Acesso rápido

Rússia: como funciona o e-commerce no país da copa?

por Stefan Rehm Segunda-feira, 18 de junho de 2018   Tempo de leitura: 5 minutos

A Rússia é um país bem característico, principalmente pelos seus contrastes — afinal, ela está presente em dois continentes. É uma grande potência e ocupa lugares de relevância na política mundial. Este ano ela sediará pela primeira vez a Copa do Mundo, e por isso nós aproveitamos a oportunidade para falar de um outro assunto que gera a curiosidade dos nossos leitores, além do futebol: o e-commerce russo.

O comércio eletrônico tem crescido significativamente no mundo todo, e no caso da Rússia não seria diferente. Mesmo que o e-commerce hoje represente entre 10% e 15% do varejo total do país, as taxas de crescimento do setor caminham num ritmo de dois dígitos ao ano, entre 25% e 30% — números impressionantes! Fora isso, na Rússia o número de e-consumidores aumentou entre 12% e 15% em 2017. E a tendência é que esses valores continuem crescendo nessa proporção.

Cross-border x Doméstico

Na Rússia, desde 2013 o varejo eletrônico cross-border ou transfronteiriço só aumenta. O segmento tem apresentado o maior crescimento, com índices de 26% em valor e 80% em quantidade de encomendas, ultrapassando os US$ 4 bilhões apenas para mercadorias, segundo o Russian Post e a associação NAMO.

Nos e-commerces B2B e B2C, os países que mais recebem exportações da Rússia são: China (8,7%), Países baixos (8,7%), Alemanha (6,6%), Itália (5,1%) e Japão (4,8%). Já os países que a Rússia importa envolvem a China (17%), Alemanha (13%), E.U.A (5,6%), Belarus (5%) e Itália (4,2%).

Em 2015, ao menos 30% das pessoas já realizavam pedidos cross-border pelo menos uma vez no ano.

O e-commerce doméstico também cresceu, mas de forma um pouco mais comedida: cerca de 800 bilhões de rublos (23%) e um valor de pedido médio superior a 4.000 rublos (R$ 238,60), segundo dados da Data Insight. As categorias mais representativas são artigos esportivos e itens de lazer, produtos para pets, vestuário e calçados, bem como mantimentos.

Consumidor russo x consumidor brasileiro

O perfil dos e-consumidores brasileiros e russos se assemelham em alguns aspectos. Ambos dão preferência ao pagamento no débito, porém, os russos preferem efetuá-lo em dinheiro no momento do recebimento do produto, o Cash on Delivery, enquanto os brasileiros optam por efetuar o pagamento no cartão de débito ou boleto bancário. Além disso, o pagamento via mobile é mais utilizado pelos consumidores russos.

Outro dado interessante é que 72% das compras efetuadas online na Rússia são recolhidas direto na loja. Essa prática ainda está em desenvolvimento aqui no Brasil, mas é inegável que boas estratégias omnichannel são uma realidade para os e-commerces que anseiam bons resultados, independente de sua localização no globo.

Segundo dados da Ecommerce Report Russia 2017, produzido pela Russian Association of internet trade companies, estima-se que 50% dos consumidores russos realizaram compras online no ano passado. Os setores de vestuário e calçados são a preferência para os russos nas compras online, com 37%.

Os maiores e-commerces russos e suas logísticas

Wildberries

A Wildberries existe há mais de dez anos e é o segundo maior e-commerce russo. Sua performance, atualmente, apresenta uma média de mais de 30.000 pedidos por dia.

Líder do comércio eletrônico varejista, comercializa produtos dos setores de vestuário, calçados, acessórios e cosméticos. A empresa conta com uma rede de distribuição própria, contendo 5.000 couriers (motoristas autônomos) exclusivos, e possui mais de 200 pontos para retirada de mercadorias.

Em outubro do ano passado, a grande varejista assinou um contrato com a A Plus Development para construir, dentro de um terreno de 25 hectares, um centro de distribuição de 145.000 m² — maior instalação desse tipo comissionada por apenas uma empresa na Rússia. A decisão de construir um centro de distribuição próprio, na região de Moscou, surgiu em meio à grande expansão da empresa e seus planos para prestar serviços em outras regiões da Rússia.

