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Janeiro não é baixa temporada: o mês que define a eficiência logística de 2026

Por: Ewerton Caburon

CEO da EmiteAí!

Graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp, possui MBA em Gestão de Negócios pelo Insper. Desde 2021, é CEO da Emiteaí, uma startup de logística responsável por facilitar a emissão de documentos e promover o gerenciamento de transportes eficientes. Atualmente, atende os principais marketplaces do mercado. Já atuou como Diretor Executivo de Operações na BBM Logística, liderando projetos de otimização com IoT e Machine Learning. Também exerceu cargos de liderança na Raízen e Ambev, sempre focado em eficiência operacional e gestão de grandes equipes.

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No cenário do e-commerce brasileiro, existe uma percepção equivocada de que o mês de janeiro deve ser tratado como um período de latência logística. A lógica de mercado costuma ser linear: após o estresse operacional da Black Friday e do Natal, o volume de transações arrefece e as operações entram em um estado de manutenção.

Pessoa usando smartphone com ícones de logística digital, eficiência operacional, transporte e gestão de processos.
Imagem: Freepik.

Contudo, sob a ótica da gestão estratégica de suprimentos e distribuição, janeiro é, possivelmente, o mês mais determinante para a saúde financeira do ciclo que se inicia. Acompanho de perto como as decisões tomadas nestas primeiras semanas impactam diretamente o custo por pedido e a escalabilidade das empresas ao longo de todo o ano.

Auditoria operacional pós-sazonal

O encerramento do último trimestre atua como um teste de estresse rigoroso, que expõe de forma crua as fragilidades sistêmicas de qualquer operação. Gargalos de roteirização, inconsistências na integração fiscal, transportadores sem capacidade de escalonamento e SLAs (Service Level Agreements) que se provaram irreais são sintomas que aparecem sob pressão. O erro crítico de muitos gestores é encarar a sobrevivência a esses picos como um objetivo cumprido, negligenciando a análise pós-operacional profunda. Janeiro não deve ser encarado como um mês de “descanso”, mas sim como o período de auditoria técnica essencial para evitar a perpetuação de ineficiências que corroem a margem de lucro.

É neste período que a base de dados gerada pelo alto volume de fim de ano deve ser convertida em inteligência de negócio. É o momento de cruzar os tempos médios reais de entrega com os custos efetivos de frete por região, identificando onde houve descolamento entre o planejado e o executado. Por meio de uma revisão criteriosa dos processos, é possível mitigar o retrabalho documental e as falhas na emissão de documentos fiscais – gargalos que muitas vezes passam despercebidos, mas que geram um passivo operacional silencioso. A logística eficiente não é fruto de manobras heroicas durante a alta demanda, mas sim da robustez dos processos desenhados nos períodos de menor pressão.

Recalibragem da malha logística e parcerias

Além da revisão interna, janeiro é a janela estratégica para a recalibragem da malha logística e das parcerias de transporte. Com dados concretos de performance em mãos, o gestor possui fundamentos técnicos para renegociar contratos ou substituir players que não atingiram os níveis de serviço acordados. Implementar mudanças estruturais na malha em outubro ou novembro é uma estratégia de alto risco; realizá-las agora permite que o sistema amadureça e seja otimizado antes dos próximos picos sazonais. O controle de custos de 2026 não é decidido em dezembro, mas sim na capacidade de converter os aprendizados do ano anterior em padronização operacional imediata.

Em suma, se janeiro não decide o faturamento recorde do ano, ele certamente decide a rentabilidade da operação. Tratar este período como baixa temporada é abdicar da oportunidade de sanear o fluxo logístico e garantir previsibilidade ao caixa. Operações que ignoram a necessidade de ajustes técnicos agora tendem a enfrentar o colapso nos momentos de maior exigência. A excelência logística é, acima de tudo, uma disciplina de continuidade, e o sucesso de 2026 depende da maturidade com que encaramos este início de ciclo.