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Gestão integrada das farmácias: desafios e oportunidades no varejo on e offline

Por: Vivianne Vilela

Diretora de Conteúdo do E-Commerce Brasil

Vivianne Vilela atua como Diretora de Conteúdo, do E-Commerce Brasil há mais de 11 anos. É responsável pela curadoria dos eventos, dentre eles o Fórum E-Commerce Brasil (maior evento de e-commerce das Américas). Passou mais de 7 anos trabalhando em projetos nacionais para promover a inclusão, transformação e expansão no uso da tecnologia dos pequenos negócios no Brasil pelo Sebrae Nacional.

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O varejo farmacêutico brasileiro vive um dos momentos mais transformadores de sua história. Com cerca de 12 mil grandes farmácias respondendo por metade das vendas nacionais e mais de 75 mil estabelecimentos espalhados pelo país, o setor consolidou-se como o principal canal de distribuição de produtos de saúde. Ao mesmo tempo, a digitalização acelerada, o avanço dos marketplaces e novas exigências regulatórias estão redesenhando completamente a forma de operar. Integrar o mundo físico e digital deixou de ser opção: tornou-se condição para competir.

Farmácia moderna com profissional usando tablet, medicamentos no balcão e integração entre loja física, e-commerce e delivery.
Imagem gerada por IA.

Desafios da operação omnichannel e novas jornadas de compra

A operação integrada das farmácias exige uma visão única do negócio. O consumidor transita entre loja física, aplicativos, marketplaces e serviços de delivery esperando a mesma experiência em qualquer canal. Para atender a essa nova jornada, é fundamental alinhar estoque, precificação e atendimento em tempo real. Muitas redes já adotam modelos híbridos, com áreas dedicadas exclusivamente ao e-commerce e logística last mile, garantindo agilidade sem prejudicar o fluxo do balcão tradicional. Parcerias com plataformas como iFood e aplicativos próprios ampliam alcance e permitem que farmácias independentes concorram com grandes redes.

No entanto, operar de forma omnichannel traz desafios complexos. A gestão de categorias precisa considerar sortimento adequado para cada canal, evitando rupturas e excessos de estoque. Produtos de alta demanda, como as canetas emagrecedoras, evidenciaram gargalos logísticos, riscos de furtos e volatilidade de preços. Além disso, o crescimento das vendas online – que já representam cerca de 80% em algumas categorias – pressiona margens e exige estratégias de precificação dinâmicas, baseadas em dados e comportamento do consumidor.

Regulação e tributos como fatores de transformação estratégica

O ambiente regulatório é outro fator decisivo. A expectativa é que a Anvisa defina até 2026 regras mais claras para a venda online de medicamentos, incluindo controlados e prescrições digitais. A expansão dos marketplaces para o setor farmacêutico gera oportunidades, mas também receios quanto à manipulação de preços, procedência de produtos e concorrência desleal. Grandes redes ainda analisam com cautela esse movimento, enquanto farmácias menores enxergam nas plataformas digitais uma porta de entrada para o comércio eletrônico sem grandes investimentos.

A reforma tributária adiciona uma nova camada de complexidade. A substituição de tributos pelo modelo da CBS, com alíquotas estimadas entre 8% e 10%, mudará profundamente a formação de preços e o fluxo de caixa das empresas. Restituições de créditos poderão levar até 120 dias, exigindo planejamento financeiro rigoroso e maior alinhamento entre indústria, distribuidores e varejo. Para muitas farmácias, especialmente as de menor porte, será essencial rever políticas comerciais e ajustar margens para evitar efeitos em cascata sobre o consumidor final.

Outro pilar estratégico é a ampliação dos serviços de saúde dentro das farmácias. Vacinação, testes rápidos, triagem por termografia e integração com telemedicina estão transformando o papel desses estabelecimentos em verdadeiros hubs de cuidado. A digitalização possibilita agendamentos online, acompanhamento de pacientes e direcionamento adequado para consultas presenciais quando necessário. Entretanto, o setor precisa investir em proteção de dados e capacitação profissional para garantir segurança, rastreabilidade e qualidade clínica.

As oportunidades são enormes. O crescimento da saúde digital, a expansão dos serviços e a entrada de novos canais de venda permitem que farmácias ampliem relevância e fidelização. Ao mesmo tempo, o consumidor está mais informado e exigente, buscando conveniência, preço justo e atendimento ágil. Quem conseguir integrar operação, tecnologia e experiência terá vantagem competitiva clara.

O futuro do varejo farmacêutico no Brasil será definido pela capacidade de conectar mundos: loja física e digital, indústria e marketplace, atendimento humano e inteligência de dados. Mais do que vender medicamentos, as farmácias precisarão gerir ecossistemas completos de saúde. Aquelas que compreenderem essa transformação e estruturarem processos eficientes estarão preparadas para liderar um mercado cada vez mais dinâmico, regulado e repleto de possibilidades.