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  Redação E-Commerce Brasil

‘Qualquer mulher pode olhar para a colega ao lado e enaltecer seu trabalho’, afirma fundadora do Mulheres no E-commerce

Sexta-feira, 08 de março de 2019   Tempo de leitura: 13 minutos

Oficialmente Dia Internacional das Mulheres, 8 de março não serve apenas para parabenizações. A data mostra a relevância do papel da mulher na sociedade e sua luta diária pela igualdade de gêneros. No e-commerce, cada vez mais mulheres conquistam espaço como empreendedoras e, ainda de maneira tímida, cargos de liderança.

Para Carolina Moreno, executiva de contas na Original.io, o tema é ainda mais sensível. Ela é fundadora do Mulheres no E-commerce, iniciativa que visa empoderar mulheres no comércio eletrônico por meio de conteúdo e visibilidade. Nesta entrevista, ela explica como está o mercado de lojas virtuais para mulheres e quais obstáculos as empresas precisam transpor para criar um ambiente igualitário.

ECBR: Vamos começar por você. De onde você veio, com o que você já trabalhou e qual a sua trajetória profissional?

Carolina Moreno: Eu sempre trabalhei na área comercial. Em tecnologia, foram em torno de sete anos. Meu primeiro emprego foi vendendo cartão de crédito. De domingo a domingo, ganhando R$ 600 por mês. Me descobri como comercial e nunca achei que fosse gostar tanto da área.

Logo em seguida comecei a trabalhar na TOTVS, umas das principais empresas de ERP. Aí fui batendo as minhas metas. Trabalhando com e-commerce, já ganhei dois prêmios. Daí veio a ideia de fundar o Mulheres no E-commerce.

ECBR: Quais foram suas motivações para fundar o “Mulheres No E-commerce”?

Moreno: A ideia primordial era ser um canal no Youtube, no qual as mulheres pudessem se empoderar com o conteúdo. Transmitir um conteúdo delas para o mercado era a ideia.

E aí o negócio começou a crescer muito além disso. Começamos a perceber que as mulheres precisavam se unir e, por isso, começamos a fazer eventos, gerar networking – algo que faltava muito para elas – e, principalmente dentro dos grupos de WhatsApp, engajar as profissionais. Neles, as mulheres fazem amizade e é muito legal como o processo todo está se desenvolvendo.

ECBR: Quais foram as principais dificuldades da iniciativa? E os principais êxitos?

Moreno: A principal dificuldade foi o mercado entender que este era um movimento feminista. Isso porque, há dois anos, a palavra feminismo estava muito forte, começando a crescer. Parece pouco tempo, mas muita coisa mudou nesse período. Tivemos de mostrar que queríamos agregar, ajudar, empoderar, o que de fato conseguimos.

Dos principais êxitos, um foi a recepção por parte das mulheres. Muitas se empolgaram e ajudaram nesse caminho. E ajudam até hoje. Outro êxito foi a participação em grandes eventos, no VTEX Day e no E-Commerce Brasil, o que ajudou muito a impulsionar o projeto e a sua ideia.


ECBR: Sobre o mercado de e-commerce, como você vê a participação das mulheres nele?

Moreno: O e-commerce vem crescendo muito. É a menina dos olhos do país e de muitos outros lugares, inclusive. É um segmento que trouxe muita esperança para as empreendedoras.

O que mais vemos sobre as mulheres no comércio eletrônico – e um dado legal que nós conseguimos com uma pesquisa recente [feita pelo grupo e que será divulgada em breve] – é que mais de 46% das mulheres no e-commerce são empreendedoras, donas do seu próprio negócio.

A participação da mulher está forte porque a mulher tem possibilidade de se empoderar e criar seu negócio usando as facilidades do mundo digital. A gente fala de grandes corporações, onde escalamos mais cargos de analistas, gerenciais, coordenação, diretoria, C-level; mas aplicando no contexto de pequenas e médias empresas, percebemos o quanto as mulheres vêm crescendo e tendo possibilidade de se tornarem empreendedoras digitais por meio do comércio eletrônico.

ECBR: Cada vez mais as mulheres ocupam espaços importantes e cargos de liderança nas empresas. É uma realidade no e-commerce?

Moreno: É uma realidade. Porém, ainda muito tímida. O que a gente percebe da nossa pesquisa de mulheres que trabalham com e-commerce é que 5% estão em cargo C-Level; 5% em cargos de diretoria e aumenta para 15% quando falamos de gerenciamento. Há uma crescente em cargos gerenciais. Acima disso, há uma dificuldade, barreira, em tornar essas mulheres C-Level.

