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A logística em movimento

por Thiago Cordeiro Quinta-feira, 30 de agosto de 2018   Tempo de leitura: 7 minutos

Há muitas mudanças no mundo dos negócios que podemos olhar com certa cautela e até certa descrença, em alguns casos. São muitos os termos de gestão, na maioria em inglês, que surgem, vendem muitos livros e desaparecem. São  substituídos por um novo termo, ligeiramente diferente, que trata da simples evolução do anterior.

No entanto, com o avanço da tecnologia no mundo do varejo como veremos abaixo, muitas mudanças vieram para ficar. Isso pelo simples motivo de redefinir por completo como os processos acontecem e a maneira de geri-los e otimizá-los. Enfim, mudam o jogo e rompem com as formas preestabelecidas. Já que falamos de termos da moda, é o progresso ou inovação disruptiva.

No segmento do comércio, há uma combinação de 3 fatores que juntos contribuem para tanto: (i) crescimento da penetração ao acesso à internet; (ii) qualidade de conexão e redução no custo de data, e; (iii) tecnologias de acesso, leia-se aplicativos de smartphones e os próprios aparelhos em si.


Vemos então um processo de retroalimentação. Nele, o consumidor, impactado por novas possibilidades, apresenta uma disrupção comportamental no sentido de suas novas exigências e demandas. As empresas, atentas ao darwinismo corporativo, se aproveitam de suas competências em inovação e aderem com velocidade aos novos desejos de seus consumidores-alvo. Buscam diferenciação, maiores vendas e melhores margens. Atinge-se, então, o círculo exponencial de mudança, já identificado em 1965 por Gordon Moore, fundador da Intel, nas suas pesquisas sobre as evoluções dos processadores.

Essas inovações se impactam e se modificam continuamente. Dessa forma, aceleram exponencialmente a dinâmica do novo. Um ciclo independente das descobertas lineares. Há muito livros que tratam desse tema. Em particular, gosto da abordagem do Peter Diamandis e Steven Kotler, com o modelo dos 6D’s em seu livro “Bold”.

Essa breve síntese acima tem a modesta pretensão de ilustrar que as mudanças na cadeia de suprimentos, em especial na cadeia logística, carregam senso de urgência e traduzem necessidades reais de uma nova realidade.

A realidade

Consumidores demandam uma crescente oferta de produtos, comparação de preços e recebimentos instantâneos. Aí estão os marketplaces para tentarem dar conta do recado. Mas como organizar essa cadeia de suprimentos de maneira a permitir ao consumidor usufruir dos benefícios da experiência digital, principalmente com relação à disponibilidade de produtos e comparação de preços, sem perder a instantaneidade da compra física? Como evoluir na direção demandada pelo novo mercado consumidor sem prejuízo de importantes KPI’s: ROE (Return on Equity), giro dos ativos (ART, INVT, PPET), ciclo do caixa (C2C) entre outros?

Um breve artigo não tem a pretensão de responder a essa complexa pergunta que profissionais de diversas competências, muito além da logística, tem se organizado para compartilhar e redefinir. Ainda assim, destacam-se algumas derivadas deste desafio no campo da logística de distribuição. As empresas as estão enfrentando: da 1ª milha da armazenagem (first mile) até a última milha na entrega para o consumidor final (last mile).

1. Armazenamento do fabricante com envio direto

Também conhecido como dropshipping. Nele, o fluxo de informação do pedido transita do consumidor via o varejista direto para o fabricante, que é responsável pelo envio do produto direto ao destino. A grande vantagem reside na capacidade de centralização de estoque pelo fabricante. Isso agrega as demandas de diversos varejistas, provendo alta disponibilidade de produtos e um baixo nível de estoque. Consequentemente, menor custo de capital empregado.

2. Armazenamento do fabricante com remessa direta e mesclagem em trânsito

Mesmo conceito do item anterior. Mas, nesta estrutura, o fluxo do produto contempla partes que são enviadas de diversas origens e consolidadas em um destino antes de serem enviadas ao consumidor final. Por exemplo: a Apple serve os clientes na Europa que adquirem computadores online com configurações especificas desta forma. Normalmente, o computador vem da China e alguns acessórios de outras localidades. Todos consolidados em um centro de distribuição coerente com o destino final e, então, enviados como um único pedido ao consumidor final. A grande vantagem reside na opção de postergar a customização para produtos de alto valor agregado.

