Com 60 anos de história, a Ikesaki atingiu um patamar que deve ser almejado por qualquer organização.
Poucos empreendedores no Brasil tiveram um olhar tão visionário quanto Hirofumi Ikesaki. Nascido no Japão e chegado ao Brasil ainda criança em 1934, cresceu no interior paulista ajudando a família na lavoura e, depois, comandando uma tinturaria em São Paulo. Foi ali que percebeu um detalhe aparentemente banal: muitas mulheres do seu entorno, esposas e filhas de imigrantes, improvisavam pequenos salões de beleza.
Aquele olhar se transformou em ação. Em 1964, Hirofumi inaugurou na Liberdade o que seria o primeiro “supermercado de cosméticos” do país. Um formato ousado de autosserviço, em que o consumidor podia escolher diretamente nas prateleiras, sem depender do balcão. Um gesto simples, mas que mudaria a forma como profissionais e clientes se relacionavam com o mundo da beleza e que demonstrava o DNA de inovação do empreendimento.
Com o tempo, a loja deixou de ser apenas um ponto de vendas e transformou-se em ponto de encontro, escola e vitrine do setor. Vieram os centros técnicos que formaram gerações de cabeleireiros e maquiadores, a produção de móveis e equipamentos que equiparam salões em todo o país e, mais tarde, a criação da Beauty Fair, hoje reconhecida como a maior feira de beleza profissional das Américas. Hirofumi também soube delegar e se cercar de talentos, profissionais que ajudaram a erguer uma organização sólida e respeitada. Quando faleceu, em 2022, aos 94 anos, deixou muito mais do que uma empresa: deixou uma comunidade da beleza, alicerçada em aprendizado, inovação e pertencimento.
O ecossistema Ikesaki
A Ikesaki cresceu como poucas empresas no setor. Hoje, o grupo atua em múltiplas frentes que se retroalimentam:
– Varejo físico e digital (hiperlojas, e-commerce, app e loja em marketplaces);
– Atacado B2B (EBC), abastecendo milhares de perfumarias e salões;
– Indústria (móveis, equipamentos e marcas próprias – a Taiff é do grupo sabia?);
– Serviços de valor (centros educacionais, programa Top Profissional, clube de fidelidade, assistência);
– Eventos (Beauty Fair e a adquirida Professional Fair), que conectam indústria, profissionais e consumidores.

Esse conjunto faz da Ikesaki um exemplo de ecossistema vivo no Brasil: um ambiente em que cada elo fortalece o outro. A loja gera fluxo para os cursos; os cursos fidelizam profissionais; os profissionais atraem marcas; e os eventos funcionam como palco máximo de densidade de rede.
O futuro: de pipeline a plataforma
Sob a ótica do livro Plataforma – A Revolução da Estratégia, a Ikesaki está diante de uma oportunidade rara: transformar esse ecossistema em uma plataforma digital-orquestradora.
– Interações-núcleo já existem: profissionais ↔ marcas ↔ consumidores ↔ salões.
– Efeitos de rede já acontecem: mais cursos atraem mais profissionais; mais profissionais atraem mais marcas; mais marcas atraem mais consumidores.
– Governança já está desenhada: credenciais, certificações, fidelidade, eventos.
Os próximos passos são auspiciosos para expansão no digital e dentre as opções: um marketplace B2B para salões, monetizar a audiência via retail media, transformar o educacional em marketplace de cursos e a cereja do bolo – oferecer soluções financeiras para profissionais.
Conclusão
A Ikesaki nasceu do empreendedorismo de Hirofumi Ikesaki, um imigrante que viu na beleza uma oportunidade de futuro. Cresceu como ecossistema físico, consolidou-se como comunidade e agora tem a chance de se perpetuar como plataforma digital.
Se o passado foi sobre vender produtos, o futuro pode ser sobre orquestrar relações. E provavelmente será assim que, quando chegar ao centenário, a história da Ikesaki seja lembrada não apenas como a de uma loja revolucionária, mas como a de uma plataforma brasileira de beleza que uniu indústria, profissionais e consumidores em um mesmo palco.
Com contribuição Patricia Knipl