indevidas, perdas, furtos ou falhas de rastreabilidade. A gestão da validade e do lote exige método, disciplina e sistema, porque um erro aqui não gera apenas prejuízo financeiro, ele pode causar também um risco sanitário ao consumidor final.

Expedição e transporte: a responsabilidade não termina no CD

Muita gente esquece, mas a responsabilidade pela qualidade do medicamento vai até a entrega final. A expedição precisa garantir a preparação da carga conforme as exigências do produto, acondicionamento e empilhamento corretos, e documentação adequada para o transporte.

No transporte, vale a mesma lógica do armazenamento: controle de temperatura, umidade, proteção contra a luz, controle de pragas e as devidas licenças para a atividade em questão. Inclusive na chamada “armazenagem em trânsito”, a transportadora também precisa atender aos requisitos mínimos exigidos pela Anvisa. Logística reversa e devoluções seguem a mesma regra.

Licenças, autorizações e responsabilidade técnica

Uma operação farmacêutica exige um conjunto robusto de licenças: Alvará Sanitário, Alvará de Funcionamento, Autorização de Funcionamento da Anvisa (AFE), Certificado de Regularidade Técnica com responsável habilitado, CNPJ ativo e AVCB do Corpo de Bombeiros. Tudo precisa estar válido e integrado.

O descumprimento de qualquer uma dessas exigências pode resultar em sanções administrativas, interdição da operação e dos produtos, além de danos irreversíveis à marca.

Por que operar sozinho é um risco desnecessário

Depois de anos vivendo essa rotina de perto, uma coisa fica clara: operar e-commerce farmacêutico não é apenas vender online. É sustentar uma cadeia complexa, regulada e extremamente sensível, na qual cada decisão operacional impacta diretamente a segurança do consumidor.

Por isso, o caminho mais seguro é contar com um parceiro de full commerce que já opere no segmento farma, com conformidade regulatória comprovada, processos maduros e licenças vigentes. Em um mercado que está crescendo rápido e não tolera falhas, a integridade do produto e da marca depende disso para ter sucesso.