3. Armazenamento do distribuidor com entrega via operadora

O estoque é armazenado em distribuidores que residem entre o fabricante e o cliente final no fluxo de compra. A entrega é feita por empresas terceiras. A Amazon, entre outros marketplaces, trabalha bastante nesta estrutura, principalmente para produtos com alta previsibilidade de demanda (fast moving products), que apresentam alto giro. Caso o distribuidor ofereça componentes de serviço, customizações podem também ser adiadas, reduzindo o estoque. O custo de transporte e de envio é menor que nas opções anteriores, ainda que haja necessidade de maior estoque, já que o beneficio da agregação de pedidos (centralização de estoque) é menor.

4. Armazenamento do distribuidor com entrega de última milha

Neste caso, diferente da estrutura acima, a própria empresa se encarrega de entregar o pedido ao consumidor final ao invés de utilizar uma empresa de transporte terceirizada. As entregas são individuais e há um nível de agregação de cargas muito menor. Nesta situação, os ativos imobiliários são menores, em maiores quantidades, localizados bem mais próximos aos destinos finais (consumidores) com um giro de estoque mais elevado.

O custo de facilities (imóveis) é maior, bem como o custo de transporte, já que as ordens são individualizadas e contam com baixa capacidade de agregação. Essas são as razões pelas quais o giro do estoque deve ser alto e ter grande proximidade com o destino. Empresas no setor de perecíveis, como AmazonFresh, Google Express, entre outras, trabalham desta forma. Estruturas de crowdshipping tem surgido para tentar equacionar a questão da escala na entrega de ultima milha.

5. Armazenamento do fabricante ou distribuidor com coleta do cliente

Neste caso, o estoque é mantido no centro de distribuição. Nele, é oferecida ao cliente a opção de retirar seu pedido. O mercado costuma chamar essa alternativa de click & collect. Nesta situação, o nível de estoque tem maior eficiência, sendo aproveitado o benefício da agregação de pedidos, principalmente para os itens de alto giro e maior previsibilidade de demanda.

O custo de transporte é o mais baixo de qualquer alternativa acima descrita, uma vez que a carga é centralizada em pontos que abrangem certas áreas de influencia. A partir daí, o cliente se incumbe da retirada. Custos de processamento de informação e gestão são maiores, já que acrescentam uma complexidade à medida que o estoque deve ser fracionado para cada pedido e deve estar organizado com as expectativas de retirada de cada cliente. Investimentos em softwares e tecnologia são vitais para o sucesso dessa modalidade.

6. Armazenamento de varejo com coleta de clientes

Este caso é o mais tradicional. O estoque é armazenado localmente nas lojas físicas para retirada no momento de compra. Esta opção apresenta o maior custo de estoque, uma vez que não conta com o beneficio de agregar pedidos de varias fontes. O custo de facilities (imóveis) também é alto, pois impõe a necessidade de vários pontos em locais de alto custo. Esta opção usualmente faz mais sentido para produtos de alto giro e/ou produto em que o cliente valoriza o contato físico.

Em resumo, empresas tem adotado estruturas que enviam direto ao cliente quando trata-se de produtos de menor giro, alta incerteza e valor agregado. Essa estrutura contempla custos de facilities mais baixos, bem como custos de estoque. Beneficia-se da oportunidade de agregar pedidos de varias fontes. Entretanto, enfrenta altos custos de frete e prazos de resposta mais longos, impactando na experiência do consumidor.

Já para produtos de alto giro e menor valor agregado, especialmente se o frete corresponder a percentual importante da compra, as empresas normalmente têm buscado manter seus estoques mais fracionados e próximos ao destino final. Apesar de incorrer em custos de facilities mais altos, se beneficiam de economias importantes de transporte e garantem entregas mais rápidas, por conseguinte melhor experiência ao cliente.

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