Acesso rápido

Vamos parar de brincar de e-commerce

por Ricardo Cabianca Quinta-feira, 07 de agosto de 2014

Quando fui convidado para fazer um artigo para esta revista, imaginei buscar um assunto que pudesse levar a algum raciocínio sobre o cenário do varejo eletrônico atual, e a primeira frase que me veio à mente foi a que coloquei no título.

É claro que aqui você não verá nenhuma verdade absoluta, apenas uma visão de um profissional com 46 anos de idade que trabalha desde os 16, empreende em negócios online e e-commerce desde o século passado e que está à frente de uma operação de comércio eletrônico no segmento de perfumes e cosméticos importados, sendo uma das top 5 desse nicho.

O primeiro ponto que queria trazer é que a conta fecha sim para o comércio eletronico, mas não é para todo mundo. Como qualquer negócio, uma loja virtual precisa de tempo para encontrar o melhor processo de sua operação, e não basta essa loja fazer parte de um grande grupo de varejo para já vir pronta para o sucesso, simplesmente porque não existe um modelo pasteurizado de negócio para o varejo virtual e principalmente porque – de novo como qualquer negócio – ela precisa de pessoas certas, treinadas e motivadas.

Ainda em se tratando da conta final, ela não fecha, mesmo quando se trata de lojas online que estão com fundos de investimentos por trás, com o único objetivo de ganhar share de mercado e tentar serem vendidas para um grande grupo em um curto espaço de tempo. Mas a brincadeira que estamos vendo, de empreender em uma loja virtual, a meu ver, vai acabar provocando um problema sério nesse mercado. Siga o meu raciocínio para ver se faz algum sentido.

Uma das principais características de um comércio eletrônico é a velocidade, inerente ao próprio meio da Internet, que dependendo do prisma serve para o bem ou para o lado negro da força.

Para o bem, posso citar a capacidade que as lojas virtuais têm de avaliar uma estratégia e uma ação tática em pouco tempo, tendo a capacidade e a flexibilidade de corrigir erros e acertar melhor. Para o mal, a principal característica que vejo que essa velocidade provoca é a ansiedade do empreendedor que acabou de entrar no varejo virtual – ou está se preparando para tal – em ver resultados, mas não é culpa dele.

Provavelmente esse empreendedor ouviu ou leu sobre a mentira de que uma operação de e-commerce é mais barata do que um negócio do varejo físico. Além disso, ele seguiu a seguinte receita: contratar uma plataforma com mensalidade “de acordo com o seu tamanho”, depois encontrar um gateway que “faz tudo”, uma agência especializada em investimento em buscadores e comparadores que promete “sucesso absoluto”, fazer contrato com operador logístico e de entrega “especializados” e, por fim, mas não menos importante, contratar um gerente de e-commerce formado em um curso de uma semana. Com tudo isso, ele – o empreendedor – sente-se confortável em sonhar alto, até porque para todo o lado lê-se sobre o crescimento anual acima de 20% do varejo eletrônico, frente aos módicos 2% do varejo conhecido como tradicional.

Somamos a isso à enxurrada de propostas de facilidades que ele escuta das centenas de empresas fornecedoras de produtos e serviços para o e-commerce, todas prometendo e apresentando resultados positivos de vendas para seus clientes.

E, ainda, o nosso empreendedor vê novas lojas sendo lançadas a toda hora, vai visitar alguma delas e vê uma pequena sala com meia dúzia de jovens nerds e cheios de energia com seus MacBooks brilhando, falando de números altos e conceitos modernos, quase uma física quântica futurista.

Para completar, ele conversa com outros empreendedores e descobre que um tal fundo de investimento aportou centenas de milhares de dólares para uma loja não se preocupar com nada, conquistar clientes e faturar.

Conclusão: ele fica ansioso por abrir seu negócio de comércio eletrônico, entende que precisa correr contra o tempo para recuperar o que deixou de ganhar durante todo esse tempo em que esteve fora desse segmento, e “larga o dedo” no investimento. E voltamos para o parágrafo que começa com “Provavelmente esse empreendedor…”.

Resultado: a cada dia, novas operações de lojas virtuais entram no ar e tudo fica mais caro no comércio eletrônico. A primeira percepção é o custo crescente de mídia, principalmente do CPC, porque a maioria das agências não tem foco no resultado de vendas de seu cliente, e sim no resultado de visitas e pageviews, e dessa forma inflaciona os valores do clique.

