Redação E-Commerce Brasil

Maioria das vendas será online, mas e-commerce não substituirá a loja física, opina diretora da Unilever

Sexta-feira, 27 de dezembro de 2019   Tempo de leitura: 10 minutos

O comércio eletrônico no Brasil já mostra sinais de consolidação e deve crescer exponencialmente nos próximos anos, impulsionado pela grande demanda do consumidor afoito por novidades. Mas há menos de 20 anos, essa praticidade era vista com estranheza.

“Quando comecei a trabalhar, não existia e-commerce. Na época, diziam que as pessoas nunca iriam comprar roupa online”, relembra Patricia Amaro, diretora de e-commerce na Unilever da Espanha, em Barcelona.

Formada em publicidade e com MBA em negócios, Amaro foi responsável pela transformação digital na Unilever na América Latina, o que incluía e-commerce, analytics e inovação corporativa. Desde junho, a executiva ocupa o novo cargo fora do país. “É muito difícil me rotular em uma profissão, e acho que será cada vez mais. Não tem um nome”, relata.

A executiva revela que começou a trabalhar no varejo montando a operação de e-commerce da Camisaria Colombo em 2006, e se apaixonou pelo meio digital. “Montar aquela operação de me deu oportunidade de entender cada detalhe, desde as perspectivas de como inserir e-commerce em uma empresa tradicional até todas as etapas que envolvem o e-commerce”, relembra.

Amaro também teve oportunidade de trabalhar na Netshoes, onde o cenário de e-commerce já estava desenhado. “Era uma empresa ágil, em que o e-commerce fosse o foco, e agressiva no sentido de crescimento, de inovação. Foi uma época de muito crescimento e aprendizado”. Veja a entrevista completa com Amaro:

Como era o mercado de e-commerce quando você começou sua carreira?

Patricia Amaro – Muitas empresas já faziam negócios nos meios digitais, mas, como basicamente as pessoas vinham da comunicação, tinham dificuldade em fazer negócios. O consumidor mudou e o mundo está ficando completamente digital.

Quando comecei a trabalhar, não existia e-commerce. Na época, só havia Submarino, Americanas e Mercado Livre no Brasil. E diziam “as pessoas nunca vão comprar roupa online”. Ainda estávamos começando a trabalhar com o digital, mas não era relevante ter e-commerce.

Teve dificuldades com o modelo de negócios?

Patricia Amaro – É difícil abrir espaço dentro da agendas das pessoas para mudar um comportamento, [como] a forma de comprar. Também não é fácil ter abertura dentro de empresas tradicionais para testar coisas novas.

Já em empresas digitais, a dificuldade é outra, pois querem fazer tudo de uma vez, sem organizar. Precisa ter um pensamento estratégico para fazer as coisas.

Quais os principais erros que cometeu na sua carreira e o que aprendeu com eles?

Patricia Amaro – Cometi muitos erros na minha trajetória. Um deles foi esperar que a pessoas tivessem a mesma visão que eu. Precisei de amadurecimento para entender que não era tão claro para os outros. O que eu achava que era óbvio, não era óbvio para todo mundo. Ao invés de uma reunião, fazia cinco, pois ninguém acertava o que eu queria porque não tinham entendido.

Eu ia para o lugar de impaciência, mas era porque não estava sendo clara o suficiente e demorei para entender que a minha habilidade de enxergar as coisas de forma diferente também exigia a capacidade maior de comunicação. Eu precisava olhar para as situações de forma mais empática e com menos julgamento. Foi um aprendizado importante ao longo do caminho.

O erro faz parte do processo de renovação. Os projetos que não dão certo te levam para outro lugar da inovação. O que considero erros são mais questões subjetivas de como tratamos algo.

Sempre puxei muito pela inovação. Demorou para eu ter autoconfiança, precisei e maturidade profissional. E fazer de uma forma que não fosse arrogante, junto com as pessoas, não de forma separada.

Quais são suas dicas para quem deseja trabalhar com varejo eletrônico?

Patricia Amaro – É muito difícil falar de inovação quando todas as suas referências são antigas. Uma pessoa no começo de carreira, se não prestar atenção, vai parecer que os modelos são todos os modelos parecidos, mas há mais modelos de acolhimento e abertura.

O meu conselho é seja você mesmo. Ninguém tira o seu lugar, ninguém tem a composição de talentos que você tem. As pessoas erram profissionalmente quando começam a gerenciar gaps ao invés de talentos. Você não deveria colocar a sua energia em algo que não é bom, mas sim no seu talento para se destacar. E esse é um grande paradigma em gestão de carreira.

Busque oportunidades que dão espaço para isso, escolha os movimentos que vão reforçar seus talentos. Sempre falo que o objetivo não deve ser um cargo. O cargo é consequência.

Já sofreu preconceito no mercado empresarial por ser mulher?

Patricia Amaro – Não acho que perdi oportunidades profissionais por ser mulher, mas talvez o caminho fosse mais fácil se eu fosse homem e o ambiente estivesse mais aberto.

As relações nas empresas são baseadas na confiança, e os homens desenvolvem esses laços de confiança com mais facilidade. Desde muito novo, o homem se coloca nessa posição. Já a mulher, tem muitas questões de autoconfiança, de que não vai conseguir e maior preocupação com a entrega do que o homem.

Por isso, nós temos que construir lideranças inclusivas e mais flexíveis, como jornadas menores, por exemplo. Isso não deve ser empecilho de crescimento para nenhum profissional.

Você fez um curso na Universidade Alibaba. O que acha de projetos como este?

Patricia Amaro – São necessários. O Alibaba e a Amazon propõem novas dinâmicas de negócios, e o e-commerce para mim é uma nova dinâmica de como gerenciar o negócio. São outras formas para fora e para dentro das empresas.

Precisamos ter mais cursos, mais capacitação técnica para as empresas, pois ainda é muito segregado. Tem pouca gente na parte mais tradicional do negócio que entende o e-commerce.

O curso do Alibaba é interessante porque o case é incrível, e eles têm uma abordagem de ecossistema, de como abordar o consumidor, como otimizar todos os contatos que a pessoa tem nas redes sociais. É a vida do cliente permeada por tecnologia.

Como você vê o comércio eletrônico no futuro?

Patricia Amaro – Em supermercados e farmácias, por exemplo, precisamos destravar algumas coisas, pois temos um modelo ainda conservador em termos de testar novos modelos. A maior parte das vendas não será necessariamente pelo modelo tradicional, mas o e-commerce não vai substituir a loja física porque é multicanal.

Em algumas situações, o cliente vai receber o produto em casa ou no locker perto do trabalho. Daqui a uns cinco anos, a experiência de compra de categorias recorrentes de consumo será mais integrada, com mais pontos de retirada e compras pelo celular. Com isso, resolveremos muitas questões de logística, como o frete.

Leia também: Time campeão! Aprenda estratégias de jogo para se dar bem em marketplace

Por Dinalva Fernandes, da redação do E-Commerce Brasil

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