Acesso rápido

Antes de falarmos sobre uma nova data para a Black Friday no Brasil

por Alberto Carreras Guerra Quinta-feira, 17 de agosto de 2017   Tempo de leitura: 4 minutos

Recentemente, foi veiculada uma notícia de que alguns varejistas brasileiros estão se organizando para em 2018 fazer a Black Friday em setembro e outubro.

Gostaria de discutir um pouco sobre essa proposta em função de que me dedico ao estudo e análise dessa data promocional no cenário brasileiro nos últimos anos, além do meu envolvimento direto, na prática da minha trajetória profissional no varejo.

Tenho três pontos que acho que vale a pena discutir antes de se mudar a data.

A Black Friday (BF) tem esse nome, pois esse evento, o qual se tornou uma ação promocional do calendário do varejo americano desde, pelo menos, o início dos anos 1980, acontece em uma sexta-feira depois do dia de Ação de Graças.

Em 2016, eu fiz um estudo sob a chancela da Fundação Instituto de Administração (FIA), com os varejistas brasileiros sobre oportunidades e desafios da BF e quais práticas os principais players usavam para potencializar os aspectos positivos e negativos dessa importante data promocional.

Como oportunidade identifiquei ganhos de escala, aumento de vendas e, principalmente, aquisição de novos clientes.

Dentre os principais desafios estão: a rentabilidade nas vendas, a concentração de faturamento (em único dia), a queda de vendas no Natal e a falta de credibilidade junto ao consumidor.

No decorrer do estudo, encontrei empresas em diferentes estágios: umas muito avançadas, com planejamento, estrutura, boas ofertas, sabendo lidar melhor com o novo calendário e vendas com rentabilidade na maior parte dos casos. Em contra partida, outras ainda estão aprendendo a dar os primeiros passos para conquistar a credibilidade e a preferência dos novos clientes.

Em 2017, em conjunto com mais dois outros professores Doutores em Administração, Flávia Ghisi Nielsen e Marcos Angeli, iniciamos um estudo com consumidores para entender um pouco sobre as percepções dos consumidores brasileiros sobre a versão brasileira desta data promocional e o que eles esperam para a BF 2017.

Os resultados prévios mostram que, disparada, a principal razão de aborrecimento de quem compra na BF é a falta de credibilidade junto a alguns lojistas, no que diz respeito a ofertas falsas e descontos que não eram efetivamente praticados, a tal da “Black Fraude”.

Da mesma forma, entre os que não compram na data, essa é a grande razão da negativa – e acreditem, essa é ainda uma parcela muito significativa dos consumidores, ou seja, forte indicativo de que data ainda não chegou no seu ápice e que há muito espaço para crescimento de vendas.

A maioria os consumidores brasileiros, conforme a amostra parcial, entendem que descontos entre 30% e 50% atendem suas expectativas – importante – desde que sejam verdadeiros.

No Brasil, com impostos altíssimos e embutidos nos produtos, é impossível praticar descontos de 70% a 90% como acontece nos EUA, onde o imposto é pago no valor final do ticket.

No atual cenário nacional, com raríssimas exceções de categorias, as quais possuem isenção ou redução de impostos, seria pouco provável um desconto superior a 50%. Por isso, a estratégia de precificação é tão importante para se passar credibilidade ao consumidor.

Outro ponto importante apurado nesta pesquisa é sobre a declaração de grande parte dos consumidores. Na Black Friday, não antecipam a compra dos presentes de Natal, mas fazem compras para si próprios. Isso se deve, especialmente, pelo fato da data coincidir muitas vezes com o pagamento da 1ª parcela do 13º salário – e esse sim, é um ponto a se discutir no Brasil.

Mudar o mês de realização da BF, certamente causará um impacto muito negativo para os consumidores, devido ao histórico duvidoso e o fato de que essa data é mundial. Mas e se as empresas privadas ou públicas, a começar pelos varejistas, fizessem um acordo e se programassem para a partir de 2018, ou até mesmo 2017, passassem a depositar a primeira parcela do 13º salário na sexta-feira que ocorre a Black Friday?

Ponto 1

Essa medida potencializaria a data. Os comerciantes poderiam se planejar junto à indústria para pensarem em ofertas realmente vantajosas, com margens melhores e maiores vantagens para os consumidores.

Colaborando para aumentar a credibilidade da promoção e assim por diante, alimentando o chamado círculo virtuoso.

Certa vez ouvi de um grande executivo de uma empresa de meios de pagamento líder no segmento aqui o Brasil: “Datas como Natal e Dia das Mães já estão bem estabilizadas e têm pouco espaço para crescer. Já a Black Friday a cada ano tem mais impacto. Ainda é um pouco novidade, então tem muito espaço para crescer”.

Ponto 2

Sendo talvez utópico, penso que vale registrar a questão: e se os governos também adotassem a data, oferecendo redução de impostos durante a BF ou no mês de novembro? Com certeza, teríamos um grande incentivo a consumidores e lojistas. 

Ponto 3

E se os meios de pagamento e bancos também oferecessem descontos na data para os varejistas? Isso incentivaria os pagamentos em cartão, em detrimento aos em espécie, ainda mais agora que está legalizado o desconto para pagamentos à vista.

Valeria a pena brigar por essas causas?

Acho que a discussão do varejo brasileiro de buscar alternativas visando maior rentabilidade na Black Friday é legítima, pois se o lojista não tiver recompensas não conseguirá se sustentar e parar de pé.

Mas tenho convicção de que temos outras questões importantes a serem debatidas antes de propor simplesmente uma nova data de realização da promoção.

Você recomendaria esse artigo para um amigo?

Nunca

 

Com certeza

 

Deixe seu comentário

1 comentário

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentando como Anônimo

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

  1. Não sou especialista no assunto, mas creio que a estratégia no Brasil está equivocada, não é lógico realizar uma promoção gigante como essa antes do Natal, período no qual as empresas deveriam estar se capitalizando, essa promoção deveria ocorrer na primeira semana após o Natal ou mesmo início de Janeiro, pois que é o período que as empresas precisam “limpar” os estoques e que muitos clientes aguardam normalmente. Quanto ao ponto 2, certamente seria uma super oportunidade para governantes inteligentes!

    Responder

  Assine nossa Newsletter

Fique por dentro de todas as novidades, eventos, cursos, conteúdos exclusivos e muito mais.

Obrigado!

Você está inscrito em nossa Newsletter. Enviaremos, periodicamente, novidades e conteúdos relevantes para o seu negócio.

Não se preocupe, também detestamos spam.