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O fim do feudalismo digital: a "liberdade" pode ser apenas uma gaiola dourada

Por: André Cruz

CEO da Digital Manager Guru

É cofundador e CEO da Digital Manager Guru e possui mais de 20 anos de experiência em criação de soluções inteligentes por meio de sistemas, além de sólida trajetória no setor de e-commerce. Atuou como gerente de relacionamento na VTEX, onde desenvolveu estratégias para otimizar operações de e-commerce; foi sócio e gestor de TI do BioStore Ecommerce Group, consultoria especializada em e-commerce, sendo o primeiro parceiro 100% nacional da Magento. Está à frente da Digital Manager Guru, plataforma de vendas online que centraliza tudo o que é necessário para uma estratégia digital eficaz, incluindo checkouts de alta conversão, métricas e indicadores, ROI em tempo real e centenas de integrações com ferramentas de marketing e pós-vendas.

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Vivemos sob uma ilusão confortável. Acreditamos que, ao criar uma conta em uma grande plataforma, subir alguns produtos e começar a vender, nos tornamos empresários. Donos do próprio destino. Mas, se formos brutalmente honestos, e a honestidade é o único caminho para a sobrevivência, a maioria não é dona de nada. Na melhor das hipóteses, é serva em um ‘feudo digital alheio’.

Empreendedor observa a cidade de um escritório moderno, com correntes quebradas sobre a mesa e símbolos digitais ao fundo.
Imagem gerada por IA.

No feudalismo medieval, o servo trabalhava na terra do senhor, entregava uma parte substancial da colheita e, em troca, recebia “proteção” e o direito de continuar existindo naquele solo. Hoje, trocamos a terra por “tráfego” e a colheita por “taxas percentuais”. O pacto permanece o mesmo: você trabalha, investe, e corre o risco. O senhor feudal, a plataforma, cobra o pedágio, dita as regras, e, se o castelo “falir”, retém os seus lucros. Isso não é empreendedorismo, e sim servidão remunerada.

Mas algo mudou a atmosfera do mercado. Existe uma vibração que os desatentos ignoram, mas que os visionários já sabem. É o som das correntes se partindo. O e-commerce brasileiro não está apenas crescendo; ele está amadurecendo e se rebelando. Os dados recentes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) são a prova cabal dessa insurreição silenciosa. Em 2024, o setor movimentou R$ 225 bilhões, mas o dado que realmente importa é este: 30% desse volume, cerca de R$ 67 bilhões, veio das micro e pequenas empresas.

O que esses números gritam é que o pequeno não precisa mais pedir licença para o gigante. Esses R$ 67 bilhões não foram gerados por quem aceita passivamente deixar 10%, 15% ou 20% da sua margem na mesa em troca de “facilidade”. Foram gerados por quem entendeu que a tecnologia deve ser uma ferramenta de libertação, não de aprisionamento.

A provocação que faço aqui é a seguinte: quando você paga uma taxa percentual sobre a venda para uma plataforma, não está apenas perdendo dinheiro, mas financiando o seu próprio carcereiro, e pagando para que eles tenham mais dados sobre o seu cliente do que você. Para que treinem algoritmos que, amanhã, oferecerão o produto do seu concorrente para a audiência que você pagou para conquistar. No modelo dependente, o seu sucesso alimenta o sistema que, eventualmente, tornará você obsoleto.

O e-commerce independente, ou o que prefiro chamar de “comércio soberano”, é a resposta filosófica e prática a esse cenário. Não é apenas sobre fugir de taxas abusivas (embora isso seja vital para a saúde do caixa), e sim sobre soberania de dados. Num mundo onde a atenção é o novo petróleo, terceirizar a relação com o cliente é suicídio estratégico. Quem opera de forma independente não constrói apenas vendas, constrói ativos.

O mito da complexidade e a barreira da preguiça

Vejo muitos empreendedores paralisados pelo mito da complexidade técnica. “Não sou programador, não sei configurar servidores”. A boa notícia é que esse argumento morreu. Hoje, existem plataformas de vendas e integração que conectam tudo – checkout, logística, marketing – sem que você precise escrever uma única linha de código. A tecnologia já foi democratizada e simplificada.

O que dá trabalho de verdade não é a operação, é a migração. Porque as plataformas do modelo “só pague se vender” desenham seus sistemas para serem gaiolas perfeitas. Exigem exclusividade no processamento de pagamentos, dificultam a exportação da sua base de clientes e criam barreiras técnicas propositais para impedir integrações externas. A dificuldade não está em ser independente, mas em conseguir sair da dependência que criaram. Elas contam com a sua preguiça de enfrentar essa transição para continuar mordendo seu faturamento. Mas vencer essa barreira de saída é o único caminho para recuperar o lucro e, finalmente, sair da escravidão digital.

A revolução dos neobancos já nos ensinou que é possível ter serviços melhores, mais justos e transparentes sem se curvar às instituições seculares que lucravam com a nossa inércia. O e-commerce vive agora o seu momento de ruptura. Estamos vendo o surgimento de uma nova classe de comerciantes: ágeis, donos de seus dados, obcecados por margem de lucro real (e não métricas de vaidade) e, acima de tudo, livres. Eles entenderam que autonomia não é um luxo, é uma estratégia de defesa e ataque.

Se você ainda está confortável pagando para operar no terreno dos outros, cuidado: o inverno chega para todos os inquilinos. Mas para os donos da terra, para os soberanos de suas operações, o futuro nunca foi tão promissor. A pergunta não é se você vai migrar para o modelo independente, mas se vai fazer isso enquanto ainda tem caixa para investir na sua liberdade, ou vai esperar até que o algoritmo decida que o seu negócio não é mais necessário. A escolha, como sempre, é sua: a pílula azul da conveniência cara, ou a pílula vermelha da responsabilidade lucrativa? Bem-vindo ao mundo real.