Outro ponto que segue inflacionando é o salário dos profissionais. A quantidade de cursos que promete transformar os profissionais em gerentes de e-commerce cresce de forma proporcional com a procura, e as empresas contratam os “formados” a peso de ouro (afinal, eles informam no CV que são gerentes de e-commerce) e apostam todas as fichas que eles trarão resultado, e o que se vê é aumento de custo.

E a ansiedade cresce, porque os varejistas só conseguem ver a cor vermelha na última linha da planilha de custos de sua empresa de varejo virtual, ou seja, prejuízo. Lembre que essa empresa é daquele empreendedor ansioso por fazer resultado…

Espero que eu esteja completamente errado, mas a sensação que tenho é que estamos efetivamente inflando uma bolha. Certamente estamos muito mais maduros em relação à época da bolha das “pontocom” e provavelmente não haverá uma quebradeira geral como a daquele tempo. Mas vejo que provavelmente haverá uma mudança radical, quando todas as lojas que estão acostumadas a crescer o faturamento sem lucro, além daquelas do empreendedor ansioso que quer ver resultado positivo a curto prazo e só enxerga prejuízo, terem que de uma hora para outra cortar custos para começarem a ver a cor verde na última linha do DRE.

Mas calma… ainda dá tempo.

Em primeiro lugar, refaça (ou faça) sua planilha de planejamento, avaliando todos os pontos – literalmente todos – de custos e investimentos de sua operação online. Se possível, contrate um bom consultor financeiro com foco no varejo para te dar condições de enxergar melhor seus números.

Reveja as margens de seu negócio, quais produtos possuem melhor margem de contribuição, quais categorias precisam de maior atenção para girar o estoque, qual o melhor ticket médio para oferecer o frete grátis, avalie os resultados por cada canal de tráfego, ou seja, estude os números de sua loja. Em vez de contratar um “gerente de ecommerce sabe tudo”, invista na formação e no plano de carreira de sua equipe, se possível oferecendo benefícios pelo crescimento de sua empresa. Se está em uma operação com investidor por trás, espero que ele seja bem legal contigo… E, por último, defina se sua empresa foi feita para durar, olhe para os seus funcionários e perceba se está sendo justo com eles e, principalmente, olhe para o mundo e pense se vai deixar algum legado.

É óbvio, como disse lá no início, que isto aqui não é nenhuma verdade absoluta. Pode até entender como um desabafo, pois tudo que relatei aqui tenho visto e ouvido nas conversas com empresários e gestores de e-commerce. Mas o objetivo deste texto é alertar a todos que uma operação de comércio eletrônico não é brincadeira de startup. Uma loja virtual, como qualquer negócio, precisa ser gerida por pessoas sérias e com um mínimo de bom senso, pois a responsabilidade é alta.

Na operação que dirijo, são 50 profissionais (e suas famílias) dependentes do resultado positivo, por isso não posso brincar de errar. E graças a Deus somos uma operação sem fundo de investidor e lucrativa. Aliás, esse é o nosso primeiro item da lista de valores, ou seja, sermos lucrativos.

Portanto, vamos parar de brincar de e-commerce.

***

Artigo publicado originalmente na Revista E-Commerce Brasil: http://www.ecommercebrasil.com.br/revista/?edition_id=22&folhear=true

Você recomendaria esse artigo para um amigo?

Nunca

 

Com certeza

 

Deixe seu comentário

11 comentários

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentando como Anônimo

  1. Obrigado Ricardo pelo post, ele caiu como uma luva, em um momento crucial para meu e-commerce, preciso pivotar, repensar e planejar novamente nossas táticas. Crescer rápido a esse custo não dá mesmo.

    Responder
  2. Meus parabéns!!

    Tenho 22 anos e estou em meio à um planejamento de E-commerce. Estou planejando ao máximo, e tentando aprender tudo que posso. Sua visão é um reflexo real do mercado, e infelizmente a brincadeira de uns tem contagiado alguns e inflado o mercado, atrapalhando quem é serio e planeja, bem como àqueles que já estão no mercado como você. Eu não sei se terei sucesso na minha empreitada, mas sei que começando pelo planejamento e estudo, estou no caminho certo, e ler o seu texto me motivou a continuar. Obrigado!

