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O teste de estresse do Carnaval: gestão de risco e conformidade fiscal no primeiro trimestre

Por: Ewerton Caburon

CEO da EmiteAí!

Graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp, possui MBA em Gestão de Negócios pelo Insper. Desde 2021, é CEO da Emiteaí, uma startup de logística responsável por facilitar a emissão de documentos e promover o gerenciamento de transportes eficientes. Atualmente, atende os principais marketplaces do mercado. Já atuou como Diretor Executivo de Operações na BBM Logística, liderando projetos de otimização com IoT e Machine Learning. Também exerceu cargos de liderança na Raízen e Ambev, sempre focado em eficiência operacional e gestão de grandes equipes.

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No cronograma operacional do e-commerce brasileiro, o primeiro trimestre é frequentemente marcado por uma falsa sensação de estabilidade. No entanto, para o gestor que opera em alta performance, esse período reserva um dos primeiros grandes testes de estresse operacional do ano: o Carnaval.

Caminhão em fiscalização logística com documentos fiscais e enfeites de carnaval.
Imagem gerada por IA.

Embora o senso comum o trate como um simples hiato comercial, a realidade logística é distinta. Analiso esse período não como uma pausa, mas como um evento de risco real para o supply chain, capaz de escancarar fragilidades em processos que, se não ajustados agora, comprometerão a rentabilidade e o cumprimento de SLAs durante todo o primeiro semestre de 2026.

A dinâmica fiscal e o impacto na operação

A complexidade reside no fato de que, durante o período carnavalesco, a dinâmica da fiscalização interestadual torna-se mais sensível, enquanto a capacidade de resposta das empresas é reduzida. É o cenário de risco perfeito: postos fiscais mantêm o rigor analítico, mas o backoffice das organizações opera com escalas mínimas. Uma inconsistência documental que seria sanada em minutos em um dia útil convencional pode, nesse contexto, resultar em dias de carga retida. Para o tomador de decisão, isso significa que a eficiência da operação em fevereiro não é medida pelo volume expedido, mas pela integridade dos dados que acompanham a mercadoria.

A maior incidência de retenções e prejuízos no período está invariavelmente ligada ao que chamo de “erros básicos de alta gravidade”. Falhas na emissão de MDF-e, divergências de informações com o CT-e e, principalmente, a gestão ineficiente de GNRE – com pagamentos incorretos ou fora do prazo – são os principais vilões.

O custo de uma carga parada no posto fiscal vai muito além da multa pecuniária; ele engloba diárias adicionais, ociosidade do ativo e uma reprogramação logística que desestrutura o fluxo de entrega final. Do ponto de vista de EBITDA, o custo do retrabalho e da retenção durante um feriado prolongado é um dos mais altos da cadeia, pois ocorre justamente quando a margem para manobra é nula.

Revisão de processos como diferencial competitivo

O erro estratégico recorrente é postergar a revisão desses fluxos fiscais para o segundo trimestre, sob a premissa de que o volume atual permite uma gestão menos rigorosa. Como especialista, afirmo que o Carnaval atua como um laboratório: se uma falha ocorre agora, ela é o sintoma de um processo doente que irá colapsar sob a pressão da Black Friday. A blindagem da operação exige uma revisão completa dos parâmetros fiscais e a atualização das regras estaduais antes do feriado. A automação da emissão e a integração absoluta entre os sistemas de gestão e logística são as únicas garantias de que a informação que chega ao fisco é idêntica à informação que saiu do CD, eliminando a dependência do improviso humano.

Em última análise, o Carnaval é um divisor de águas que separa as operações maduras das amadoras. Ele revela se o planejamento de início de ano foi meramente protocolar ou se, de fato, houve um saneamento dos processos.

Empresas que atravessam esse período sem retenções demonstram possuir um alicerce sólido de governança logística. Aquelas que enfrentam problemas sistêmicos agora devem encarar o fato como um alerta imediato: a logística não perdoa a falta de antecipação. No mercado atual, quem ignora o calendário de riscos não está apenas perdendo tempo, está deliberadamente destruindo margem operacional.