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Pagamentos: o que podemos aprender sobre dinheiro com a China?

por Jean Christian Mies Quinta-feira, 20 de setembro de 2018   Tempo de leitura: 8 minutos

Quem se lembra da China apenas como uma exportadora de produtos de baixo custo (do famoso “Made in China”), ainda não conhece a nova China. Hoje, o país vive o status de grande potência de comércio exterior, com multinacionais de tecnologia, automóveis e petrolíferas, entre outras, se desenvolvendo por todo o território e ganhando mais espaço no cenário internacional. O resultado é que o país praticamente quadruplicou o seu PIB em 10 anos e, em 2017, segue estável como a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA.

Associado ao crescimento econômico chinês está o aumento do acesso à tecnologia pela população, que este ano deve ganhar o título de maior mercado consumidor da história, segundo a S&P Global Market. O número de chineses conectados à internet saltou de 10% da população em 2006 para 53% em 2016 – o que representa mais de 734 milhões de pessoas online.

Essa combinação de boom econômico com maiores índices de acesso à internet e tecnologia resultou em um rápido crescimento no comércio eletrônico. Dados demonstram que, até 2020, o e-commerce deve movimentar mais de 1,7 trilhões de dólares no país. Ocasiões como o Ano Novo Chinês e o Dia dos Solteiros são especialmente bem-sucedidos para o varejo, este último movimentando 175 mil pedidos por segundo. Esse novo perfil de poder de compra e conectividade também mudou a forma como os chineses lidam com o conceito de dinheiro.

Para entender a relação atual dos chineses com o dinheiro, é preciso entender a história econômica do país. A China se tornou comunista em 1949 e por décadas manteve sua economia fechada, com exceção de regiões administrativas especiais com grande autonomia, como Hong Kong e Macau. A abertura de capital estrangeiro e comércio exterior veio a partir de 1978 com algumas privatizações e investimentos em ciência e tecnologia. No entanto, o crescimento econômico só ganhou força a partir da década de 2000, quando o país foi incluído na Organização Mundial do Comércio e adotou o modelo de socialismo de mercado.

Isso significa que a população chinesa começou a ter um poder de compra maior ao mesmo tempo em que aprendia a se conectar à internet. Somada às dificuldades regulatórias do setor financeiro do país devido ao modelo político-econômico, essa realidade fez com que os chineses “pulassem” os cartões de débito e crédito. A evolução comum em países ocidentais — de dinheiro físico para cartões e, mais recentemente, dinheiro digital — não aconteceu na China. A população em geral, especialmente com a mudança geracional, passou de guardar notas de yuan em casa a pagar comerciantes com QR Codes e transferir dinheiro virtual por smartphones.

Carteiras Digitais prosperam na China

Essa dinâmica tornou a China um país muito singular na forma como lida com dinheiro.

O estudo Global Payment Methods aponta que 70% da população chinesa economicamente ativa recorre às carteiras digitais como principal meio de pagamento. As duas maiores ewallets do país, WeChat e Alipay, movimentaram cerca de 3 trilhões de dólares em transações em 2016. Segundo a Forrester, os pagamentos móveis totais nos Estados Unidos movimentaram 112 bilhões de dólares no mesmo período — 4% do montante chinês.

Atualmente, as carteiras digitais estão em todos os lugares nas principais cidades. Não só no comércio digital, mas também no varejo e nos serviços presenciais. Inclusive nos pequenos comércios, como barracas de comida de rua e feirantes; em máquinas automatizadas, como as de aluguel de bicicletas; e em funções de atendimento ao consumidor, como garçons que vestem QR codes em seus uniformes para receberem gorjetas. Até mesmo os pais passaram a dar mesada para filhos em suas contas no Alipay ou no WeChat.

Isso reverbera também fora do país. A China está entre os países que mais enviaram turistas para fora em 2017 — foram 120 milhões de chineses visitando outros países — e eles querem pagar do jeito que estão acostumados. Entre o primeiro trimestre de 2017 e o primeiro trimestre de 2018, houve um aumento de 62% no número de empresas que aceitam carteiras digitais chinesas fora da China. Negócios que investem em processadoras de pagamentos integradas às ewallets Alipay e WeChat, por exemplo, estão quebrando a barreira internacional e liderando na disputa pelo turista chinês — que não gasta pouco. De acordo com a Organização Mundial do Turismo, os chineses foram os que mais gastaram em viagens no ano passado, somando 258 bilhões de dólares.

China será o primeiro país a banir o dinheiro físico?

A realidade chinesa simboliza bem o momento que estamos vivendo enquanto sociedade, no que diz respeito à nossa relação com o dinheiro. Estamos na era da experiência do usuário, e os consumidores se tornam mais exigentes por praticidade e por segurança, exigindo constantes sofisticações e evoluções tecnológicas por parte das empresas, que precisam se adiantar para prever o caminho do desenvolvimento.

O consumidor está conduzindo o futuro dos pagamentos, e não o contrário. As marcas estão mudando seus negócios para atender melhor os desejos do consumidor. E atender a essas demandas significa estar presente nos meios em que eles preferem pagar.

No Brasil, por exemplo, os métodos de pagamento preferidos ainda são os cartões de crédito e boleto. Apesar de caminharem a passos curtos, as carteiras digitais ganham mais usuários por aqui ano a ano, especialmente com a chegada das carteiras Google Pay, Apple Pay e Samsung Pay nos últimos anos, em parceria com a Adyen.

Mas essa tendência de digitalização do dinheiro, que a China lidera, significa necessariamente o fim da impressão de cédulas? A resposta de analistas é que o dinheiro físico continuará a existir, principalmente para atender populações carentes sem acesso a contas bancárias e dispositivos tecnológicos, mas em quantidades muito menores. A consultoria Euromonitor projeta que 725 bilhões de dólares deixem de ser movimentados via dinheiro impresso no mundo até 2022.

No Brasil, 2017 foi o ano de virada. O número de transações por cartão teve um aumento de 5,5% contra 4% de alta nas transações em dinheiro. Além do gigante asiático, países como a Holanda já tem mais transações por cartões ou dispositivos móveis do que por dinheiro desde 2015. Em junho de 2018, apenas 41,4% das transações foram em cédulas. Além disso, 40% dos pagamentos com cartão de débito foram não-presenciais, por meio de carteiras digitais.

Portanto, a principal lição que podemos aprender com o cenário financeiro chinês é que, para os consumidores, são eles que ditam as novas formas de pagar pela adaptação aos avanços tecnológicos. Para o e-commerce, o desafio será a eficiência com que conseguem prever essas necessidades e adotar rapidamente as tecnologias mais avançadas de pagamentos, que incluam insights de dados de toda a cadeia de pagamentos em escala global e serviços desenvolvidos para as características das transações de cada mercado, sejam elas em papel, plástico ou digitais.

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