Uma das especialidades da Wildberries é o time to try on (algo como “hora de experimentar”). Funciona assim: a compra é realizada online. Depois, um entregador vai até o endereço de entrega e aguarda por 15 minutos, para que o cliente experimente o produto e decida se vai ficar com ele. Em caso positivo, ele efetua o pagamento em dinheiro e, caso ele não se satisfaça, o entregador traz os produtos de volta para a loja.

Ulmart

A Ulmart é a maior holding russa de Internet privada especializada no segmento de e-commerce — hoje, tem uma receita de aproximadamente US$ 1 bi por ano. Sua rede de distribuição contém mais de 450 instalações, incluindo fulfillment centers, pick-up points e 120 SKUs, distribuídos em mais de 200 cidades.

A plataforma vende os mais variados produtos, como eletrônicos, eletrodomésticos, artigos de escritório, produtos para crianças, bens automotivos, conteúdo digital, entre outros.

Uma das peculiaridades da empresa: desde setembro de 2017 ela passou a aceitar pagamentos por bitcoins, um método de pagamento ainda pouco explorado no segmento do comércio eletrônico.

Similaridades com o Brasil

Amazon não domina o mercado

Na Rússia, assim como no Brasil, a Amazon não é o e-commerce mais relevante. Um dos motivos seria a grande influência do mercado chinês nesses dois países.

Em números, o mercado online norte-americano e o chinês possuem praticamente a mesma extensão e importância. Mas no caso da Rússia ainda assim existe uma maior facilidade para os chineses, principalmente se considerarmos suas relações políticas sensíveis com os E.U.A.

Em 2016, um terço do total das compras online na Rússia foi realizado em plataformas estrangeiras. Destas, 90% eram de origem chinesa.

Russian Post: a maior transportadora

No Brasil, a empresa dos Correios é a maior transportadora, encarregada cerca de 40% das entregas do comércio eletrônico nacional. Atualmente, 70% das suas entregas diárias são provenientes de e-commerces.

Da mesma forma que os Correios no Brasil, o Russian Post é a maior transportadora de entregas do comércio eletrônico no seu país. Em 2017, ele já atendia em torno de 1 milhão de envios internacionais diariamente, tornando-se responsável por 90% do mercado transfronteiriço B2C. Ainda assim, tem uma participação reduzida em relação às operações domésticas.

Muitos pacotes da China

Tanto a Rússia como o Brasil comercializam bastante com a China. Os e-commerces B2B e B2C russos exportam cerca de 8,7% de sua produção para os chineses, menos que a metade do que o Brasil exporta (18%). Porém, tanto Rússia quanto Brasil importam muitas mercadorias de lá, 17% e 18%, respectivamente.

Além disso, o site chinês AliExpress se tornou o canal de compras online mais popular na Rússia, atraindo em média 23,8 milhões de visitantes por mês, com aproximadamente 3,6 milhões de acessos por dia.

Diferenças entre Brasil e Rússia

Num geral, podemos dizer que as estratégias logísticas diferem nos dois países. A Rússia possui um LPI (logistics performance index) de 2,57, o que lhe garantiu a 99ª posição no ranking de 2016. Já o Brasil, ocupa a 55ª posição dessa lista, com um LPI de 3,09.

Em relação a outros países, o desempenho logístico russo ainda fica um pouco atrás. Entretanto, como podemos ver no gráfico a seguir, o país tem buscado melhorar os seus índices, ano após ano:

Ambas as logísticas ainda precisam otimizar as suas respectivas infraestruturas, e as duas enfrentam dificuldades de entrega relacionadas à dimensão de seus territórios nacionais.

Por conta da sua geolocalização, a Rússia também oferece alternativas logísticas via transporte marítimo entre Europa e Ásia. Hoje já existem rotas regulares estabelecidas entre a UE e a China por meio do Cazaquistão, a chamada New Silk Road, ou, em português, a Nova Rota da Seda.

