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Inteligência artificial na programação é ameaça ou aliada?

Por: Carlos Lopes

Profissional com mais de 15 anos de experiência em tecnologia e desenvolvimento de software. Iniciou a carreira como desenvolvedor e tester na Overplay e, posteriormente, fundou a Pollares, onde atuou como CTO, liderando o desenvolvimento de um ERP SaaS para a indústria gráfica. Na Codeminer42, passou por funções técnicas e comerciais, incluindo desenvolvedor, Tech Lead e Account Manager. Desde 2018, é sócio e Business Development Manager da empresa, atuando na expansão dos negócios e no desenvolvimento de parcerias estratégicas.

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Confesso que, quando comecei minha carreira em tecnologia, ouvir alguém falar sobre “robôs que escrevem código” soava como ficção científica. Hoje, esse futuro não só bate à porta como já está entrando pela janela, com ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar código, sugerir soluções e até testar sistemas, que começaram a transformar nossa rotina. E, com isso, surge a pergunta inevitável: será que a IA vai substituir desenvolvedores?

Homem diante de notebook com código na tela, ao lado de uma mão robótica sobre o teclado e ícones de cérebro e lâmpada no centro da imagem.
Imagem gerada por IA.

Como a IA redefine o trabalho do desenvolvedor

A primeira coisa que aprendi é que a tecnologia nunca substitui o humano, mas redefine a forma como trabalhamos. A IA não chega para tomar o lugar do desenvolvedor, mas para expandir sua capacidade. Tarefas repetitivas, debugging básico, boilerplate… tudo isso pode ser automatizado, liberando tempo para que possamos criar soluções mais complexas, inovadoras e estratégicas.

No dia a dia da Codeminer42, vejo isso de perto. Nossos times utilizam IA para acelerar protótipos, revisar códigos e até prever falhas antes que elas aconteçam. Mas a mágica real continua vindo da criatividade humana; a IA sugere, mas somos nós que decidimos o que faz sentido, o que é seguro e o que atende às necessidades do cliente.

É claro que a adaptação é um desafio. Quem não se atualiza corre o risco de ver seu papel mudar. Mas substituir programadores? Duvido. O desenvolvimento de software é muito mais do que linhas de código. É lógica, empatia pelo usuário, entendimento do negócio e capacidade de transformar ideias em produtos reais. E isso, pelo menos por enquanto, continua sendo terreno exclusivamente humano.

Competências humanas além do código

Os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho são amplamente debatidos. Estimativas da OCDE apontam uma perda de 92 milhões de empregos, enquanto o Fórum Econômico Mundial avalia que o dobro dos postos extintos será criado. A tecnologia avança cercada por medo e expectativa, sobretudo no setor de TI, em que a possibilidade de substituição de programadores se tornou uma questão recorrente.

Eu costumo dizer que o programador que apenas escreve código está, sim, sujeito às mudanças provocadas pela IA, talvez, até mesmo, correndo o risco de perder oportunidades e colocações. Mas engenheiros de software – aqueles que pensam além das linhas de código, que entendem produto, negócio e arquitetura de sistemas – não só não serão substituídos, como terão relevância ainda maior nesse novo cenário.

A engenharia de software exige justamente aquilo que a IA não consegue replicar, como a visão estratégica, a capacidade de análise de contexto, a avaliação de impactos e trade-offs para os negócios, e a compreensão dos débitos técnicos gerados em cada decisão.

Na prática, significa projetar, desenvolver, testar e manter softwares, mas também compreender problemas complexos, priorizar soluções e traduzir demandas de negócio em tecnologia. Essas são as competências que nos permitem criar valor real para os clientes e que tornam o trabalho humano insubstituível.

Além da técnica, competências como comunicação, organização e capacidade de lidar com mudanças são cada vez mais essenciais. Um bom engenheiro de software precisa interagir com colegas, traduzir termos técnicos para não técnicos, entender prioridades e administrar imprevistos. Participar ativamente do desenvolvimento do produto, trabalhando lado a lado com product owners e gerentes de produto, tornou-se obrigatório.

Avaliações periódicas, mentorias, treinamentos internos e grupos de estudo são fundamentais para manter a equipe atualizada. O ritmo da inovação não espera, e profissionais que investem em capacitação contínua não só acompanham o mercado, mas se tornam protagonistas dele.

No fim das contas, a pergunta certa não é “a IA vai nos substituir?”, e sim “como podemos trabalhar com a IA para sermos melhores, mais rápidos e mais estratégicos?”. A minha aposta é tratar a inteligência artificial como uma aliada poderosa, mas o toque humano, a visão, o raciocínio e a criatividade do engenheiro de software continuam sendo o diferencial que transforma tecnologia em resultado real. E isso, para mim, é o futuro mais empolgante que podemos imaginar.