O Projeto de Lei Complementar 108/2024, conhecido como “Imposto do Pecado”, prevê a criação de uma taxa seletiva sobre produtos considerados prejudiciais à saúde, como bebidas e alimentos com alto teor de açúcar. Embora o objetivo seja desestimular o consumo desses itens, a discussão sinaliza um cenário estratégico para empresas que buscam reformular portfólios e atender novas demandas de consumidores cada vez mais atentos ao bem-estar.

O movimento ocorre em meio a uma mudança de comportamento já consolidada no Brasil e na América Latina. Segundo o relatório “The Health Effect – How Health Choices Are Shaping Consumer Behavior”, da Worldpanel by Numerator, o consumo de produtos açucarados vem caindo de forma consistente nos últimos cinco anos.
Quase 60% dos latino-americanos afirmam estar reduzindo ou abandonando doces, refrigerantes e chocolates. No Brasil, 10% já deixaram de consumir esses itens e 38% planejam reduzir a ingestão. Entre bebidas açúcaradas, 22% dos brasileiros dizem ter parado de comprar refrigerantes e 25% querem diminuir o consumo.
Consumidores querem controlar o peso
Entre as classes média e alta da região, cerca de metade dos entrevistados vê a balança como motivo de atenção. O estudo mostra que oito em cada dez consumidores latino-americanos buscam produtos com menos açúcar.
A percepção dos riscos também cresceu. Em 2019, 39,6% dos latinos consideravam bebidas açucaradas prejudiciais; em 2025, esse número chega a 63%. No Brasil, o índice é ainda maior: 74% da população vê bebidas com alto teor de açúcar como danosas.
Mercado de produtos saudáveis avança
Esse ambiente vem impulsionando categorias mais saudáveis: nos últimos cinco anos, produtos industrializados sem adição de açúcar conquistaram 30 milhões de novos compradores na América Latina. O movimento se intensificou com a popularização das canetas emagrecedoras, que ampliaram a busca por consumo mais vigilante.
O Brasil também se destaca. As bebidas proteicas prontas para consumo triplicaram em penetração desde 2023, com crescimento de 188% em valor e faturamento superior a US$ 50 milhões.
Imposto seletivo pode acelerar reformulações
Caso aprovado, o imposto deve atingir alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e produtos associados a custos de saúde pública. Países como México, Chile e Reino Unido observaram mudanças rápidas após a adoção de políticas semelhantes, incluindo:
- reformulação de produtos para reduzir açúcar e evitar faixas tributárias mais altas;
- expansão de versões zero e funcionais;
- fortalecimento da comunicação sobre bem-estar e hábitos saudáveis.
Especialistas da Worldpanel afirmam que o cenário abre vantagem competitiva para marcas que se anteciparem. Empresas que investem em reformulação, transparência e produtos funcionais tendem a conquistar novos consumidores e fortalecer reputação.
O estudo, baseado em mais de 15 mil entrevistas em nove mercados latino-americanos, destaca que a tendência wellness deve continuar ganhando força, criando oportunidades para empresas que alinham inovação e saúde nas decisões de portfólio.