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O mercado de maquininhas nunca mais será o mesmo

por Marcos Gouvêa de Souza Quinta-feira, 25 de abril de 2019   Tempo de leitura: 5 minutos

Às vésperas da Páscoa, a Rede colocou o ovo em pé. Com seu movimento de isenção de taxa na antecipação de recebíveis do crédito à vista a partir de maio, a empresa, ligada ao Itaú-Unibanco, alterou as condições que envolvem as transações com cartões de crédito no varejo e nos serviços, e tomou a iniciativa de alterar de forma profunda — e irreversível — o negócio das credenciadoras.

Até alguns anos atrás, esse era um negócio de poucos jogadores, muito concentrado e de resultados impressionantes. Era medido pela rentabilidade do negócio e pelo retorno sobre ativos, além de ser dominado pelos maiores conglomerados financeiros do país.

Por conta da concentração, menor competição, das condições no Brasil para remuneração dos serviços e das taxas praticadas, mais regras de desconto eram totalmente desalinhadas com a prática internacional. Ainda que o mercado brasileiro tenha características muito particulares, envolvendo, entre outras coisas, os “planos sem acréscimo”, era uma questão de tempo para esse desalinhamento começar a acabar.

De um lado pela pressão dos clientes, do varejo de forma geral, dos prestadores de serviços e de todos aqueles que usam cartões para receber pagamentos. De outro, pela alta rentabilidade do passado que atraiu muitos mais players para esse jogo e o tornou mais competitivo.

A disputa binária Rede-Cielo do passado se multiplicou com a participação de vários outros players como GetNet, SafraPay, PagSeguro, Stone e outras. Isso precipitou uma reconfiguração do mercado, diluindo participação e tornando-o mais competitivo, ainda que desalinhado com as práticas internacionais.

O inesperado e estratégico movimento da Rede balançou o setor como um todo, suscitando ações que foram da resposta de mercado do SafraPay à contestação da Stone, além da análise do Cade, através de um “procedimento preparatório de inquérito administrativo”.

Importante lembrar que a ação da Rede, ainda que com restrições na sua abrangência, dá seguimento a um processo que era irreversível de aumento da competitividade no setor. Além disso, gera benefícios para os varejistas e empresas de serviços que se enquadrem nas condições. Em última análise, o próprio consumidor, que indiretamente pagava parte da conta da concentração e das taxas praticadas, já que tudo isso tinha que ser embutido no preço dos produtos e serviços.

Um mercado em profunda transformação

A atratividade do setor pode ser medida na movimentação financeira envolvida.

Em outubro do ano passado, o IPO da Stone captou US$ 1,5 bi na Nasdaq e atraiu o próprio Alibaba para participar. Em janeiro, a PagSeguro havia captado US$ 2,27 bi, que foi considerado a quarta maior captação da história na área de tecnologia depois de Facebook, Alibaba e Snapchat.

Outro movimento importante foi o investimento em março deste ano de US$ 750 milhões da PayPal no Mercado Livre. A plataforma, que atua no e-commerce, quer expandir sua participação no mercado se posicionando com empresa de soluções financeiras e de pagamento com o Mercado Pago.

Sem dúvida, é um setor atraente e em profunda transformação, já que a ascensão e participação dos pagamentos móveis, por meio do celular, vai trazer disrupção em larga escala, se considerarmos o que já acontece na China, onde essa modalidade atingiu mais de US$ 13 trilhões no ano passado.

Ainda que quaisquer comparações diretas com o mercado chinês devam ser cautelosas e precisem considerar as particularidades do país, a eMarketer estima que, em 2021, perto de 80% dos pagamentos por lá serão feitos por celular.

Em nossa realidade, o movimento envolvendo o crescimento dos pagamentos móveis e a maior concorrência no setor de pagamentos via cartões, que reconfigura positivamente o cenário, reduzindo custos operacionais e transacionais, nos aproxima das práticas internacionais e, em última análise, torna o mercado mais competitivo, saudável e desenvolvido em benefício dos negócios e dos consumidores.

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