Redação E-Commerce Brasil

‘Black Friday na China é irrelevante perto do Single’s Day’, diz CEO da CBIPA

Segunda-feira, 06 de novembro de 2017   Tempo de leitura: 4 minutos

Com uma receita de e-commerce B2C extraordinária de 956 bilhões de dólares americanos, a China viu explodir o acesso à internet por meio dos dispositivos móveis e está expandindo os negócios via cross border de forma significativa como alternativa ao mercado interno extremamente competitivo. No último ano (mais especificamente no dia 11.11), o gigante chinês Alibaba faturou $ 1 bilhão de dólares nos primeiros cinco minutos do Single’s Day, espécie de Black Friday chinesa. CEO da CBIPA e co-fundador da Marco Polo Venture Builder (Copy From China), In Hsieh tem acompanhado de perto este cenário transformador e conversou com o E-Commerce Brasil sobre o mercado chinês e sobre o Single’s Day. Confira:

ECB: Você acompanha de perto o desenvolvimento (rápido) do mercado chinês de e-commerce, que tem se diversificado e evoluído muito. Uma dessas tendências é o uso do mobile, que está cada vez mais voltado para compras, sendo que no Brasil ainda estamos quebrando algumas barreiras para chegar lá. Por que os chineses já quebraram essa barreira, na sua opinião?

In: A adoção da internet na China aconteceu basicamente por meio do celular e isso já se deu em grande escala. Assim como no Brasil, a maturidade e a popularização da internet não aconteceram via desktop. Nos EUA ainda predomina a internet no computador fixo ou no laptop.

Enquanto isso, no Brasil e na China (e também em outros países emergentes) essa adoção em massa da internet aconteceu via celular. Tivemos um salto de geração: as pessoas não usaram o desktop e foram direto para o celular. Isso aconteceu, na China muito por conta do pouco espaço físico: muita gente não tem computador fixo, mas também por conta da boa infraestrutura. Houve investimentos maciços em infraestrutura no país todo, desde investimentos na estrutura portuária, nas estradas, até as Telecom’s (as grandes operadoras investiram muito e ao mesmo tempo as principais fornecedoras de equipamento de Telecom também estão baseadas na China), por isso existe um baixo custo operacional e os serviços de Telecom de uma forma geral de dados são relativamente baratos lá.

Além do mobile existem outros fatores: o varejo chinês ainda não atingiu a maturidade que já existe no ocidente de forma geral, principalmente nos EUA ou mesmo no Brasil. Então as pessoas na China não são muito fieis a um determinado espaço físico (loja física), fazendo com que fosse mais fácil a adoção de um meio super conveniente. A mesma coisa acontece com o cartão de crédito, o plástico e os meios de pagamento físicos: as pessoas tiveram um baixo nível de aderência desses meios e foram direto para o pagamento via mobile.

A experiência do mobile commerce é muito atrelada à existência de serviços fáceis de pagamento, enquanto no computador ou no desktop a experiência é fácil colocar o cartão de crédito, no celular é menos browsing e mais fechamento de pedido em poucos cliques. Ter uma solução de pagamento fácil é vital numa experiência de mobile commerce.

ECB: Você acha que a alta competitividade no mercado interno da China pode ser uma boa razão para empreendedores chineses procurarem expandir seus negócios em países como o Brasil? Como está essa relação Brasil-China em termos de parcerias de negócios online e startups?

In: A competitividade, com certeza é um dos fatores fundamentais para a saída de empresas chinesas da China em busca de oportunidades internacionais, principalmente as médias empresas que, em alguns casos têm faturamento de bilhões, e acabam sendo maiores que as nossas empresas grandes.

Além de um grande estímulo do governo à saída e o próprio capital procurando novas oportunidades de negócio, há um estímulo de todo o ecossistema. O mercado local é altamente competitivo: nem nos EUA existe tanta competitividade. Na China existe uma abundância enorme de talentos, perfil empreendedor e competitivo.

Há uma analogia, uma brincadeira que diz que o chinês compete desde o momento que ele nasce pelo espaço na maternidade, pela atenção das mães, já que se trata de um país com 1,3 bilhão de pessoas. O nível é muito alto então você tem que ser muito bom, e por isso uma empresa média tende a ser muito boa fora do país.

Com relação às negociações bilaterais entre Brasil e China, em termos de tecnologia ainda está começando, no e-commerce já existe. O Aliexpress é um exemplo: tem a posição número 1 em volume de vendas no Brasil e mais dois ou três players relevantes também (médios) também têm presença marcante. Ao longo dos últimos 5 ou 10 anos a presença do e-commerce cross border chinês no Brasil é constante. Os próprios comércios locais querem se aproveitar disso: a Cnova e o MercadoLivre tiveram algumas iniciativas, ninguém com muito sucesso, principalmente por causa das dificuldades. Existe uma oportunidade gigantesca: as empresas chinesas vêm com vantagens competitivas muito grandes como talento, capital, tecnologia e produtos.

