Open Banking e o mercado de crédito: como essa solução apoiará os varejistas?

por Rafael Lavezzo Quinta-feira, 01 de abril de 2021   Tempo de leitura: 25 minutos

Com a primeira fase já em vigor, a expectativa é que o Open Banking cause grande impacto no setor financeiro brasileiro. Inclusive, um dos segmentos que tende a ter mudanças significativas é o mercado de crédito.

Em decorrência da competitividade entre bancos, fintechs e demais instituições financeiras que o Sistema de Financeiro Aberto impulsionará, as chances de juros menores e de processos de concessão de crédito mais facilitados para os clientes são bastante altas.

Do ponto de vista do varejo, em especial aqueles que trabalham com finanças embarcadas — ou seja, com a oferta de produtos e serviços financeiros atrelados ao seu negócio principal —, a promessa é de aumento do poder de atração de novos clientes, de fidelização e de novas oportunidades de negócios.

Na prática, quais serão as oportunidades geradas pelo Open Banking no que se refere ao mercado de crédito no varejo e em outros setores? Quais desafios precisarão ser enfrentados pelos participantes desse sistema?

O impacto do Open Banking sobre o mercado de crédito

Dados do Banco Central mostram que o mercado de crédito teve um crescimento significativo no ano de 2020.

O saldo das operações do Sistema Financeiro Nacional (SFN), por exemplo, chegou a R$ 4 trilhões. Esse valor indica um aumento de 15,5% quando comparado a 2019, que teve um percentual de 6,5%.

Com relação ao crédito ampliado a empresas e famílias, o crescimento foi de 15,8% em comparação ao ano de 2019, número esse que representa R$ 6,6 trilhões e 89,6% do PIB, Produto Interno Bruto.

Grande parte da expansão do mercado de crédito ocorrida em 2020 foi decorrente dos programas de estímulo direcionados a empresas de pequeno porte, com o propósito de amenizar a crise financeira causada pela pandemia do novo coronavírus.

Ainda que esses valores e percentuais indiquem uma ampliação do mercado de crédito, taxas, juros e o processo de aprovação das contratações continuam sendo pontos que dificultam o acesso de muitas pessoas e empresas a essa solução.

Quanto a isso, a expectativa é que o Open Banking gere um impacto positivo tanto para quem recebe o crédito quanto para quem oferece.

A ideia é que o Sistema Financeiro Aberto contribua para a:

  • redução dos juros e das taxas;
  • melhora do processo de análise;
  • diminuição do spread bancário;
  • chegada de novos entrantes no setor.

Redução dos juros e taxas

O Open Banking consiste no compartilhamento de dados e informações bancárias, entre os participantes do sistema, mediante autorização prévia do titular.

O Sistema Financeiro Aberto, como também pode ser chamado, é uma iniciativa do Banco Central do Brasil que tem como objetivo trazer mais inovação ao mercado de serviços financeiros nacional.

Para isso, o Open Banking vai fomentar a competitividade entre bancos, fintechs e demais instituições financeiras, promover a concorrência entre eles e tornar a oferta de produtos e serviços financeiros mais acessível e transparente para o público.

Todas essas características são incentivos para que os players criem e entreguem soluções mais atrativas. 

O principal motivo é que os clientes poderão facilmente analisar as ofertas, comparar soluções e produtos, e migrar de uma instituição para outra de maneira rápida e simples, sem qualquer burocracia, optando por aquela que melhor atender a sua necessidade naquele momento.

Por isso, no que diz respeito ao mercado de crédito propriamente dito, a expectativa é que os juros e as taxas sejam reduzidos, tornando esse ponto um importante diferencial competitivo na busca das empresas por atrair novos clientes e manter os que já estão na sua base.

Melhora no processo de análise de crédito

Se antes apenas a instituição financeira com a qual o cliente mantinha um relacionamento tinha acesso aos seus dados e histórico bancário, com a chegada do Open Banking esse cenário também muda.

A partir do momento que o titular fornece autorização para acesso, qualquer player pode verificar as suas informações bancárias.

Uma das grandes vantagens é que quem está ofertando o crédito tem uma visão completa de toda a jornada financeira do potencial cliente.

Com isso, é possível fazer uma avaliação de risco de maneira mais completa, dinâmica e precisa. 

Isso também contribui para a redução dos juros e taxas a serem cobrados, uma vez que a instituição consegue de forma mais concreta fazer uma análise se há, ou não, chances de inadimplência.

