Logística: 2020 foi o ano das logtechs. Mas, o que será de 2021?

por Douglas Carvalho Sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021   Tempo de leitura: 9 minutos

O ano de 2020 ficará marcado pelos impactos e ajustes de vida trazidos pela pandemia da Covid-19. Todos sabemos dos impactos negativos na vida das pessoas, empresas e na Economia em geral. Ainda assim (ou por isto), alguns setores conseguiram se beneficiar das mudanças de comportamento trazidas e impostas pela pandemia — e com isto crescer mesmo no meio a tantas restrições.

Um dos grandes vencedores deste cenário foi o e-commerce, nacional e globalmente. No Brasil, as prévias apontam para um crescimento de 49% nas vendas online comparado com 2019. Inclusive, superou pela primeira vez a marca dos R$ 100 bilhões movimentados no comércio eletrônico nacional. Esse número pode ser ainda mais substancial quando todos os resultados dos varejistas online forem divulgados, com uma previsão otimista de batermos os R$ 120 bilhões em vendas.

Esse crescimento — promovido em grande parte pelo fechamento das lojas físicas e pelas pessoas passando mais tempo dentro de casa — foi sustentado também por outras mudanças e evoluções no ecossistema do comércio eletrônico. O florescimento de e-commerces locais foi um deles, que promoveu a compra online de artigos alimentícios, bebidas, de limpeza, etc, ainda muito concentrados no varejo físico. Houve também a ampliação das soluções ofertadas pelos marketplaces, com opções de pagamento, financiamento de lojistas e soluções de fullfilment. Outro ponto foi o amadurecimento dos provedores de serviço logístico do país, suportando o crescimento das entregas com prazos mais ágeis e confiáveis. Portanto, tudo isso trouxe maior atratividade e segurança para milhões de novos consumidores e para aqueles que já são habituados a comprar com a facilidade de um click.

Boom de investimentos em logística

O e-commerce é foco da grande maioria das startups que oferecem soluções para cadeia logística — em acelerado crescimento. Por conta disso, investidores e players mais consolidados passaram a dar ainda mais atenção e aportar capital nas logtechs nacionais. Consequentemente, isso tornou 2020 um ano especial para este segmento, extremamente dependente de capital para o desenvolvimento de tecnologia, execução operacional e velocidade de crescimento.

Lembro que isso ocorreu após 2019, ano que colocou uma logtech no panteão dos unicórnios verde-amarelo. Além da Loggi, aliás, já haviam outras startups performando com excelência e se apresentando como potenciais unicórnios. Por isso mesmo já se via uma tendência de que o segmento atraísse novos aportes. Contudo, com a forte demanda do e-commerce em 2020 — que deve continuar refletindo em cifras consideráveis nos próximos anos —, VC’s (fundos de capital de risco) e players estratégicos dentro e fora do varejo online aceleraram suas teses de investimento, aportando mais de US$ 187 milhões em 15 transações mapeadas pelo Logtech Report, estudo do Distrito. Esses números representam um recorde histórico (que precisa descontar aportes “fora da curva” feitos em 2018 no iFood e Loggi) e um crescimento de 11% versus 2019. Desde 2011, mais de US$ 1,3 bilhão já foram aportados em logtechs nacionais.

Principais investimentos e aquisições

Dentre as soluções ofertadas pelas mais de 280 logtechs brasileiras, as que ofertam soluções para entregas, especialmente para o last mile (a última etapa de entrega) são as que atraem os maiores volumes de investimento. Em 2020, foram destaque as rodadas levantadas por:

  • Cargox: US$ 82,8 milhões em uma rodada de Series E;
  • Modern Logistics: US$ 65 milhões em private equity;
  • Intelipost: US$ 32 milhões em private equity;
  • FreteBras: US$ 17,9 milhões em uma rodada de Series A.

Outros investimentos que merecem menção foram os levantados pelas startups Logcomex, Fretefy e Vuxx. Além disso, novos fundos foram anunciados ao longo do ano. Há recursos destinados a explorar soluções logísticas inovadoras, como da Domo Invest e Randon Ventures. Ou seja, mostra o apetite dos investidores e o potencial do mercado.

Aquecimento da cadeia logística

Além dos investimentos feitos por fundos, o que mais chamou atenção neste movimento em 2020 foi o apetite de varejistas e outras empresas de segmentos diferentes por startups da cadeia logística. As aquisições e investimentos diretos tiveram um ano muito quente, consolidando o movimento de ecossistema capitaneado por grandes varejistas e que também trouxe novos players para a mesa de negociações.

Do apetite do varejo, destaque para a aquisição das startups de last mile AsapLog, pela Via Varejo, e Kangu, pelo Mercado Livre. Sem mencionar as plataformas GFL e SincLog, pelo Magazine Luiza.

Mas não foram só os grandes varejistas que viram nas logtechs o potencial para fortalecimento de seus ecossistemas e para otimizar sua eficiência operacional. Players do universo tech também fizeram seus movimentos. Eles iniciaram uma nova etapa na oferta de soluções não apenas ao mercado de e-commerce, mas para toda cadeia produtiva nacional.

As aquisições que mexeram com o mercado foram da plataforma de fretes Melhor Envio, pela Locaweb; da plataforma de crowdshipping PAX, pela Olist; da fusão (mais com cara de aquisição) do gateway de fretes Intelipost, com a AgileProcess — que oferta uma solução de roteirização de entregas; e da solução de gestão logística dLieve, pela VTEX, que com o movimento lançou seu próprio braço de soluções de frete para os lojistas de sua plataforma.

O que esperar do setor em 2021

Ainda puxado pelo fôlego de crescimento das vendas online — que em 2021 deve projetar nova alta considerável e também pelo apetite dos investidores pelo segmento —, veremos ao longo do ano mais recursos sendo aportados em logtechs e novas aquisições consolidando o mercado.

Já no início deste ano, a líder em fullcommerce, Infracommerce, anunciou a aquisição da Pier8, especializada em logística para ecommerce. Além dela, a Intelipost fez seu segundo movimento após aporte, comprando a startup Pegaki — que habilita pontos físicos como locais de entrega de mercadorias. Com o caixa reforçado por vistosos aportes de capital, Olist, Mercado Livre, MadeiraMadeira (primeiro unicórnio de 2021), enjoei e Loggi devem ser protagonistas dentro do mercado de tecnologia.

Contudo, empresas mais conectadas às indústrias não nativamente de tecnologia também devem acelerar sua aproximação com logtechs. Neste caso, virão dentro de uma política de transformação digital que virou urgente ao longo da pandemia. Destas, podemos prever uma ação mais ativa de empresas como a BBM Logística, Cargolift, Tegma Logística (que já possui a TegUp Ventures, aceleradora de logtechs). Empresas ligadas à cadeia do comércio internacional, agronegócio e infra-estrutura também se aproximarão das logtechs este ano.

Correios

E os Correios? O que será da Estatal em 2021? Os planos de privatização do governo federal parecem cada vez menos prováveis. A complexidade envolvida na operação de venda à iniciativa privada também é outro ponto a ser levantado. Por isso, devemos continuar vendo iniciativas internas dos Correios para corrigir alguns de seus problemas mais críticos de qualidade e confiança. Porém, estarão cada vez mais pressionados no negócio de encomendas por um universo de logtechs muito dinâmicas e bem suportadas. Em geral, ganham o mercado e os consumidores.

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