Logo E-Commerce Brasil

Quando tudo vira canal… nada vira receita

Por: Thiago Mazeto

Diretor na Tray

Diretor da Tray, comanda a estratégia de Go-to-Market e a arquitetura de receita para quatro unidades de negócio distintas: Tray, Bagy, Melhor Envio e Cplug. É especialista na estruturação e liderança de times comerciais de alta performance, capacitando dezenas de gestores e vendedores para superar metas agressivas, com foco em previsibilidade de MRR e expansão contínua.

Ver página do autor

Empresas seguem dizendo que vendas é prioridade, mas estruturam seus negócios de um jeito que torna a receita instável, imprevisível e dependente de improviso.

Blocos de madeira formando uma seta de crescimento sobre mesa com notebook e gráficos ao fundo.
Imagem gerada por IA.

O erro é recorrente e estrutural. Vendas continuam sendo tratadas como um departamento isolado e, no varejo, o debate se desloca para o canal da vez, quando na prática vender é apenas o efeito final de um sistema de decisões tomadas muito antes.

Quando o que não foi decidido vira problema do vendedor

No B2B, esse problema aparece quando tudo o que não foi decidido a montante escorre para a ponta. Posicionamento mal definido vira ajuste de discurso. Proposta confusa vira explicação extra. Preço desalinhado vira negociação. Produto cheio de exceções vira promessa frágil.

A empresa, sem perceber, transforma o vendedor em gestor de incerteza em tempo real. O resultado é previsível. Cada fechamento depende de talento individual, cada mês exige esforço excessivo e a previsibilidade nunca se consolida.

No varejo, o canal da moda vira bode expiatório

No varejo, a lógica é semelhante, mas costuma ser escondida pelo discurso tecnológico. A loja virtual supostamente morreu, o SEO estaria acabando e um novo canal salvador surge a cada ciclo.

Agora, esse papel é atribuído às IAs e aos agentes de compra. O problema é que o canal nunca foi a raiz. Tecnologia não resolve desorganização. Ela apenas acelera o que já existe. Quando a operação é confusa, o caos escala mais rápido. Quando é estruturada, a escala acontece.

O comportamento do comprador deixa isso evidente. Pessoas e empresas estão tentando decidir com mais autonomia e menos esforço cognitivo.

A jornada de compra migra da lógica de exploração para a lógica de decisão assistida. O comprador não quer ser convencido. Ele quer ter certeza. Quer reduzir risco, entender limites e confiar que o que foi prometido será entregue.

Quando a empresa não constrói sinais claros de valor, prova, escopo e entrega, essa redução de incerteza é terceirizada.

No B2B, ela cai no colo do vendedor. No varejo, fica a cargo do canal dominante, seja marketplace, rede social ou agora a interface de IA. É assim que nascem a dependência de desconto, a pressão por mídia paga e a ilusão de que o próximo canal vai resolver o que a base não sustenta.

A IA não cria maturidade, ela expõe

A entrada das IAs na jornada de compra não muda essa lógica. Ela a torna mais visível. Modelos generativos favorecem contexto, relevância, reputação e consistência.

Eles funcionam melhor quando existe catálogo organizado, estoque confiável, proposta clara e operação previsível. Não substituem vendas nem a loja virtual. Elas expõem quem trata receita como sistema e quem ainda tenta resolver tudo no final.

No fundo, RevOps no B2B e organização operacional no varejo abordam a mesma coisa. Parar de operar por improviso e começar a operar por decisão e padrão. Empresas previsíveis não fortalecem vendas nem perseguem o canal da moda.

Elas reduzem o que precisa ser compensado, alinham promessa com entrega e constroem confiança antes da conversa. Seja ela feita por um vendedor, por um site ou por um agente de IA.

Quem perde não perde para a tecnologia. Perde para a própria desorganização. Quem entende isso transforma vendas e canais em consequência, não em remendo.