ECB: A China é um gigante no e-commerce, assim como a Amazon, que deixa muitos concorrentes brasileiros com medo de perderem espaço…

In: Aí entra um outro fator que é o seguinte: a existência e a adoção de venda de serviços online. Primeiro dos clubes de compra, depois em todos os outros serviços, através desses meios de pagamento, principalmente o Alipay e o Wechat que vendem uma série de serviços (O2O), fazendo funcionar uma espécie de espiral positiva ou círculo virtuoso. Serviço é um conceito muito forte na China: o e-commerce de produto físico não é muito frequente (com exceção do supermercados e dos heavy users), esse tipo de comércio não estimula muito o uso e a fidelidade à plataforma. Mas na China houve uma alta penetração dos serviços via celular que são de alta frequência, que é o caso dos serviços de táxi e delivery de comida no Brasil. Aí vale até uma pesquisa pra saber se quem usa serviços digitais também consome produtos físicos no e-commerce. Mas na China esse círculo virtuoso significa o aumento da frequência de compra dos produtos físicos pelo estímulo de serviços digitais e em certa medida também pelo uso do celular como meio de pagamento offline.

ECB: Por que você acredita que o Alibaba ainda não “desembarcou de vez” por aqui?

In: O Alibaba já chegou a entrar no Brasil em 2010 por meio de um modelo B2B terceiro. Mas o Aliexpress mudou um pouco a equipe por conta de resultados no Brasil, mas continua analisando as possibilidades. A visão é se expandir pelo braço de fintech (Europa e EUA) e a partir dessa base, eventualmente o e-commerce pode entrar. Dificilmente existirá uma expansão por meio do comércio eletrônico.

ECB: Você também tem ido à China nas últimas edições do Single’s Day. Gostaria que contasse um pouco sobre suas impressões da última edição, o que mais te impressionou.

In: Uma das coisas mais relevantes do Single’s Day, além do volume, que é brutal, e é uma comparação até injusta porque o mercado deles é muito maior, é a forma com que eles posicionam o evento não só como um dia de vendas, é um dia de atividade. Tem o festival de TV, tem várias atividades em paralelo. Eles engajam mais as pessoas com mais força que o nosso Black Friday que é basicamente feito de descontos, porque, para o varejista desconto é destruição de valor.

O Single’s Day tem essa conotação do desconto, mas é um dia de celebração e esse é um dos grandes diferenciais, além de agora ter se transformado em uma espécie de laboratório para novas tecnologias e inovações. No ano passado, o Alibaba lançou a compra por Realidade Aumentada em larga escala, replicando muitas lojas físicas no ambiente de VR e fazendo a distribuição de muitos óculos. Foi um momento de demonstrar a força das empresas. Então na China praticamente não existe Black Friday e se existe é praticamente irrelevante por conta de sua proximidade com o Single’s Day.

ECB: O que você acha do modelo marketplace brasileiro? Ele é igual ou muito diferente do modelo de marketplace chinês?

In: O Alibaba se posiciona e oferece toda a gama de serviços, mas existe uma diferença fundamental entre o modelo do Alibaba e o da Amazon, ou outros brasileiros: eles são pró-vendedores, pró-sellers. Se você entrar numa página de um vendedor do Alibaba você consegue ver que cada loja tem um HTML personalizado, próprio. Enquanto isso, se você entrar na página dos nossos marketplaces brasileiros e inclusive da Amazon, as páginas são padronizadas. E a Amazon é claramente pró-consumidor. O problema é que os nossos marketplaces estão no meio do caminho. Muitos nasceram como varejistas e estão migrando para o modelo de marketplaces e isso vai ser muito ruim no médio e longo prazo, porque eles não terão uma clareza em seus DNA’s, não vão saber como se posicionar, afinal quem eles vão privilegiar? Quando você tem um modelo puro de varejo (compra e venda) ou  puro de marketplace é mais fácil, que é o caso do Alibaba.

ECB: Na China a junção entre influenciadores, entretenimento e e-commerce tem funcionado bem em termos de conversão de vendas. Você acredita que aqui no Brasil podemos ter algo parecido nos próximos anos?

In: Sobre os influenciadores de entretenimento chineses ou na Ásia de forma em geral, mesmo os artistas têm um pouco mais de “consistência”, o que pode estar ligado ao background e formação artística que eles têm. Assim, mesmo os artistas e cantores médios conseguem ter uma qualidade técnica maior como artistas e profissionais, se comparado às nossas celebridades, ou mesmo uma média dos nossos cantores que são focados basicamente entretenimento e não necessariamente profissionais com boa reputação.

Na Ásia você percebe que os artistas se preparam, treinam e são profissionais de fato, e isso ajuda a ter credibilidade e ajuda a vender mais. Por outro lado você tem um mercado chinês de comunicação que é muito mais novo que o nosso. Então os nossos consumidores têm um pouco mais de resistência aos influenciadores, não só digitais, mas vamos pensar nos influenciadores-artistas de TV ou cantores que já eram usados na TV anteriormente para publicidade. Temos mais resistência porque sabemos que esse tipo de artista é pago por uma determinada marca. Nesse sentido o mercado brasileiro é mais maduro e tem mais resistência, já os chineses são mais recentes nesse mercado e aceitam um pouco melhor serem persuadidos pelos influenciadores.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=b2x38mViVZo

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