A revolução dos pagamentos e a nova relação com o dinheiro

por Daniel Bergman Terça-feira, 11 de fevereiro de 2020   Tempo de leitura: 6 minutos

O boom das fintechs chegou ao Brasil e segue por aqui em seu auge. De acordo com o último levantamento do Radar FintechLab, houve um aumento de 33% no número dessas instituições entre agosto de 2018 e junho de 2019. A adesão a esses serviços foi grande, em parte por fornecerem benefícios e facilidades para atividades do dia a dia, mas também em virtude do grande número de desbancarizados no país — 45 milhões de pessoas, de acordo com o Instituto Locomotiva.

A maior oferta de serviços financeiros culminou na redução de market share dos bancos tradicionais, que passaram a buscar formas de se digitalizar para não perder clientes. O aumento do mercado de terminais POS (as famosas maquininhas de cartão), também levou a uma grande pulverização desse serviço, e pequenos empreendedores passaram a aceitar essa forma de pagamento.

Em diferentes partes do mundo, essa tecnologia tem se adaptado para atender as necessidades locais. Na China, por exemplo, referência em carteiras digitais e pagamentos instantâneos, o crescimento intenso ocorreu também porque lá os cartões de crédito não eram tão populares quanto aqui. Esse fator, aliado ao alto grau de desenvolvimento tecnológico do país e investimento em inteligência artificial, permitiu que eles saíssem na frente.

Dinheiro em papel?

O dinheiro de papel já é raridade no país asiático e o avanço foi tão rápido que até o QR Code já começa a ser uma tecnologia mais antiga por lá. Agora, as tecnologias de pagamento por reconhecimento facial começam a despontar. O Alipay, por exemplo, empresa do Grupo Alibaba, já implantou dispositivos para permitir esse tipo de transação em mais de cem cidades no país.

Os gigantes Alibaba e Tencent correspondem a 90% dos US$ 17 trilhões do mercado local de pagamentos móveis, de acordo com a consultoria CGAP. O número de usuários de pagamentos móveis está estimado de 577 milhões em 2019, com aumento previsto para 700 milhões em 2022.

Já na Índia, um case muito interessante é o da Paytm, empresa que iniciou as operações com oferta de recargas de celular e cresceu fornecendo serviços financeiros a pessoas desbancarizadas, se tornando a startup mais valorizada do país.

Na Suécia, onde a realidade é bastante diferente e não havia um problema de acesso a serviços bancários, o Banco Central fomentou a criação de uma interface de transferências e pagamentos, para facilitar as movimentações entre instituições financeiras e reduzir taxas. Com isso, as novas tecnologias levaram o dinheiro de papel a praticamente desaparecer por lá.

Unificação padrão

O fato é que essa tecnologia caminha a passos largos, mas de formas diferentes ao redor do mundo, se adaptando para resolver as dores locais, encontrando desafios e oportunidades únicas por onde passa.

Assim ocorre também no Brasil, onde o QR Code tem sido amplamente utilizado em restaurantes e bancas de jornal, além de estar sendo testado em estações de trens e metrôs, e o Banco Central estuda a unificação do padrão que será utilizado pelas diversas empresas que promovem pagamentos instantâneos no país, visando facilitar a vida do consumidor.

A intensa concorrência colabora para a educação do consumidor em relação ao uso da tecnologia e a criação do hábito. Ainda temos muito a fazer, tanto em inclusão quanto em termos de melhoria de serviços e facilitação do dia a dia.

É provável que o dinheiro de papel não desapareça por aqui — ao menos não tão cedo — como ocorreu em outros países, mas grandes mudanças podem sim ser esperadas. De acordo com o Global Payments Report 2017 da Worldpay, o uso de aplicativos de pagamentos no Brasil deve passar dos 15% atuais para 31% em 2021.

Nesse mercado, não é mais o grande player que deixa o pequeno para trás, mas o mais rápido e inovador que provoca grandes transformações que reverberam na sociedade e, pouco a pouco, mudam a forma de consumir e transacionar como conhecemos hoje.

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