Retira gigante

Sendo o omnichannel uma realidade para os e-commerces que desejam ter sucesso em suas operações, podemos dizer que a Rússia está alguns passos à frente no que diz respeito à modalidade de retirada.

Ao contrário do Brasil, onde este serviço ainda é oferecido raramente, os pick up points são bastante comuns na Rússia. Praticamente todos os e-commerces oferecem a modalidade, sendo entendida como uma necessidade real do consumidor, e apresentando diversas opções para que ele tenha autonomia para escolher qual opção se enquadra melhor à sua rotina.

Marketplace não é grande ainda

O marketplace já está bem consolidado no Brasil. O modelo de negócio virtual, por conta de suas praticidades, atrai muitos empreendedores e já é responsável por 25% do faturamento no comércio eletrônico brasileiro. O Mercado Livre é o atual líder na categoria, seguido da B2W e da Via Varejo.

Na Rússia, o cenário é um pouco diferente. O mercado de vendas em marketplaces ainda não ganhou força, tal como no Brasil. Podemos dizer que os maiores players russos têm investido em marketplaces, de fato, há apenas um ou dois anos. No momento, existe um novo player atraindo bastante atenção, o Yandex.market. Ele tem muito potencial para se tornar o maior marketplace do país, competindo diretamente com o AliExpress.

Devolução tem custo de frete

No Brasil, usualmente os custos dos serviços de devolução de mercadorias ficam aos encargos do vendedor. Já existem leis, inclusive, que permitem o arrependimento de compra com a garantia do retorno de 100% do valor pago, em um prazo de até 7 dias.

Contudo, na Rússia, o contexto difere, e as devoluções também possuem custos de frete e ficam a encargo do próprio consumidor final.

Tendências

Next day delivery para 83 cidades

Uma das preocupações dos players russos está relacionada ao tempo das entregas e a necessidade de otimizá-lo. Hoje no país o next day delivery e o one-day delivery já são as opções de entrega standard nas principais regiões, por grande parte dos e-commerces. A ideia é de que, nos próximos anos, essa rede de entregas esteja mais organizada e bem desenvolvida para atender às 83 cidades.

Sem custo, troca aumentará

O índice de trocas no comércio eletrônico doméstico russo está em torno de 10%. No varejo cross-border, 1%. Diferente do Brasil, normalmente os serviços de troca e devoluções são cobrados aos consumidores, principalmente por não existirem leis locais sobre tais serviços. Porém, estima-se que esse cenário sofra mudanças e esses serviços passem a ser oferecidos gratuitamente, o que acarretaria em um aumento significativo das trocas e devoluções no varejo online russo.

Novo Yandex marketplace pode combater com AliExpress

Em maio desse ano, a Yandex concluiu um acordo com o Sberbank, maior banco russo e do leste europeu, para desenvolver um ecossistema de comércio eletrônico B2C. Vale lembrar que a empresa de tecnologia relacionada à internet também é detentora do principal mecanismo de busca na Rússia (sim, lá o Yandex é maior que o Google).

A Yandex.Market já é um dos players mais acessados no país, com mais de 20 milhões de usuários mensalmente, e forte candidata a concorrer com a líder chinesa AliExpress.

De olho na Rússia

Após entender tudo o que foi dito anteriormente, fica claro que o país da copa está se transformando em um mercado bastante atraente para os e-commerces. A médio e longo prazo, a perspectiva é de que a Rússia se consolide como um dos maiores mercados de varejo online da Europa.

Você recomendaria esse artigo para um amigo?

Nunca

 

Com certeza

 

Deixe seu comentário

0 comentário

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentando como Anônimo

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

O projeto E-Commerce Brasil é mantido pelas empresas:

Oferecimento:
Hospedado por: Dialhost Transmissão de Webinars: Recrutamento & Seleção: Dialhost Métricas & Analytics: MetricasBoss

  Assine nossa Newsletter

Fique por dentro de todas as novidades, eventos, cursos, conteúdos exclusivos e muito mais.

Obrigado!

Você está inscrito em nossa Newsletter. Enviaremos, periodicamente, novidades e conteúdos relevantes para o seu negócio.

Não se preocupe, também detestamos spam.