Redação E-Commerce Brasil

Imobiliárias online: consumidor já compra imóvel ‘às cegas’

Segunda-feira, 05 de julho de 2021   Tempo de leitura: 9 minutos

Mais de um ano de pandemia e de isolamento social quebraram muitos tabus dos brasileiros em relação ao comércio online. Se antes havia algum tipo de receio de comprar um item de vestuário e se frustrar — porque a roupa não caía bem, por exemplo —, hoje até imóvel é vendido digitalmente. Detalhe: sem que o comprador tenha visitado fisicamente o apartamento antes de bater o martelo.

A mudança no comportamento do consumidor é muito recente, mas significativa a ponto de chamar atenção até mesmo das imobiliárias virtuais. Levantamento feito pela Apê11, startup especializada na compra e venda de imóveis pela internet, mostra que 63% das propostas para aquisição recebidas em maio foram totalmente digitais, sem a interação humana. Destas, 12% viraram negócios fechados — e a metade sem que o comprador tivesse posto o pé no imóvel ao menos uma vez.

“O resultado foi uma surpresa: imóvel vendido pelo e-commerce como café em pó ou calça jeans”, compara o sócio-diretor da Apê11, Leonardo Azevedo. Esse comportamento de compra ganha relevância especialmente porque a casa é a aquisição mais importante para a maioria das pessoas. A empresa começou a funcionar em 2019 e sempre teve como meta digitalizar ao máximo a transação. “Mas éramos um pouco céticos de que a operação pudesse ser 100% digital”, admite.

As propostas 100% digitais começaram a aparecer em fevereiro deste ano e, na época, representavam 21% do total. Daí para frente, só cresceram.

A proposta é uma oferta firme, onde constam o valor, a forma de pagamento e a origem do dinheiro. O caminho normal das negociações digitais é, após o primeiro contato virtual por meio de fotos e vídeos, que o comprador inicie o diálogo com o corretor e visite fisicamente o imóvel antes de fechar a oferta.

Também o QuintoAndar, startup de locação e venda de imóveis, captou nos últimos meses o avanço do e-commerce de imóveis sem a visita presencial. Uma em cada quatro cidades onde a startup atua com vendas teve algum caso de negócio fechado sem visitação. A maioria foi na capital paulista.

Além do empurrão dado pelo isolamento social, Arthur Malcom, head de compra e venda do QuintoAndar, diz que a transparência de dados sobre os imóveis para locação disponíveis na sua plataforma abriu caminho para negócios de compra e venda totalmente digitais.

“O cliente que compra para investir quer muito menos visitar o apartamento e muito mais entender o potencial de retorno do negócio”, diz o executivo.

Leia também: QuintoAndar recebe aporte de US$ 300 milhões e vai estrear no México

Perfis

Apesar de este tipo de compra ser mais viável para investidores, focados na renda de aluguel e na valorização do próprio ativo, há também outros perfis de compradores que buscam esse tipo de transação.

Azevedo cita o comprador que procura uma moradia e teve alguma relação de proximidade com o imóvel, como um parente que morou no condomínio. Há aqueles que passam na frente de um prédio em construção, sem o estande de vendas, e compram pela localização.

Imobiliárias digitais não revelam números absolutos de transações sem visita física, mas indicadores dão pistas do perfil dos interessados. No primeiro semestre, 74% dessas transações da Apê11 foram para moradia e 26%, investimento. No QuintoAndar, dos imóveis negociados sem visita prévia, 92% envolveram apartamentos e estúdios/quitinetes.

Claudio Hermolin, vice-presidente de intermediação imobiliária do Secovi-SP, diz que não tem dados sobre esse novo tipo de venda. “É algo recente, não há um volume grande.” Mas essa forma de transação deve continuar no pós- pandemia, diz. A razão é que as pessoas acreditam cada vez mais na transparência de dados que veio com a tecnologia e na visita virtual.

‘Fechei a locação sem ter visitado o apartamento’

A boa experiência de alugar um apartamento só a partir de fotos — e o imóvel corresponder ao que foi anunciado – está dando confiança às pessoas para irem às compras de forma totalmente digital. O analista de sistemas Michel de Souza, de 32 anos, é um desses novos consumidores do e-commerce imobiliário. “O apartamento que moro é alugado. Fechei a locação sem ter visitado, e foi exatamente o que eu tinha visto no site.”

O aluguel do apartamento onde mora desde agosto de 2020 vai ficar inviável a partir do mês que vem por causa do reajuste na faixa de 20%, segundo reportagem do Estadão Conteúdo.

Para sair do aluguel, Souza começou a procurar pela internet apartamentos novos para comprar que seriam entregues neste ano. Encontrou um imóvel de 30 metros quadrados, na Lapa, que fica pronto em outubro.

Fez um tour virtual e entendeu a planta. “O máximo que eu fiz foi passar de carro depois das 10 (horas) da noite na frente do prédio”, conta. A intenção foi conhecer as ruas vizinhas, pois costuma sair nesse horário para passear com os cachorros.

Com base nessas informações, ele fez uma proposta virtual e fechou o negócio. Vai pagar R$ 236 mil pelo apartamento, financiado em 25 anos. Souza diz que não tem receio de encontrar algo diferente na hora de receber as chaves.

Da mesma geração de Souza, que é antenada em tecnologia, o supervisor de vendas Diego Andreolli da Silva, de 35 anos, casado e sem filhos, é adepto do e-commerce de imóveis.

De mudança de Brasília (DF) para São Paulo, ele alugou em fevereiro um apartamento sem nunca tê-lo visitado fisicamente. “Quando peguei a chave e fui abrir a porta, pensei: meu Deus do céu, o que eu vou encontrar? E estava exatamente conforme tinha visto no vídeo”, conta.

Quatro meses depois, ele decidiu comprar um imóvel. “A experiência do aluguel me fez acreditar, a ponto de eu procurar outra casa virtualmente para comprar.” Depois de procurar, Silva não teve de ir muito longe. Acabou comprando o apartamento onde já mora. Agora, não terá de enfrentar o frio na barriga na hora de pegar as chaves.

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Fonte: Estadão Conteúdo, via UOL

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