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iPhone de R$ 30 mil e Dia do Cliente: quando o desejo de consumo encontra a inadimplência

Por: Thiago Oliveira

CEO e fundador da Monest

É CEO e fundador da Monest – empresa de recuperação de ativos através da cobrança de débitos por uma agente virtual chamada Mia, conectada por inteligência artificial. Imerso no empreendedorismo desde o início da carreira, com apenas 19 anos ganhou a liderança da equipe de desenvolvimento da Ometz, o que lhe deu o entusiasmo de fundar o Hotel Já, uma startup que oferecia hotéis de alto padrão a um custo muito mais acessível para reservas de última hora. Depois, Thiago fundou a Davai, empresa de tecnologia e desenvolvimento, onde atuou em 15 projetos por 6 meses, alguns bem expressivos como Fórmula 1 e Expedia. Atuou como CTO de empresas líderes em inovação no ecossistema de Curitiba, como Hero99 e Beracode. Nesse período, administrou e promoveu o projeto Philips of Holland, que começou no Brasil e hoje ganha proporções mundiais. Graduado pela PUC/PR em Sistemas de Informação, com especialização em Machine Learning pela Udacity (2018). Mais de 15 anos de experiência no setor de tecnologia, com uma atuação consolidada no mercado de cobrança há mais de 10 anos. Eleito umas das 50 lideranças de Finanças e Risco pelo CMS Financial Innovation 2023.

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O lançamento de um novo iPhone costuma mobilizar muitos consumidores antes até de o aparelho chegar às mãos. O modelo mais recente da Apple, com preço que ultrapassa R$ 30 mil em sua configuração mais cara no Brasil, é um exemplo de como determinadas marcas conseguem transformar produtos em objetos de desejo, status e pertencimento. Para o consumidor, porém, assumir uma compra desse valor significa também assumir um compromisso financeiro que pode se estender por meses. É aí que começa uma discussão que costuma ficar fora da experiência do cliente: o que acontece com a relação entre consumidor e marca quando ele não consegue pagar?

Mulher preocupada olhando o celular ao lado da caixa do iPhone, pilhas de contas e notificações flutuantes de pagamento.
Imagem gerada por IA.

Quando a experiência de compra esbarra na dificuldade de pagamento

No e-commerce, investimos muito para tornar a jornada de compra simples. O site precisa carregar rápido, o checkout deve ter poucos passos, o pagamento precisa ser fácil e a entrega, eficiente. Acompanhamos cada etapa para reduzir atritos porque sabemos que uma experiência ruim pode fazer o consumidor desistir e procurar outra marca.

Curiosamente, essa preocupação muitas vezes desaparece justamente quando a relação passa por uma dificuldade financeira. O cliente atrasa um pagamento e, de repente, encontra processos burocráticos, mensagens padronizadas e uma cobrança que parece ignorar toda a relação construída até ali. A experiência que era pensada para ser simples e personalizada dá lugar a uma jornada completamente diferente.

O vínculo entre marca e consumidor não desaparece com uma dívida

Isso é especialmente contraditório quando falamos de marcas que trabalham justamente com desejo, recorrência e fidelização. O consumidor pode ter escolhido aquela empresa entre dezenas de alternativas, acompanhado lançamentos, acumulado produtos e construído uma relação de identificação com a marca. E uma dificuldade momentânea de pagamento não apaga necessariamente esse vínculo.

É claro que uma dívida precisa ser cobrada e, para qualquer empresa, recuperar um valor em aberto é parte fundamental da operação financeira. O ponto é que cobrar e preservar o relacionamento não são objetivos incompatíveis. A forma como uma empresa conduz essa etapa pode (e deve) determinar se o consumidor terá condições de resolver a pendência e continuar comprando ou se aquela dívida será o ponto final da relação.

