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Reforma tributária redesenha o mapa industrial do Brasil

Por: Luiz Claudio Souza

Luiz Claudio Souza é diretor-técnico da AG Tax, onde é responsável pelas áreas de operações e tax transformation. Ao longo da carreira, atuou na implementação de iniciativas de reestruturação e planejamento tributário, com foco na identificação de ganhos, aproveitamento de incentivos fiscais e regimes especiais, além do fortalecimento de compliance, governança e auditoria interna. Souza é graduado em ciência de dados e administração e fez MBA em gerenciamento de projetos na FGV.

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A reforma tributária altera a lógica que organizou o mapa industrial brasileiro nas últimas décadas. Decisões sobre onde instalar fábricas, centros de distribuição e operações de importação, que antes eram guiadas pela lógica dos incentivos fiscais, devem seguir agora critérios econômicos e de eficiência.

Mesa de trabalho com uma prancheta escrita “Reforma Tributária”, mapa do Brasil e gráficos, ao lado de calculadora, óculos e café, com fundo desfocado de caixas e contêineres logísticos.
Imagem gerada por IA.

Com a substituição gradual do ICMS pelo IBS e a consolidação da tributação no destino, o imposto passa a ser recolhido onde está o consumidor final, e não onde a unidade produtiva foi montada. A variável tributária deixa de ser um fator importante na hora de decidir onde instalar uma empresa.

A competição entre estados não vai desaparecer, mas o incentivo fiscal deixa de ser protagonista. O novo arranjo tende a privilegiar fatores econômicos objetivos, como proximidade do mercado consumidor, custo logístico, qualidade da infraestrutura e integração com a cadeia de suprimentos.

Mudança estrutural no critério de localização

A partir de 2029, com a redução mais significativa das alíquotas do ICMS, os incentivos vão diminuir na mesma proporção. Até 2032, esses mecanismos tendem a ser extintos. Muitas operações que hoje se sustentam em ganho fiscal precisarão ser reavaliadas.

O município de Extrema, em Minas Gerais, exemplifica essa situação. Na divisa com São Paulo, consolidou-se como polo industrial e logístico ao oferecer incentivos mais agressivos que o estado vizinho, permitindo às empresas atender ao maior mercado consumidor do país com menor carga tributária. Com a tributação no destino, esse diferencial perde força, ainda que a localização permaneça estrategicamente relevante do ponto de vista logístico.

Revisão das operações portuárias e logísticas

Dinâmica semelhante ocorre em estados portuários historicamente associados a incentivos à importação, como Espírito Santo, Santa Catarina, Pernambuco e Ceará. Por anos, empresas optaram por nacionalizar mercadorias nesses estados, compensando o custo adicional de transporte com a economia tributária na entrada do produto. À medida que essa vantagem se reduz, a decisão tende a ser reavaliada com base em critérios essencialmente operacionais: custo logístico total, prazo de entrega, confiabilidade da infraestrutura e proximidade dos centros consumidores.

Setores mais intensivos em logística, como supermercados, bebidas e bens de consumo de grande escala, devem sentir os efeitos com maior rapidez. Em muitos casos, parte relevante de suas margens foi construída sobre estruturas de planejamento tributário vinculadas à localização. Com a mudança do regime, o foco se desloca para a eficiência econômica efetiva.

Planejamento estratégico antes de 2029

Tratar a reforma como um tema a ser enfrentado apenas a partir de 2029 é um equívoco. Decisões de localização exigem planejamento de médio e longo prazo. A realocação de operações envolve aquisição de terrenos, licenciamento ambiental, adaptação de infraestrutura, renegociação contratual e reconfiguração da cadeia de suprimentos – processos que podem levar anos.

A reforma tributária representa uma mudança de lógica econômica. As empresas que tratarem o tema como um ajuste contábil correm o risco de perder competitividade. As que enxergarem a transição como oportunidade de redesenho estrutural estarão melhor posicionadas no novo mapa tributário que começa a se desenhar no país.