Tudo isso resulta em um processo de liberação de crédito muito mais rápido, uma vez que o cliente não precisará mais iniciar um relacionamento do zero com o banco ou fintech com o qual pretende solicitar esse serviço, nem comprovar por outros meios a sua condição financeira.

Diminuição do spread bancário

A diferença entre o valor que um player gasta para a entrega de uma solução, produto ou serviço, e a quantia que cobra do cliente por eles é chamado spread bancário.

O Open Banking pode não diminuir esse investimento de forma direta. No entanto, por conta da competitividade, é possível que muitos participantes do Sistema Financeiro Aberto reduzam os seus spreads.

A expectativa é a mesma citada nas tendências anteriores: reduzir juros e taxas para atrair novos clientes e não perder os que já estão na base. 

Com isso, bancos, fintechs e demais participantes do mercado de crédito podem até reduzir suas margens de lucro, mas ganharão no volume total emprestado.

Chegada de novos entrantes no setor

Outro importante ponto de impacto gerado com o início do Open Banking é a abertura para participação de novos entrantes no mercado de serviços financeiros.

O caminho para o fim do monopólio bancário já vem sendo pavimentado há algum tempo com a atuação das fintechs, incentivado, inclusive, por uma série de regulamentações do próprio Banco Central.

O Sistema Financeiro Aberto promove ainda mais movimento, uma vez que players considerados menores poderão apresentar de maneira igualitária as suas soluções ao público.

Isso dá a qualquer empresa, de qualquer segmento, que tenha agregado produtos e serviços financeiros ao seu portfólio, a chance de atrair para si clientes que até então eram de grandes instituições, aumentando o seu poder competitivo e, consequentemente, o faturamento.

Essa possibilidade se torna ainda evidente quando as soluções financeiras são criadas com foco no atendimento às dores de um público específico.

Empresas varejistas, por exemplo, ao firmarem parceria com fintechs as a service, conseguem criar e entregar produtos financeiros pontuais para as necessidades dos seus consumidores.

No mercado de crédito, especificamente, isso contribui para criação de modelos de negócios inovadores e em formatos condizentes com a necessidade de cada setor, o que leva a novas possibilidades de rendimento.

Oportunidades geradas pelo Open Banking para o varejo

E por falar em varejo, as oportunidades geradas pelo Open Banking para esse setor são diversas.

É possível citar, por exemplo, operações de crédito mais eficientes que geram novas opções de parcelamento de compras e de financiamentos.

Uma vez que se tem acesso de maneira fácil às informações bancárias, comportamento e perfil do cliente, os varejistas podem criar e entregar soluções voltadas para o mercado de crédito que sejam realmente personalizadas.

Com isso, as chances de inadimplência também tendem a diminuir, já que as ofertas de crédito vão ao encontro das possibilidades e necessidades daquele cliente.

Ao ter menos custos decorrentes de recuperação de dívidas, os varejistas podem até repassar essa economia para os preços finais dos seus produtos, gerando mais um ponto de atração de novos consumidores e de fidelização.

Maior adesão à oferta de serviços financeiros

A oferta de serviços financeiros adicionais é outro ponto que tem tudo para ser fortemente impulsionado pelo Open Banking.

O conceito embedded finance, em português algo como finanças embutidas, já vem sendo cada dia mais utilizado pelo setor varejista.

Nomes como Magazine Luiza e Via Varejo, proprietária das Casas Bahia e do Ponto Frio, são bons exemplos.

O embedded finance consiste na entrega de produtos e serviços financeiros por empresas que não fazem parte desse segmento, utilizando, para isso, plataformas Banking as a Service oferecidas por fintechs.

Nesse cenário, o varejo se posiciona além do seu modelo tradicional de atuação, que é a venda de produtos, e começa a também fazer parte da vida financeira dos seus clientes.

Conta digital com a própria marca, cartões de crédito, de débito e/ou pré-pago, e soluções voltadas para o mercado de crédito, como empréstimos e financiamentos, são apenas alguns exemplos do que pode ser oferecido pelas empresas varejistas.

Além de atender os clientes de maneira mais pontual ao criar o seu próprio banco digital, o varejo tem também a possibilidade de competir com outros players e, dessa forma, aumentar a sua credibilidade, poder competitivo e de atração e, obviamente, o seu faturamento.

E como mencionado anteriormente, o Open Banking vai possibilitar que novos entrantes no mercado de serviços financeiros apresentem as suas soluções da mesma maneira que os bancos tradicionais e instituições atuantes há mais tempo.