Vejo a fidelização desta maneira: ela não é construída apenas quando tudo funciona bem, mas justamente diante de um problema em que a promessa de relacionamento de uma empresa é colocada à prova. Se uma marca diz que conhece seu cliente, oferece conveniência e valoriza sua experiência, essa lógica precisa continuar válida quando ele precisa negociar uma dívida. E, claro, que isso não significa ignorar o débito ou abrir mão da recuperação, e sim criar condições para que o consumidor consiga resolver a pendência de forma clara, acessível e compatível com sua realidade financeira.

Datas comemorativas aumentam o volume de compras parceladas

O segundo semestre torna essa discussão ainda mais relevante com datas que visam o consumo, como o Dia do Cliente, Black Friday e Natal. Elas concentram algumas das principais oportunidades de venda do varejo, mas também estimulam o consumo e ampliam o volume de compras parceladas. O desafio para as empresas, para além das ofertas, é lidar com o impacto financeiro dessas decisões nos meses seguintes.

No caso de produtos de alto valor, como um smartphone que pode ultrapassar R$ 30 mil, a diferença entre o desejo de compra e a capacidade de pagamento pode se tornar ainda mais relevante. O consumidor pode estar disposto a fazer um esforço financeiro para adquirir um produto que considera importante, mas isso não significa que sua renda estará necessariamente estável durante todo o período de pagamento. Para as empresas, isso significa que a jornada do cliente não termina no checkout, mas continua durante todo o ciclo financeiro daquela compra.

Tecnologia ajuda, mas não substitui uma abordagem humana

Claro que a tecnologia tem um papel importante nesse processo. O consumidor que está acostumado a comprar pelo celular, acompanhar um pedido em tempo real e resolver problemas com poucos cliques não deveria precisar enfrentar uma jornada mais difícil para negociar uma dívida. Canais digitais, disponibilidade em horários mais amplos e propostas adequadas a diferentes perfis podem tornar a negociação mais acessível e aumentar a possibilidade de um acordo.

Mas é importante lembrar que digitalizar, por si só, não resolve tudo. E que é possível automatizar uma cobrança e, ainda assim, criar uma experiência ruim. A diferença está em como a tecnologia é utilizada. Uma boa estratégia combina escala com contexto e entende que nem todos os clientes têm a mesma capacidade de pagamento, que cada histórico é diferente e que insistir na mesma abordagem para todos nem sempre produz o melhor resultado.

Como a empresa cobra define se a relação continua ou termina

Uma comunicação confusa pode gerar insegurança. Um processo excessivamente burocrático pode afastar um cliente disposto a negociar. Uma abordagem agressiva pode transformar uma dificuldade financeira temporária em uma ruptura definitiva da relação. Por outro lado, uma negociação transparente e respeitosa pode preservar a confiança necessária para que esse consumidor volte a fazer negócios com a empresa depois que a pendência for resolvida.

Isso é especialmente relevante no e-commerce, onde a concorrência está sempre a poucos cliques de distância. Conquistar um cliente exige investimento em marketing, tecnologia, logística e atendimento. Por isso, faz pouco sentido tratar como descartável alguém que já escolheu comprar da sua marca apenas porque atravessou um período de dificuldade financeira.

Fidelizar é estar presente também quando algo dá errado

O caso do iPhone é um bom exemplo de uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. As marcas disputam não apenas a carteira, mas também o desejo, a preferência e a identificação das pessoas. Quanto mais forte é esse vínculo, maior deveria ser a preocupação em preservá-lo quando surge uma dificuldade.

No Dia do Cliente, portanto, talvez seja necessário ampliar a própria definição de experiência e lembrar que ela não termina quando o pedido é entregue, nem quando o pagamento é aprovado e que ela também está presente quando algo dá errado. Fidelizar não é garantir que o cliente nunca terá problemas, isso está fora do controle de qualquer empresa. Fidelizar é mostrar, inclusive quando surge uma dificuldade, que existe uma forma justa, acessível e respeitosa de seguir em frente.