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  Redação E-Commerce Brasil

Para Netshoes, aumento nos fretes dos Correios é ‘medida antidemocrática’

Quinta-feira, 01 de março de 2018   Tempo de leitura: 3 minutos

A Netshoes anunciou, nesta quarta-feira (28), sua adesão ao movimento #FreteAbusivoNão, iniciado pelo Mercado Livre em protesto contra o aumento no frete dos Correios. Segundo comunicado do e-commerce, o reajuste “vai na contramão da recuperação da economia e do desenvolvimento do comércio eletrônico no país”.

Na opinião de Graciela Kumruian, COO da Netshoes, os efeitos prometem ser ainda mais profundos: a diminuição drástica do poder de compra – e venda – de pessoas que dependem do e-commerce para ter acesso a produtos.

Em entrevista ao E-Commerce Brasil, Kumruian fala sobre os impactos da mudança nos preços e quais ações a empresa decidiu tomar para tentar barrar os aumentos nos fretes.

E-Commerce Brasil: Qual o impacto sentido pela Netshoes, tanto na operação própria quanto no marketplace, com a nova tabela de fretes dos Correios?

Graciela Kumruian: O impacto maior será para o consumidor em todos os aspectos. Pelo lado financeiro, caso essa medida dos Correios seja levada adiante, a Netshoes estima que em média haverá um aumento de 30% no valor geral do frete e que será inevitavelmente repassado ao cliente para a sustentabilidade do negócio. Já operacionalmente, trata-se de uma medida antidemocrática, pois o consumidor que mora no interior ou nas localidades mais distantes, enxerga no e-commerce a possibilidade de ter acesso aos mesmos produtos já disponíveis nas capitais. E essas localidades foram as que sofreram maior reajuste e muitas delas são atendidas somente pelos Correios, ou seja, sem concorrência.

O e-commerce vem crescendo ano após ano por facilitar a vida do consumidor e, com um preço abusivo do frete, a decisão da compra online pesará muito ao consumidor.

Em operações marketplace, como a nossa, há um grande prejuízo para os lojistas cadastrados. A maioria deles tem menor escala e volume e, com o frete inflacionado, se tornará inviável vender online prejudicando o desenvolvimento tanto dos pequenos e médios lojistas quanto do modelo de negócio em si.

Levando a discussão para um âmbito ainda maior, trata-se de um retrocesso para o e-commerce brasileiro em sua totalidade. Com o consumidor mais cauteloso e assustado com o aumento que pode ser repassado a ele, é de se esperar uma queda nas vendas. É totalmente fora de contexto quando se discute a melhora da economia do país e a participação da iniciativa privada.

ECBR: A mudança deste ano teve mais impacto do que as dos anos anteriores? Existe algum motivo pelo qual o movimento tenha estourado neste ano?

GK: Esta medida dos Correios a que estamos fortemente nos opondo é muito fora da realidade. Com a inflação em torno 3%, não faz sentido um aumento de até 51% ou, na média, 30%. Já em anos anteriores o reajuste girou entre 6 e 8%. Além disso, não observamos grandes avanços na qualidade do serviço para justificar o aumento abusivo.

Vivemos um momento de mudança, que deveria ser encabeçado pelo governo e, consequentemente, por empresas públicas e estatais. É preciso ouvir e atender a sociedade e tomar decisões com eficiência, inteligência e produtividade – é isso que todos buscamos e queremos em nosso país. Estabelecer aumentos abusivos para simplesmente arrecadar mais com o objetivo de tentar vencer a própria ineficiência não faz, nem nunca fez, nenhum sentido, ainda mais numa sociedade mais participativa e conectada como temos hoje.

ECBR: Do ponto de vista do mercado em geral, como você enxerga essa alteração dos valores? Quem sai ganhando e quem sai perdendo?

GK: Não há quem saia ganhando, isso não é um jogo. Perde o consumidor, que terá o poder de compra reduzido em virtude da alta do preço que terá que ser repassado; perdem as empresas, que terão impacto fora da realidade em seus custos sem poder de negociação pelo monopólio estabelecido; perde o e-commerce brasileiro, que com esta medida vê o seu poder de participação no mercado ser reduzido, o que vai totalmente na contramão do seu desenvolvimento e dos países mais desenvolvidos. O reflexo na economia como um todo é altamente negativo.

Perdem inclusive os Correios, que optam por uma medida abusiva em vez de encontrar maneiras criativas de revigorar o seu negócio. Não é um jogo em que se tem vencedor.

Há, claro, uma oportunidade para que outros players se desenvolvam, mas isso leva tempo e é preciso considerar também gargalos logísticos do país e como superá-los para estabelecer este avanço. Já há muito tempo existe um desafio de infraestrutura e, ao tomar medidas como essa, opta-se por um caminho simplista em vez de ter uma visão macro sobre os desafios do país.

ECBR: Na sua opinião, qual seria a solução – ou as soluções – para diminuir o valor dos fretes praticados pelos Correios e pelas transportadoras particulares?

GK: O Brasil é um país de dimensão continental, o que gera um desafio enorme quanto a transporte de carga. É preciso atacar a doença em sua origem ou proceder de modo profilático em vez de ficar controlando a febre, e continuar agonizando. Deveríamos ter maior apoio do Governo Federal quanto a controle do preço da gasolina, garantir melhores condições de nossas estradas, melhoria na segurança pública, incentivo para desenvolvimento de outros players que ainda não atendem regiões exclusivas dos Correios etc. O estímulo à concorrência é extremamente benéfico, sobretudo quando falamos do e-commerce brasileiro, que ainda tem um potencial enorme de penetração. Enfim, como comentei anteriormente, é preciso ter uma visão macro sobre os desafios do país e atuar em cima deles com medidas eficientes e inteligentes, e não de modo simplista.

ECBR: Quais ações a Netshoes pretende tomar, além da campanha nas redes sociais, para diminuir o valor do frete?

GK: Já publicamos nosso manifesto e vamos atuar fortemente para continuar esta luta que entendemos não ser somente a luta para o desenvolvimento do e-commerce, mas também a do consumidor, que é nosso protagonista. A Netshoes, junto ao Mercado Livre e a todos outros varejistas interessados pela causa, busca colocar o reajuste em discussão para que se chegue a um acordo comum que vise garantir a continuidade do desenvolvimento do e-commerce de forma justa. Nosso objetivo é mitigar ao máximo o impacto ao consumidor, desenvolver outros parceiros e modelos de entrega que sejam um ganha-ganha. Queremos ser agentes de uma transformação não somente da estrutura, mas também do mindset de autoridades e profissionais ligados a serviços estratégicos para ajudar, de fato, a desenvolver e recolocar a economia do país nos trilhos.

Por Caio Colagrande, da redação do E-Commerce Brasil

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3 comentários

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  1. Parabéns a NETSHOES e demais logistas. É bastante preocupante que, ao invés de se fazer uma administração dos recursos de forma honesta por parte das empresas públicas, tentam corrigir aquilo que escoa pelo ralo, onerando injustamente quem faz a “roda girar” – o consumidor. Certamente eu continuarei sendo criterioso na hora de fazer compras.

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