Isso tende a incentivar ainda mais a adesão ao embedded finance, uma vez que o varejo não se limitará apenas ao seu público-alvo, já que terá a chance de atender diferentes camadas de consumidores, desde que a sua oferta seja diferenciada e mais atrativa.

Os desafios a serem enfrentados com a chegada do Open Banking

Mesmo que o Open Banking para o mercado de crédito e demais segmentos seja bastante benéfico, ainda há alguns desafios que precisarão ser enfrentados por seus participantes.

Considerando que o princípio do Sistema Financeiro Aberto é o compartilhamento de dados bancários, um dos obstáculos pode ser a insegurança por parte do público em dividir essas informações.

Saber que todo o seu histórico bancário, incluindo movimentações, valores guardados e investidos, número de contas e de documentos, entre outros, serão facilmente visualizados, muitas pessoas podem ter receio em aderir a esse novo sistema.

No entanto, é preciso lembrar que o Open Banking só acontece mediante autorização expressa do titular. Sem isso, de nada adianta bancos, fintechs e empresas participantes do mercado de serviços financeiros se prepararem para essa inovação.

A fim de rever esse quadro, cabe ao Banco Central e aos players “educar” o público e mostrar quando o sistema é vantajoso para todos os envolvidos.

Além disso, é fundamental se atentar ao cumprimento da LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados e à criação de camadas de segurança para o compartilhamento de dados. 

Dois critérios que, inclusive, são exigidos pelo Banco Central, e que também ajudam a dar mais confiança ao público para aderir ao Open Banking. 

O processo de implementação do Open Banking no Brasil

A implementação do Open Banking no Brasil está prevista para acontecer em 4 fases, sendo que a primeira entrou em vigor em 1º de fevereiro de 2021.

1ª fase do Open Banking – 01/02/2021

A primeira fase do Open Banking consiste no compartilhamento de forma padronizada de informações sobre os canais de atendimento, produtos e serviços financeiros tradicionais já oferecidos pelos participantes do novo sistema.

Um dos resultados esperados com essa etapa é o surgimento de novas ferramentas de comparação que vão facilitar o acesso e a escolha dos clientes entre as opções disponíveis.

2ª fase do Open Banking – 15/07/2021

Já na segunda fase, os titulares das contas terão controle sobre o compartilhamento dos seus dados, que incluem informações cadastrais, transações realizadas entre contas, dados sobre cartões e operações de crédito.

A partir desse momento, os clientes poderão compartilhar tudo isso com a instituição financeira que quiserem, a qualquer tempo.

O objetivo dessa etapa é que, com acesso aos dados dos clientes, seja impulsionada a criação e a entrega de produtos e serviços financeiros mais acessíveis, personalizados e desburocratizados.

3ª fase do Open Banking – 30/08/2021

A terceira fase do Open Banking é a que mais gerará impacto no mercado de crédito. Isso vai acontecer porque, nesse período, os clientes terão acesso a diferentes ofertas e propostas. 

Essas, por sua vez, estarão disponíveis em diferentes canais, e não apenas nas agências ou aplicativos bancários.

4ª fase do Open Banking – 15/12/2021

A última fase do Open Banking refere-se à evolução e ampliação do conceito. A partir dessa data, o Sistema Financeiro Aberto abrangerá outras soluções e uma gama maior de dados que poderão ser compartilhados.

Além de possibilitar a entrada de novos participantes, nessa etapa o sistema também poderá ser usado para a criação e oferta de soluções voltadas para investimentos, seguros, previdência, entre diversos outros produtos financeiros.

Quem é obrigado a participar do Open Banking

A participação no Sistema Financeiro Aberto é obrigatório a todas as instituições financeiras enquadradas no segmento 1 (S1) e no segmento 2 (S2), de acordo com a Resolução 4.553, de 2017:

  • segmento 1 (S1): com porte igual ou superior a 10% do PIB, ou internacionalmente ativos;
  • segmento 2 (S2): com porte entre 1% e 10% do PIB, ou instituição de porte superior a 10% do PIB não enquadrada no S1.

Somado a esse critério, o Banco Central também determina obrigatoriedade de participação no Open Banking a:

  • instituições detentoras de conta de depósitos à vista ou de poupança ou de pagamento pré-paga; 
  • instituições iniciadoras de transação de pagamento;
  • instituições reguladas que tenham firmado contrato de correspondente no Brasil para receber e encaminhar propostas de operações de crédito por meio eletrônico.