É uma via de mão dupla. Tanto das empresas de terem mais abertura para isso, quanto das mulheres também buscarem cada vez mais conhecimento. Pra se ter ideia, 40% das mulheres que responderam a pesquisa só falam português. Algumas falam mais de duas, três línguas, mas a maioria ali, não.

Pesquisamos também sobre MBA e doutorado. A grande maioria só tem o superior completo, o que hoje em dia faz diferença no currículo.

Dentro de experiência e tempo no mercado de e-commerce, está bem dividido. 25% têm mais de dez anos de mercado e são essas que chegam a C-Level e diretoria. Elas geralmente também têm doutorado, MBA e por aí vai.

ECBR: Como é a participação e a presença feminina nesse mercado?

Moreno: Falando pela minha percepção, há uma crescente de participação nos últimos anos. Percebemos isso principalmente no âmbito de empreendedorismo online mesmo. Sobre presença, uma das perguntas da pesquisa foi o que faltava para as mulheres terem mais participação no mercado. Na concepção delas, falta estar mais presente em eventos, fazer mais networking, ter mais conhecimento sobre a área. Outro ponto importante é mulheres darem palestras e darem aulas. São exatamente as mulheres (20% das respostas) que sentem que são aptas pra isso.

ECBR: Quais são os principais problemas enfrentados para estar nesses lugares e ganhar representatividade?

Moreno: Essa resposta está um pouco mesclada com as das demais perguntas. Mas é sobre as mulheres serem mais ouvidas (27%) – informação levantada na pesquisa. Para ganharem mais representatividade, elas precisam falar, dar palestra, ministrar um curso.

Tanto que até estamos criando um site para que mulheres possam postar conteúdos de e-commerce, de empoderamento, justamente para a mulher aparecer mais. E, de novo, é uma via de mão dupla. Não depende só do mercado: as empresas me procuram para ter mulheres palestrantes, mas as pessoas ainda se sentem tímidas. Mas ao conversar no tête-à-tête, ela mostra que sabe muito. Precisamos quebrar esse paradigma e não ter vergonha de falar, de aparecer, de gravar vídeo, de estar mais nos holofotes.

ECBR: E as principais soluções? Como as mulheres estão mudando essa realidade? O que pode ser feito para que cada vez mais o mercado seja mais igual e menos machista?

Moreno: Acredito que o conteúdo empodera a mulher e mostra ao mercado que o feminismo precisa ser falado e debatido. Nós precisamos, sim, lutar por ele, mas você representa e mostra igualdade quando está em um palco, quando escreve um artigo ou cria um vídeo com conteúdo, quando você passa conhecimento e produz um case de mercado – como o “sou uma gerente de e-commerce e fiz a empresa crescer 150%”.

Às vezes, o machismo não está só presente no homem, mas em muitas mulheres. A autoestima acaba sendo mais baixa e, a partir do momento em que uma mulher vê outra e faz um aporte, ela se identifica e sabe que pode ir além.

Precisamos mostrar a outras mulheres que é possível fazer. O Mulheres no E-commerce tenta mostrar isso também e falar “vá lá e faça seu vídeo, seu artigo, seu conteúdo, fale sobre você, mostre seu case, não tenha medo de se indicar para um prêmio, não tenha medo de dar uma palestra”.

Algumas mulheres esperam sempre um convite. Para receber mais, para trabalhar na empresa dos sonhos, para palestrar. E falta elas falarem: “eu tenho que ganhar mais, eu quero palestrar, dar aula, trabalhar aqui”. E isso que falta é o que estamos tentando trazer como solução para encorajar mulheres.

ECBR: E o que nós, mulheres de fora dessa realidade, podemos fazer? Como empoderar outras mulheres? 

Moreno: Aqui eu fecho falando sobre sororidade. Vou inclusive usar essa palavra em uma palestra, e essa frase: “seja a mulher que conserta a coroa de outra mulher sem dizer ao mundo que estava torta”. Um número muito importante da nossa pesquisa (número de ouro) foi que 80% das mulheres que já sentiram que trabalharam em um ambiente altamente competitivo por outras mulheres.

Mais de 80% acham que é pior ser discriminada por outra mulher do que por um homem. Aí a gente tem uma grande dor, um calcanhar de Aquiles, muito pouco explorado e falado, que é a competição entre mulheres. Isso atrapalha nossa evolução como mulher, com o empoderamento e a igualdade de gênero.

Acho que qualquer mulher pode olhar para a colega do lado, enaltecer seu trabalho e incentivá-la. Ao invés de focar nos problemas, a lição de casa que fica é “elogie uma mulher hoje, seja parceira, não compita”. Quanto mais unidas estivermos, mais logo nós vamos.

Por Júlia Rondinelli, da redação do E-Commerce Brasil

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