Na América Latina e Caribe, embora os pagamentos digitais tenham se consolidado e a confiança dos consumidores no ambiente online esteja em alta, o temor em relação a fraudes e golpes segue como a principal preocupação na região. Os dados são de uma pesquisa da Mastercard sobre a percepção de cibersegurança nestas regiões.

Segundo os dados, 80% dos consumidores latino-americanos afirmam sentir-se capazes de se proteger no ambiente digital, sinalizando maior familiaridade com tecnologias financeiras. Ainda assim, quase metade dos entrevistados, o equivalente a 47%, indica fraudes e golpes como a maior frustração ao realizar transações digitais, o que evidencia uma contradição entre confiança no uso e receio quanto à segurança.
A pesquisa também mostra que a expansão da inclusão financeira e do uso de meios digitais ocorre em paralelo ao avanço de práticas fraudulentas mais sofisticadas. Para Ana Lucia Mangliano, vice-presidente executiva de Serviços da Mastercard para a América Latina e o Caribe, os resultados refletem uma realidade dual. Segundo ela, os consumidores estão mais experientes e abertos à inovação, mas atentos à evolução das ameaças no ambiente digital.
Panorama brasileiro
No recorte brasileiro, com 1.006 entrevistados, o estudo revela efeitos diretos da fraude sobre o comportamento de consumo. Cerca de 59% afirmam que sentiriam vergonha caso fossem vítimas de um golpe online, e 42% relatam constrangimento em contar a experiência a outras pessoas.
O impacto é ainda mais relevante para pequenos negócios. De acordo com a pesquisa, 74% dos consumidores brasileiros deixariam de comprar de pequenos varejistas após sofrerem uma fraude, passando a priorizar grandes marcas ou redes conhecidas. Além disso, 63% afirmam que abandonariam completamente o varejista onde o incidente ocorreu.
Entre os jovens da geração Z, de 18 a 27 anos, o levantamento identifica um paradoxo adicional. Embora sejam os que mais interagiram com tentativas de golpe no último ano, com 29%, também são os que menos adotam práticas básicas de segurança, índice que chega a 50%.
O avanço do uso de inteligência artificial (IA) em golpes aparece como um fator de preocupação relevante no país. Segundo o estudo, 89% dos entrevistados no Brasil demonstram receio com clonagem de voz para fraudes, enquanto 81% avaliam que deepfakes podem representar uma ameaça à segurança nacional no curto prazo. A demanda por informação também é elevada: 88% afirmam que gostariam de receber treinamento formal sobre como lidar com golpes digitais.
Pagamentos digitais e vigilância
O uso de meios digitais segue em expansão na América Latina. Cartões de débito e crédito são utilizados por 89% e 84% dos consumidores, respectivamente, enquanto transferências em tempo real alcançam 79% e carteiras digitais, 74%. O crescimento dessas tecnologias, no entanto, vem acompanhado de novas preocupações.
Além das fraudes, 32% dos entrevistados citam questões relacionadas à privacidade e ao uso de dados pessoais ou financeiros como fonte de inquietação. No cenário regional, 43% apontam fraudes impulsionadas por IA, como deepfakes e clonagem de voz, como uma ameaça emergente que vem redefinindo a percepção de segurança no ambiente digital.
O estudo também mapeia os tipos de golpes mais comuns. Na América Latina, fraudes por telefone ou voz lideram, com 32%, seguidas por golpes em redes sociais e ataques de phishing. No Brasil, as ocorrências mais frequentes estão ligadas a compras e varejo, com 37%, esquemas de investimento ou criptomoedas, com 30%, e roubo de identidade, com 31%.
Confiança sustenta a adoção do digital
A pesquisa reforça o papel da confiança institucional na continuidade da transformação digital. Bancos são apontados por 89% dos entrevistados como as instituições mais confiáveis para proteger dinheiro e dados, seguidos por redes de pagamento, com 82%. No Brasil, 74% confiam mais nos bancos e 71% nas empresas de cartão de crédito do que em instituições governamentais, índice que chega a 54%.
Além disso, 64% dos consumidores brasileiros afirmam confiar mais em seus provedores financeiros do que em si próprios para evitar transações fraudulentas. Entre os recursos mais valorizados para aumentar a sensação de segurança estão alertas proativos e ferramentas de monitoramento, citados por 59%, políticas claras de proteção e reembolso, com 57%, e métodos de autenticação mais robustos, como biometria ou passkeys, com 53%.
Apesar do cenário de riscos, o levantamento indica que o otimismo permanece. Mais da metade dos consumidores da região afirma estar mais animada com pagamentos mais rápidos e simples, enquanto 31% destacam a expectativa por checkouts online mais seguros, baseados em biometria e tokenização.
A pesquisa foi conduzida pela The Harris Poll entre 8 e 25 de setembro de 2025, com 13.077 consumidores em 15 mercados da América Latina e do Caribe. O recorte brasileiro contou com 1.006 entrevistas.