Como especialista em meios de pagamento, posso dizer com propriedade: você provavelmente está pagando mais taxas do que imagina. E não, não é impressão sua quando bate aquela sensação de que a margem real é menor do que deveria.
Segundo levantamento que fizemos com 500 lojistas brasileiros, 72% não conseguem identificar todos os custos de transação que impactam seu resultado.

O problema é que a taxa de processamento, a famosa MDR, é apenas a ponta do iceberg.
Existem pelo menos três camadas de custos adicionais que muitos empreendedores descobrem tarde demais, geralmente quando batem o olho na DRE e percebem que algo não fecha.
Neste artigo, vou abordar essas taxas ocultas e mostrar como calcular o custo real por transação no seu e-commerce.
Custo de antecipação automática
Muitas soluções de pagamento oferecem antecipação automática como benefício. Parece ótimo no papel, né? Você recebe em um dia em vez de esperar 30. Mas aqui está o problema: essa conveniência tem preço, e não é pequeno.
A taxa de antecipação costuma variar entre 2,5% e 4,5% ao mês. Parece pouco? Vamos aos números práticos.
Imagine uma venda de R$ 10 mil com recebimento previsto para 30 dias. Se você antecipar com uma taxa de 3,5% ao mês, o custo será de R$ 350.
O pulo do gato aqui é que muitos lojistas nem percebem que essa taxa está sendo cobrada. Sabe por quê? Porque ela já vem descontada no repasse. Você olha o extrato, vê R$ 9.650 creditados e pensa que está tudo certo.
Mas não conecta que aqueles R$ 350 que faltaram foram de antecipação, além dos 2% ou 3% de MDR que você já esperava pagar.
De acordo com estudo da Núclea, antiga Câmara Interbancária de Pagamentos, a antecipação de recebíveis de cartões vem crescendo a uma taxa média anual de 28,8%.
O que parece um benefício conveniente esconde custos que muitos empreendedores só percebem quando analisam o impacto anual dessa prática.
Como identificar isso na prática? Acesse o detalhamento da transação no painel do seu provedor de pagamento. Procure por linhas como “taxa de antecipação”, “desconto de antecipação” ou “custo de adiantamento”. Se você antecipa regularmente, faça as contas: o custo efetivo anualizado pode chegar a 42%, muito acima de outras linhas de crédito disponíveis no mercado.
Tarifas administrativas
Além do percentual sobre cada venda, a tal da MDR, muitas adquirentes cobram tarifas fixas por transação. São aqueles famosos R$ 0,10, R$ 0,20 que passam completamente despercebidos quando você está olhando apenas os percentuais.
Você pode estar pensando: “Mas são só R$ 0,30 por venda!”. Certo, agora multiplique por mil vendas no mês. São R$ 300. Em 12 meses, R$ 3.600 que você nem havia colocado na planilha.
Essa tarifa fixa dói especialmente em dois cenários. O primeiro é quando você vende produtos de ticket baixo, aqueles de até R$ 50. Nesses casos, a tarifa fixa pode representar até 0,6% adicional sobre o valor da venda.
O segundo cenário é em boletos e Pix, em que muitos provedores cobram entre R$ 1 e R$ 3 por transação.
Vou te dar um exemplo real para você sentir o impacto. Imagine uma venda de R$ 39,90 via Pix. O MDR do Pix é o,99%, o que dá R$ 0,39.
Até aqui, tudo bem. Mas aí vem a tarifa fixa do Pix: R$ 1,39. O custo total dessa transação foi de R$ 2,38, o que representa 5,9%.
Percebe o problema? A taxa percentual era baixíssima, mas a tarifa fixa detonou completamente a margem. Segundo pesquisa da ABComm sobre custos operacionais no e-commerce, 68% dos lojistas que vendem produtos de baixo ticket médio subestimam o impacto das tarifas fixas no resultado líquido.
Se você ainda não está familiarizado com o conceito de MDR e como ele funciona, vale dar uma olhada neste guia explicativo sobre taxa MDR antes de continuar. Vai te ajudar a entender melhor como essas taxas se somam.
Chargeback e estornos: o custo que ninguém planeja
Chargeback não é apenas perder a venda. Você também paga uma taxa administrativa por cada contestação que recebe. Dependendo do seu provedor, essa taxa varia de R$ 15 a R$ 80 por chargeback. E o pior: você paga mesmo que ganhe a disputa e consiga reverter a contestação.
Segundo orientações da ClearSale, empresa especializada em prevenção de fraudes, para evitar advertências e penalidades das operadoras de cartão, um comércio não deve ter taxas de chargeback superiores a 1% de seu faturamento.
Agora, vamos colocar tudo isso em um cenário real. Imagine que você tenha mil vendas por mês com ticket médio de R$ 150. Isso representa R$ 150 mil em faturamento mensal.
Se você tiver uma taxa de chargeback de 1%, são dez chargebacks por mês. Considerando uma taxa administrativa média de R$ 50 por contestação, você está pagando R$ 500 por mês só em tarifas administrativas de chargeback.
E isso ainda não conta o valor da venda perdida nem o custo operacional de disputar cada caso. Cada chargeback exige que você separe documentação, gaste tempo da equipe e, em muitos casos, até envolva assessoria jurídica. Tempo e dinheiro que você não estava esperando gastar.
O problema se multiplica para lojas com ticket médio mais alto. Um chargeback de R$ 800 significa que você perdeu o produto, o frete, pagou a taxa administrativa e ainda gastou horas de trabalho da equipe tentando reverter a situação. É um rombo que vai muito além dos percentuais que aparecem nas planilhas.
Como calcular seu custo real por transação
Aqui está a fórmula que poucos lojistas usam, mas que deveria estar na planilha de todo mundo.
O custo real por transação é a soma da taxa MDR, mais a tarifa fixa, mais o custo de antecipação proporcional ao volume antecipado, mais o custo médio de chargeback diluído nas transações.
Vou te mostrar um exemplo prático para você ver como isso funciona na vida real.
Considere uma venda de R$ 200. A taxa MDR é de 2,5%, o que dá R$ 5. A tarifa fixa é de R$ 0,30. Você antecipa 30% do seu volume com uma taxa de 3,5%, o que adiciona R$ 2,10 de custo. E você tem uma taxa de chargeback de 1%, com custo médio de R$ 50, o que dá R$ 0,50 por transação quando você dilui nas cem vendas.
Somando tudo, o custo total dessa transação é de R$ 7,90, o que representa 3,95% da venda. A sua planilha dizia que você pagaria 2,5% de taxa. A realidade é 3,95%. Uma diferença de 58% no custo que você havia projetado.
Essa disparidade explica por que tantos e-commerces têm faturamento crescente mas margem decrescente. Os custos invisíveis estão lá, mês após mês, corroendo silenciosamente o resultado que você esperava ter.
O próximo passo é seu
Identificar essas taxas ocultas não é paranoia, é gestão financeira básica. A diferença entre um e-commerce lucrativo e um que vende muito mas não sobra nada muitas vezes está exatamente nesses 1% ou 2% que ninguém calculou direito.
O que você precisa fazer agora é simples, mas exige disciplina. Primeiro, baixe os extratos dos últimos três meses do seu gateway de pagamento. Depois, identifique todas as linhas de custo, não apenas a MDR que aparece destacada. Em seguida, calcule seu custo real por transação usando a fórmula que mostrei aqui. Por último, compare diferentes cenários de antecipação versus manutenção do fluxo de caixa para entender qual estratégia faz mais sentido para o seu negócio.