Porém, é permitido participar também de forma voluntária. Essa possibilidade é válida para instituições financeiras e de pagamento autorizadas pelo Banco Central, desde que disponibilizem uma interface para compartilhamento de dados.

Ou seja, é possível acessar os dados constantes em outras instituições, desde que também compartilhe os dos seus clientes, caso esses solicitem expressamente.

Neste ponto você deve estar se perguntando como fica a participação do varejo no Open Banking, uma vez que o mercado de crédito e de serviços financeiros não é o foco principal de atuação desse segmento.

No caso, o Banco Central permite a celebração de contratos de parceria entre instituições autorizadas e não autorizadas. Um dos caminhos para isso são as soluções Banking as a Service.

Quando uma rede varejista fecha parceria com uma empresa fintech para inclusão de produtos financeiros ao seu portfólio, toda a parte de regulação já foi atendida.

Isso quer dizer que não é preciso se preocupar em solicitar permissões ou atender às regulamentações estabelecidas pelo Banco Central, pois tudo já foi cumprido pelo desenvolvedor.

Por que os varejistas devem participar do Open Banking, especialmente no mercado de crédito

Apesar de o processo de bancarização ter sido impulsionado em 2020 por conta da pandemia, especialmente em decorrência do pagamento do Auxílio Emergencial, muitas pessoas ainda não têm qualquer tipo de relacionamento com o setor bancário.

Quando o propósito é mudar essa situação, o varejo tem a grande vantagem de já ter uma relação próxima e de confiança com o seu público.

Muito melhor que os bancos tradicionais, as redes varejistas conhecem a fundo o perfil, o comportamento e as expectativas dos seus clientes.

Esse conhecimento permite a criação e a entrega de produtos e serviços financeiros que realmente atendam às necessidades desses consumidores, incluindo soluções de crédito como empréstimos e financiamentos.

Do outro lado, há também a parcela da população que tem algum tipo de relacionamento bancário. Porém, por algum motivo, têm dificuldade de obter crédito.

Sobre isso, o varejo pode se beneficiar do Open Banking e verificar com precisão todo o histórico do cliente antes de lhe oferecer algum produto.

Desse modo, a rede varejista tem a chance de atrair esse cliente bancário para si, aumentando a sua base, o seu faturamento e, ao mesmo tempo, se resguardando melhor de possíveis situações de inadimplência.

Em resumo, a entrada de uma empresa varejista no mercado de serviços financeiros contribui para:

  • gerar uma nova fonte de receita para o negócio;
  • aumentar o seu poder competitivo;
  • aumentar o seu poder de atração;
  • elevar as suas taxas de fidelização;
  • fortalecer a imagem da marca;
  • gerar mais credibilidade para a empresa;
  • melhorar a experiência do cliente;
  • atender novas camadas de consumidores.

Como ofertar soluções de crédito e demais produtos financeiros

Relembrando o que foi dito anteriormente, a parceria com uma fintech permite todas essas entregas, sem que a empresa varejista precise se desviar do seu core business, ou se preocupar com questões regulatórias e desenvolvimento de soluções.

Inclusive, uma pesquisa da promovida pela PwC Brasil e pela ABCD, Associação Brasileira de Crédito Digital, apontou a importância da participação das fintechs no processo de democratização do crédito no Brasil.

Segundo o levantamento, a atuação das fintechs nesse setor contribui, entre outros pontos,  para aumentar a eficiência e a concorrência no mercado de crédito, diminuir a burocracia do processo e reduzir os custos dessa operação.

Parte disso é atribuído ao uso mais amplo da tecnologia, o que contribui para derrubar diversas barreiras no que diz respeito à análise e concessão de crédito, bem como para a oferta de outros produtos financeiros.

Na hora de escolher uma empresa fintech para lhe ajudar nessa jornada, comece considerando qual o objetivo do acréscimo de serviços financeiros ao seu portfólio.

Em seguida, alinhe essa expectativa com as soluções ofertadas pela fintech escolhida. Não deixe de verificar as tecnologias utilizadas, segurança de dados e regulamentações.

Por fim, não abra mão de uma plataforma banking White Label. Dessa forma, tudo o que criar será entregue aos seus clientes com a sua marca, gerando todas as vantagens que citamos anteriormente, como aumento da credibilidade e do seu poder competitivo.

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