Desafio da integração das variações, como cor e tamanho, nos canais digitais

por Leonardo Dicker Quinta-feira, 07 de janeiro de 2021   Tempo de leitura: 8 minutos
Impulsionadas pelos efeitos da pandemia da Covid-19, empresas tradicionalmente online crescem a passos largos no varejo digital. Isso ocorre tanto por meio de vendas em um site próprio, como pela popularidade da abertura de lojas em diferentes marketplaces, aproveitando da facilidade e rapidez de se começar esse tipo de venda.

Ocorre que muitas delas já possuem operações relativamente estáveis em suas lojas — processos de compra, transferência entre lojas, venda e devolução já são bem conhecidos. Para a sua grande maioria, os sistemas de gestão já foram adaptados para a realidade de cada empresa. Algumas delas, inclusive, possuem até customizações profundas que, de alguma maneira, podem gerar alguma vantagem competitiva. Por conta disso, a integração com os canais digitais nem sempre ocorre da maneira mais fluida possível.

Um dos pontos que invariavelmente gera alguma necessidade de adaptação — e não raro atrasos em projetos de transformação digital — está relacionado ao que o mercado comumente chama de “variações” do produto, também conhecidas por “grade” no segmento de moda. Outros mercados fazem um uso interessante da variação, como a tonalidade de uma cerâmica para o segmento de material de construção — ou mesmo o mês/ano da edição de uma revista ou periódico no setor de publicações.

A base do conceito da variação está no fato de se estar lidando com pequenas diferenças de um mesmo produto. São pequenas a ponto de não ser necessário criar um novo produto no cadastro da empresa, mas grandes o suficientes para que um produto com uma variação possa ser considerado único. Um sapato de cor vermelha e tamanho 37, por exemplo, é muito similar ao mesmo sapato de outra cor e tamanho — os dados fiscais são os mesmos, assim como a precificação. Por outro lado, o estoque precisa ser controlado separadamente, e cada combinação de cor e tamanho tem um código único para identificação do produto, comumente via código de barras único.

Cada sistema ou ERP pode ter implementado o conceito de variação de uma forma diferente. As boas implementações mantêm um cadastro único de produtos e permitem que o usuário crie diferentes “possibilidades de variações” para diferentes produtos. E, para cada variação, deve ser permitido informar diferentes “valores de variações”.

Voltando ao exemplo do sapato, um bom sistema deve permitir que, para aquele sapato, possam ser associadas duas variações — uma de cor e outra de tamanho. E para a variação de cor, devem ser informadas as cores desejadas (vermelho, azul, amarelo) e para a numeração, os tamanhos de 33 a 39. Para a mesma loja, uma camisa branca (que reconhecidamente não existirá em outra cor) será vendida apenas nos tamanhos P, M e G. Logo, para esse produto existirá apenas uma variação, com três valores de tamanho. E é aqui que começam as dificuldades.

Na integração com os canais digitais, é preciso combinar a forma com que o sistema trabalha com variações e a maneira exigida pelos canais digitais para tratar esse tipo de informação. Os maiores marketplaces, por exemplo, oferecem um ótimo serviço para o consumidor. Eles colocam, em um único anúncio, o mesmo produto com todas as variações, tornando muito simples o processo de escolha da combinação de variações desejada. Para o caso do sapato, com apenas 2 cliques do mouse, o usuário pode escolher a cor e o tamanho. Para a grade de cor, a foto correspondente é carregada para ficar coerente com com o que foi escolhido. E, para esse caso, não faz sentido ter fotos diferentes se apenas a numeração foi alterada.

Mas, se o ERP não foi desenhado para tratar variações dessa forma, será preciso um esforço razoável de adaptação. Para o sistema, trata-se apenas de um único produto com diferentes combinações. Para os canais digitais, contudo, cada produto é único em pelo menos duas dimensões — SKU, ou código do produto, e estoque. Ao mesmo tempo, diferentes canais podem tratar o preço de forma diferente. Alguns permitem o preço na variação, o que faz bastante sentido: pode ser interessante “queimar” o sapato 42 feminino que não vende há muito tempo.

Outras plataformas, porém, exigem que o preço seja o mesmo para todas as variações, limitando as promoções. De maneira análoga, algumas plataformas permitem fotos diferentes em todas as combinações de variação. Outras em apenas uma variação. E as mais limitadas permitem apenas fotos que estejam associadas ao produto, e não às variações. O fato é que, para cada um desses cenários, é preciso que o sistema esteja preparado para a correta integração.

Outro ponto de atenção está relacionado ao volume de informações quando se trata de variações. Tomando-se o mesmo exemplo do sapato e considerando uma coleção com 3 modelos diferentes, 5 cores e 7 tamanhos (numeração 33 a 39), chega-se ao surpreendente número de 107 combinações diferentes para apenas 3 modelos. Normalmente, para o ERP continuam sendo 3 produtos com diferentes variações. Porém, os canais digitais esperam 107 produtos diferentes, cada um com o próprio SKU, estoque, preço, fotos (pelo menos nas cores, para esse exemplo) e outros atributos.

Em uma loja com um número grande de produtos diferentes no mix — sendo que alguns deles possuem várias combinações de cor e tamanho —, o volume de dados a ser integrado com os canais digitais tende a ser realmente grande. Isso irá afetar sensivelmente o tempo de atualização das operações — muitos canais possuem limites baixos de requisições, fazendo com que uma alteração em alguns produtos demore vários minutos.

O impacto disso é claro: será preciso pensar muito bem no momento de entrada das promoções, no estoque de segurança — para evitar que o cliente compre online e o estoque já tenha se esgotado no físico. O mesmo vale à estratégia multicanal de um modo geral. Afinal, não será fácil coordenar todas as ações necessárias com tempos de atualização relativamente altos.

Para a grande maioria das empresas, o melhor caminho então a ser seguido é estudar com bastante critério a adoção de sistemas que consigam conciliar a capacidade e agilidade técnica na comunicação simultânea com os canais digitais e os ERPs, com a complexidade dos processos do varejo, tanto físico quanto digital — justamente o caso das variações tratadas neste contexto.

Existem hoje no mercado várias ferramentas que conseguem levar a informação do físico para o digital (e vice-versa). Entretanto, a vasta maioria o faz de forma simplificada, normalmente apenas tratando de preços, estoques e pedidos. Dada a dinâmica do cenário atual e as várias possibilidades que um varejo de fato multicanal proporciona, é indispensável que essas ferramentas entrem muito mais fundo nos processos, ajudando verdadeiramente os varejistas na tão necessária transformação digital.

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