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Quando marketplaces se tornam infraestrutura: o poder da Temu sobre pequenos vendedores

Por: Rebecca Fischer

Chief Strategy Officer (CSO) de co-fundadora da Divibank

Chief Strategy Officer (CSO) de co-fundadora da Divibank, ela é formada pela Universidade de Georgetown e tem mais de 12 anos de experiência na indústria de marketing e publicidade. Iniciou sua carreira em 2008 como estagiária na Pinacoteca do Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, ocupou Diretora de Sucesso do Cliente na Skai (antiga Kenshoo), onde atendeu clientes como Mercado Livre, Nubank e iFood. Em 2020, uniu-se a Jaime Taboada para fundar a Divibank, combinando sua expertise em marketing digital com a experiência financeira de Jaime.

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A integração da Temu ao Shopify não é apenas um recurso tecnológico; trata-se de um movimento estratégico que redesenha as relações de poder no e-commerce global. Com o novo aplicativo, pequenos e médios lojistas podem listar produtos, gerenciar estoque e atender clientes diretamente pelo Shopify, acessando simultaneamente a base de consumidores da Temu em mais de 30 mercados. A simplificação operacional reduz drasticamente as barreiras de entrada e desloca a disputa do e-commerce do produto e do marketing para a capacidade de controlar ecossistemas.

Integração entre Temu e Shopify representada por smartphone com o app da Temu e notebook com a plataforma Shopify lado a lado.
Imagem gerada por IA.

Ao permitir que vendedores do Shopify participem do Programa de Vendedores Locais da Temu, a plataforma enfrenta um desafio crônico do modelo de marketplace: prazos de entrega longos e imprevisíveis. Com vendedores locais, a Temu encurta distâncias, otimiza a logística e melhora a experiência do consumidor, elementos que se tornaram diferenciais críticos no comércio eletrônico contemporâneo. Ao mesmo tempo, transforma pequenos comerciantes em agentes diretos de sua expansão, sem a necessidade de investimento em múltiplas infraestruturas ou integrações complexas entre plataformas.

Marketplaces como infraestrutura, não apenas canal

A lógica dessa estratégia é clara: marketplaces deixaram de ser meros canais de venda e passaram a operar como infraestruturas completas de distribuição, dados e demanda. Nesse contexto, a vantagem competitiva deixa de residir apenas no produto ou no preço e passa a depender da capacidade de orquestrar redes de vendedores e fluxos de consumidores. A Temu, ao ampliar o acesso de lojistas globais, cria um efeito de escala que potencializa sua participação no mercado, mas também aumenta a dependência desses comerciantes em relação às regras, algoritmos e políticas da plataforma.

No Brasil, onde a Temu já divide espaço com a Shein, a integração com o Shopify intensifica ainda mais a competição. Pequenos vendedores, agora conectados a uma base global, passam a oferecer preços mais agressivos e entregas mais rápidas, pressionando empresas locais, muitas vezes operando com estruturas logísticas mais complexas e custos mais elevados. A dinâmica reforça uma tendência preocupante: a concentração de poder nas mãos de plataformas globais e o crescente desafio para o varejo nacional de se diferenciar em um ambiente dominado por preço e velocidade.

Quando o poder está no controle do fluxo

Além da competição, há uma reflexão estratégica mais ampla. Em um mercado digital cada vez mais integrado, quem controla a infraestrutura controla o fluxo de demanda, dados e receita. Pequenos lojistas ganham alcance, mas cedem autonomia; consumidores ganham variedade e conveniência, mas tornam-se dependentes de algoritmos e regras externas. A integração Temu–Shopify exemplifica como o e-commerce evolui de uma disputa por produtos para uma disputa por infraestruturas, dados e ecossistemas, redefinindo o poder no comércio eletrônico global.

A lição é clara: o futuro do varejo não está apenas na oferta de produtos, mas na capacidade de operar, competir e crescer dentro de redes complexas e integradas. Para lojistas, isso exige estratégia, adaptação e visão de longo prazo; para reguladores, atenção às implicações de concentração e dependência digital. Em 2026, o e-commerce não será apenas sobre vender, mas sobre dominar o fluxo que conecta vendedores, consumidores e plataformas.