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  Redação E-Commerce Brasil

Especialistas explicam o que falta para a saúde entrar de vez na era dos aplicativos

Segunda-feira, 11 de março de 2019   Tempo de leitura: 6 minutos

Falta de empatia com o paciente, número insuficiente de profissionais qualificados ou até mesmo falta de postos de saúde: esta é a realidade de milhões de brasileiros. A necessidade por atendimento de qualidade, principalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), aliada à facilidade de acesso a smartphones, aumenta a necessidade de uma nova forma de usufruir da medicina.

É o caso de consultas online, esclarecimento de dúvidas pela internet e monitoramento via aplicativos. Mas mesclar a medicina com o uso da tecnologia que cabe no bolso requer uma série de cuidados.

Especialistas discutiram avanços da chamada telemedicina em São Paulo/Cláudio Gatti
Especialistas discutiram avanços da chamada telemedicina em São Paulo/Cláudio Gatti

Em roda de conversa promovida pelo Instituto SAB no dia 26 de fevereiro, especialistas da área médica e tecnologia debateram os cuidados necessários para adequar esse fenômeno, que já está acontecendo, à realidade da população.

Encaminhar fotos de exames para os médicos, mandar mensagens pelo WhatsApp tirando dúvidas ou mesmo consultar informações de saúde pelo celular já são parte da rotina de milhões de brasileiros, segundo o médico oncologista e escritor Drauzio Varella.

“Já não há como a medicina deixar de usar os recursos eletrônicos. Mas claro que deve haver critérios. Tudo isso tem que ser olhado, também entre os médicos, para saber como usar e se vai ser bom para os pacientes”.

Nos EUA, por exemplo, já existem aparelhos que pacientes podem ter em casa para ajudar o médico a examiná-los à distância, como afirmou o médico da família e fundador da startup Canguru, Gustavo Landsberg.

“É um caminho sem volta, mas tem que ser cautela, discrição, privacidade, e saber até onde o médico pode ir. As ferramentas novas causam estranheza, mas estamos falando de coisas que acontecem e as pessoas já fazem isso, mas que podem afetar o modelo de como é feita a remuneração médica hoje.”

Para o investidor Erik Cavalcante, “a tecnologia não pede licença” e, de certa forma, vai chegar aos usuários antes que a comunidade médica tenha algum parecer sobre as ferramentas.

Lado humano da tecnologia

A complexidade do assunto se inicia bem antes de sua implantação, como explica Cavalcante. “O desenvolvimento de um aplicativo de saúde é diferente do de outras áreas. Fala-se muito do sistema online, mas, em saúde, tem de ser offline também, pois precisa do lado humano em contato com o paciente. A telemedicina pode ser muito melhor se tiver um médico da família dando o encaminhamento correto, por exemplo. A discussão é de quem está por trás da tecnologia.”

E o acesso aos aplicativos e serviços médicos não se restringe a áreas isoladas do Brasil, como costuma se pensar, mas em áreas remotas no próprio estado de São Paulo, segundo Landsberg. Nesses casos, a tecnologia ajuda todos os lados.

“[Por exemplo] Uma mãe que leva o filho para o pronto-atendimento (PA), mas o profissional não examina o paciente direito. Em contato com o médico via videoconferência, ela poderia tirar dúvidas sobre a saúde da criança e se realmente precisa levá-la ao PA. A ferramenta está aí”, provocou.

App da gravidez

Um exemplo prático de como é feita a interação da medicina com a tecnologia é o app Canguru Gravidez, criador pelo próprio Landsberg.

O projeto surgiu de uma necessidade do grande número de crianças nascidas antes da hora e que podem parar na UTI porque ainda não estavam com o pulmão desenvolvido, por exemplo, como explica o profissional. O aplicativo já foi utilizado por cerca de 400 mil mulheres.

“Estudamos bastante para o desenvolvimento do aplicativo para saber como levar informações e ferramentas para essas pacientes, como sintomas, o que fazer durante o pré-natal e como lidar com o trabalho de parto. O objetivo é que a paciente possa tomar a melhor decisão. O app também conta com um guia de maternidades”.

Dois terços das pacientes que usam o app são do SUS e apresentam perfis diversos, segundo Landsberg.

“Um dia, liguei para uma usuária do aplicativo, moradora do Acre, quase na divisa com o Peru. Ela me disse que o aplicativo tirava mais dúvidas do que o próprio médico dela, e ainda falou que só percebeu que estava em trabalho de parto com o app. Ela seguiu as recomendações, foi para a maternidade na hora certa e conseguiu ter o parto normal que queria”, contou.

Dá para lucrar com apps de saúde?

A forma de remuneração com a telemedicina é outro ponto delicado e, ainda, sem um modelo definido.

Seria sustentável cobrar do paciente o suficiente para bancar os custos com essa tecnologia, ainda mais em um cenário de aumentos constantes nos planos de saúde? Em contraponto, como pagar as contas disponibilizando serviços gratuitos?

“O app [Canguru], por exemplo, é gratuito, e a ideia é de ajudar grávidas a entenderem a importância de esperar a hora certa para ter parto normal, que é possível em mais 80% das vezes”, explicou Landsberg. “A paciente ganha do ponto de vista da saúde, mas alguém precisa pagar essa conta. Optei por tentar vender para operadoras de saúde. É business to business. Se você consegue ser eficaz para resolver um problema relevante, vai aparecer alguém querendo pagar pela solução”, mostrou o médico.

Os custos com saúde são muito caros, seja no setor público ou privado. De acordo com Varella, a saúde suplementar que conhecemos hoje é inviável, e não há como sustentar esses aumentos.

“A medicina é a única atividade econômica na qual a incorporação de tecnologia aumenta o custo final. Ao contrário do que se pensa, a margem de lucro do sistema é baixíssima, em torno de 1%, porque agimos no fim da linha”, contabilizou.

Segundo Varella, o desafio médico do século não vai ser fazer as pessoas pararem de fumar, mas a se movimentarem. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que, neste século, o sedentarismo vai matar o mesmo número de pessoas que o cigarro: 800 milhões.

“Uma intervenção na vida sedentária poderá baratear os custos com a saúde. Agora, precisamos encontrar a melhor forma de abordagem para isso, seja por mensagens, aplicativos etc”, concluiu.

Cuidados para ter o diagnóstico correto

O médico João Aidar afirma não ter dúvidas de que a telemedicina veio para ficar, desde que não seja o primeiro contato do paciente com o médico. “Um paciente que se consultou com o cardiologista, por exemplo, não consegue fazer a leitura [dos resultados]. Mas ele pode passar as informações para o médico pela internet e receber a orientação. Dá para fazer isso desde que o paciente tenha tido a interação com o médico. O paciente só voltaria ao consultório se precisasse de receita controlada. O retorno ao consultório diminuiria em 80% dos casos”.

Outro ponto a ser considerado é a qualidade do material enviado pelo paciente, como ressaltou a jornalista Marina Machado: “Também que ver a qualidade da internet, da foto, do vídeo. A ideia é muito boa, mas a implantação não pode ter a pressa que precisamos. Se for para fazer mal feito, podemos causar mais dano.”

Por Dinalva Fernandes, da redação do E-Commerce Brasil

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