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  Redação E-Commerce Brasil

Resistir & existir: artesanato indígena ganha representatividade no e-commerce brasileiro

Quarta-feira, 22 de dezembro de 2021   Tempo de leitura: 10 minutos

E-commerce dá voz às comunidades indígenas brasileiras e ressignifica o trabalho de artistas ancestrais

A ideia da Tucum* nasceu a partir do primeiro contato de Amanda Santana com os povos indígenas. Em 2009, a sócia-fundadora e diretora criativa do negócio fez uma viagem para a Amazônia. Lá, visitou uma feira de troca de sementes, onde descobriu povos indígenas no Brasil. “Temos uma maneira errada na forma como vemos os índios. Achamos que são todos iguais, presos ao estereótipo do descobrimento do Brasil de 1500, o que não faz o menor sentido”.

Divulgação Tucum

O impacto que teve diante de tanta beleza, diversidade e riqueza a moveu para mais perto dessa realidade. Ela passou a comprar produtos das vendedoras indígenas e a revendê-los em seu atelier no Rio de Janeiro — à época, também trabalhava como maquiadora e cabeleireira no local.

Esse método de compra e revenda dos artesanatos durou aproximadamente dois anos. Amanda sabia que havia algo muito maior por trás daqueles produtos. “Eu sentia falta de uma constância e um equilíbrio naquele trabalho, pois havia uma estrutura, uma organização social que merecia um olhar amoroso que impactasse de forma positiva aquela cultura”.

Aproximadamente 97% da confecção daqueles artesanatos partem das mulheres, que ainda possuem outras tarefas no dia a dia. A ideia da empresária foi, de alguma forma, aumentar as rendas dos povos indígenas e, consequentemente, a propagação dessa cultura.

No início dos trabalhos, Amanda tinha dificuldades na interação. “Era algo totalmente novo para eles, mas, ao mostrar como o nosso trabalho funcionava e o propósito de tudo aquilo, conquistamos a atenção e a admiração. Trata-se de uma diversidade de mundos, da cosmologia, de visão de resistência… Nós, como não-indígenas, temos uma visão ora romântica, ora preconceituosa, pejorativa.

São 520 anos de luta para eles coexistirem com a gente. Há uma infinidade de terras invadidas por madeireiros, disputa de território com o agronegócio e toda uma destruição impensável de rios e florestas causada pelo garimpo ilegal. Na terra indídena yanomami, por exemplo, estima-se que haja mais de 20 mil garimpeiros explorando de forma ilegal as riquezas minerais da floresta. E o pior: tudo com o aval da União e do Estado. O lastro de destruição que está sendo causado é incalculável e, certamente, irrecuperável”, lamenta.

A primeira loja Tucum

Em 2011, ainda mais engajada em levar a representatividade aos povos indígenas, Amanda começou a aprofundar o seu estudo de mercado. Nessa fase, também criou um pequeno estoque, uma espécie de “poupança de artesanatos”, até que abriu sua primeira loja física em Santa Teresa, bairro histórico do Rio de Janeiro.

“Eu trabalhava na loja, mas já pensava em um e-commerce de artes indígenas, pois passava a vida conectada nas redes sociais e via um potencial ali”, disse. Em 2015, ela tirou a ideia do digital do papel e finalmente inaugurou uma loja online. “Foi muito difícil conciliar o site. Eu tinha aquela visão romântica de que com a plataforma pronta era apenas subir os produtos e vender, mas o e-commerce é muito além disso”. Como o negócio físico dava muito mais retorno financeiro, Amanda passou a utilizar a loja online mais como uma vitrine, sem trabalhar estratégias de marketing e posicionamento digital.

Familiarizada com as redes sociais, ela aproveitou ferramentas como Instagram e Facebook para fazer o trabalho de comunicação da Tucum. Informações das peças, histórias sobre os protagonistas dos artesanatos, a luta dos povos indígenas, fortalecimento da cultura… uma rica produção de conteúdos sobre os produtos (e todo o enredo por trás) chegava ao conhecimento dos seguidores da empresa.

Um olhar diferente e…o e-commerce deu certo!

Em 2018 finalmente o e-commerce ganhava mais corpo, apesar de “patinar” com vendas abaixo do esperado. “Passei três anos com a loja virtual vendendo aquém das expectativas, até entender que eu precisava de um olhar diferente para ela”. Foi a partir disso que Amanda passou a estudar e a compreender as engrenagens do universo online – e, hoje, o e-commerce da Tucum já se tornou uma referência dentro do nicho. “Nossa principal divulgação vem a partir do Instagram, e-mail marketing e Google Ads”, conta.