    Responder
  3. Muito bom Cabianca! Já assisti algumas palestras suas que realmente contribuíram para a lucratividade da nossa operação. Hoje sei que é possível ter resultado azul na última linha do DRE e continuar crescendo com tranquilidade. A sugestão que sempre dou para quem me pede algo é que não é preciso ficar se comparando com Dafitis, Moblys, Netshoes, etc. Só entro nesses sites para ver questões de layout e funcionalidades e de vez em quando comprar algo que sei que eles não terão lucro algum, e se tiver que usar a logística reversa então, nem se fala, estão pagando para vender. Abraço. Diogo Anderle Moraes | Biopoint.com.br

    Responder
  4. Quem tem um e-commerce de verdade – não uma “loja virtual” que custou “bem baratinho” ou foi até de graça – sabe que o maior desafio é ter resultado positivo real e isto não vem da noite para o dia, meses, anos e muito esforço é necessário e no meio do caminho haverá erros, acertos, mudanças, revisões e até reflexão se vale à pena, pois nada – absolutamente nada – é fácil, ainda mais quando para tudo há muita concorrência e custos que não param de crescer! Hoje o maior desafio é ter ferramentas e parceiros estratégicos que sejam efetivamente confiáveis; a avalanche de empresas que oferecem serviços das mais variadas opções é absurda, mas a grande maioria não entrega o que promete; é muita promessa para pouco resultado, porém estas já receberam pelo serviço e basta uma pessoa fazer um cursinho de uma semana ou ter sido auxiliar de alguém do segmento para já se achar “o” profissional do ramo, mas como muitos estão ansiosos por resultados em curto espaço de tempo – cegos de desejo ou enganados – compram estes serviços e depois virá a frustração. Fretes grátis (um câncer do e-commerce) com devolução garantida sem custos, mais longo prazo de parcelamento aliado desinformação e falta de conhecimento de custos e despesas sangram empresas até a morte, ainda que muitos iludidos com números de vendas sem conferir e checar resultados vão empurrando com a barriga, mas na verdade só estão fazendo as consequências serem maiores e mais devastadoras, não raro acabando com patrimônio pessoal e com a saúde. Ler artigos de mega-hiper-super lojas e seus
    estratosféricos números mais ilude e engana do que ajuda, pois sabemos e vemos a todo momento sendo noticiado que a conta não fecha, como se a essência do negócio não fosse mais ter lucro, então sugiro que não se preocupem em buscar números tendo como espelho estas (erradas) referências, mas sim olhar com atenção e responsabilidade seu negócio de modo que tenha certeza que no fim dos seus esforços verá o que lhe motivou e lhe incentivou a montar; o lucro! Não tenha medo de tentar fazer algo diferente e JAMAIS deixe de dar atenção e respostas honestas se tiver algum tipo de problema, seja ele de qualquer natureza! Mesmo com as idéias nas nuvens tenha os pés no chão e forme um equipe responsável, afinal não há como fazer nada sozinho!

    Responder
  5. Olha, isso pra mim já se transformou numa bolha pronta pra explodir! A sensação que tenho é a de que a cada dia nascem umas 200 lojas virtuais no Brasil. Os custos estão ficando elevados demais para se manter um negócio de sucesso na web. Entretanto, fico muito feliz que hoje é possível uma pessoa com renda média vencer no ecommerce no Brasil! Foi-se o tempo em que só os milionários riquíssimos podiam se aventurar neste tipo de empreendimento. E, sim, eu torço para que a criatividade e dedicação ao estudo do ramo supere as incertezas e dificuldades econômicas.

    Responder
  6. Falou quem sabe do assunto! Parabéns, Ricardo.
    Esta foi a melhor parte:
    “meia dúzia de jovens nerds e cheios de energia com seus MacBooks brilhando, falando de números altos e conceitos modernos, quase uma física quântica futurista.”
    Nada como o compartilhamento de experiências para ajudar quem ainda pouco sabe e muito espera

    Abraços

    Flávio Maciel

    Responder

O projeto E-Commerce Brasil é mantido pelas empresas:

Oferecimento:
Hospedado por: Dialhost Transmissão de Webinars: Recrutamento & Seleção: Dialhost Métricas & Analytics: MetricasBoss

  Assine nossa Newsletter

Fique por dentro de todas as novidades, eventos, cursos, conteúdos exclusivos e muito mais.

Obrigado!

Você está inscrito em nossa Newsletter. Enviaremos, periodicamente, novidades e conteúdos relevantes para o seu negócio.

Não se preocupe, também detestamos spam.