Outro meio de aumentar a disseminação dos produtos, segundo Amanda, é pelo Mercado Livre. Na parceria com o marketplace, os produtos da Tucum são apresentados na seção de Produtos Sustentáveis. “Já trabalhamos com a Westwing e outras parcerias a fim de conquistar novos clientes dentro desse nicho, que é bem exclusivo. Sabemos que muitas pessoas podem se sentir atraídas por esse artesanato e, consequentemente, expandir nossa área de fornecimento”. .

Com o advento do e-commerce, os produtos confeccionados na Floresta Amazônica já viajaram para países como Alemanha, Estados Unidos e Japão. Os consumidores europeus são os que melhor avaliam os produtos indígenas. “Eles definitivamente amam essa cultura e prezam pela beleza e diversidade dos materiais naturais”, afirma. Para profissionalizar o mercado, a Tucum promoveu recentemente um curso online de capacitação a gestores e comunicadores das organizações indígenas.

“Eles já sabem a importância que existe na comunicação dos artesanatos e o impacto socioambiental proporcionado às vidas dos povos indígenas por meio desse comércio. Por isso nos empenhamos a fim de contribuir para o protagonismo dos empreendimentos indígenas”, conta Amanda.

Logística

Para a empresária, a logística sem dúvidas é um dos maiores desafios dentro desse ecossistema. Afinal, são produtos confeccionados dentro das florestas (literalmente), que precisam chegar às cidades para, finalmente, serem despachados aos compradores. Muitas vezes, os artesanatos saem de barco, carro, moto e até a pé para chegar ao destino final.

“São mais de 30 comunidades indígenas participando diretamente do projeto da Tucum. Há produtos que saem de São Gabriel, às margens do Rio Negro (interior do Amazonas) até uma transportadora que os pegam em Manaus. Eles têm um custo maior por conta de todo esse percurso, mas um valor inestimável por saírem de dentro da Floresta Amazônica”.

Por conta da complexidade logística, um dos próximos passos da Tucum é lançar na plataforma um trabalho sobre “precificação transparente”. Nessa seção, haverá um descritivo de todas as etapas da entrega, acompanhadas dos custos, para deixar o cliente ciente de cada valor cobrado pelos produtos. “Algumas vezes, o frete chega a 25% do valor do produto, o que é demasiadamente alto e o cliente tem de estar a par”, afirma Amanda.

Apesar de todos os desafios, ela garante que o fruto colhido sempre vale muito a pena. “Nosso propósito é o de promover a valorização dos povos indígenas e de toda essa cultura por trás deles. Além disso, queremos promover a autoestima dessas comunidades, que passam a ser vistas pela sociedade brasileira como um povo de valor, altamente capaz e incluído num meio digital”.

O sonho de um marketplace indígena

Um dos projetos que estão entre os planos de Amanda é a consolidação do primeiro marketplace de produtos indígenas do Brasil (talvez no mundo). “Acreditamos que isso fortalecerá o empreendedorismo indígena e os colocará em um patamar de competitividade. É preciso mostrar à nossa sociedade que existem indígenas produzindo e preservando a nossa natureza, gerando incontáveis riquezas para toda a humanidade por meio da sua arte e da sua cultura”.

Além da plataforma de vendas, a Tucum espera se tornar um ambiente de comunicação. “Vamos trazer os povos indígenas mais para perto de nós, seja na fotografia ou nos vídeos, incentivando-os a mostrar para o mundo o tamanho da potência que eles têm”. Outro ponto em vias de definição é o campo de atuação da empresa no segmento – se vale entrar de cabeça no atacado ou criar um centro de distribuição na Europa, por exemplo.

*A título de curiosidade: Tucum é uma pequena palmeira espinhosa (Bactris setosa), cujas folhas fornecem uma fibra comprida e forte, semelhante à lã, empregada para fazer tecido grosseiro para sacos, redes, linha de pesca etc.

Por Giuliano Gonçalves, da Redação do E-Commerce Brasil

*Coloquei assim no fim da notícia: Este texto foi retirado da Edição 62 da Revista E-Commerce Brasil, publicada em abril de 2021

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