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Black Friday em setembro: desfazendo a burrice ou alimentando ainda mais o monstrinho?

por Felipe Souto Quinta-feira, 24 de agosto de 2017   Tempo de leitura: 4 minutos

Como muitos sabem, tenho um pequeno negócio, há mais de uma década atuando no e-commerce. Neste período, muitas pequenas, médias e grandes empresas surgiram e fecharam suas lojas virtuais, enquanto a nossa, apesar das dificuldades, permanece de forma estável no ramo.

Ao meu modo de ver, um dos motivos de estarmos ainda na estrada é que eu acredito piamente que cada venda deve ser rentável para a empresa. É inconcebível você vender tendo prejuízo, de forma premeditada, apenas para ganhar mercado ou fidelizar clientes!

Por outro lado é igualmente inconcebível para um comerciante perder oportunidades de ter maior rentabilidade em uma venda. Pode ser um tanto antipático um comerciante admitir isso de forma pública, mas a realidade é esta: “dinheiro não aceita desaforo”!

No último artigo que escrevi, expus alguns “monstrinhos” que estão se alimentando da nossa rentabilidade e dificultando as nossas atividades no e-commerce. Um deles era a Black Friday. Dos monstrinhos lá expostos, esse era o único que foi criado pelos próprios lojistas.

Por esse motivo, na versão original do artigo, disse que esse monstrinho tinha a forma de burro! Sim, na minha opinião, a Black Friday brasileira, na data e no formato atuais, é uma burrice! Mas fomos informados pela competente redação da E-Commerce Brasil que, felizmente, os grandes varejistas estão dispostos a desfazer tal burrice, transferindo a data deste evento para setembro, isso a partir de 2018.

A Black Friday foi criada nos EUA com o intuito de desovar estoques antigos das lojas e fazer caixa para a compra de estoques novos para o Natal. Outros países também adotaram a ideia e, no Brasil, estamos chegando à oitava edição deste evento.

Evidentemente, o consumidor brasileiro também gosta dos preços baixos, logo, esta data em tão pouco tempo já é segunda mais importante do varejo nacional. Porém, lembre-se que este artigo está sendo escrito sob o olhar de um pequeno comerciante.

Sei que vende-se muito na Black Friday, mas será que estamos tendo rentabilidade nas vendas? Ou, pior ainda: estamos perdendo a rentabilidade que já tínhamos em dezembro? Esta movimentação dos grandes varejistas implicitamente já nos dão as respostas.

Considerando o ciclo de compras, pagamentos e recebimentos do varejo brasileiro, o objetivo original da Black Friday americana dificilmente seria cumprido em nosso esquizofrênico ambiente de negócios nacional! Fazer uma grande “limpa” nos estoques no final de novembro, gerando caixa para renovar os estoques para o Natal não me parece algo realístico para o nosso varejo.

Vamos pensar como era antes da Black Friday brasileira: no final de novembro as lojas já estavam com o estoque cheio e renovado para as rentáveis vendas de Natal, esperando o décimo-terceiro dos consumidores! Por fazermos uma Black Friday sem objetivo, o que está acontecendo agora na maioria dos casos é uma pura e simples queima de preços, com lojistas comprando estoque novo, vendendo com rentabilidade mínima, zerada ou até negativa e presos a um conceito de que “se eu não fizer, o meu concorrente o fará”. Ou seja, o varejo brasileiro foi aprisionado pela sua própria criação e agora tenta se libertar!

E já que falamos em décimo-terceiro salário, aí está uma outra característica do mercado brasileiro que não existe no mercado americano. Assalariado americano não tem dinheirinho extra no final de novembro, brasileiro tem! E por décadas e décadas o brasileiro fazia suas compras de Natal, de um jeito ou de outro, estimulado pela grana no bolso! Até que a “bendita” Black Friday e sua queima desnecessária de preços surgiu por aqui!

As vendas de Natal, que davam um alívio financeiro considerável aos lojistas, foram severamente prejudicadas pela Black Friday. Pior ainda: as vendas de novembro e, em alguns setores, até as vendas de outubro também estão sendo dificultadas! Muitos consumidores estão deixando de comprar antes da Black Friday, pois sabem que há uma grande possibilidade de comprar o mesmo produto a um valor menor no final do mês! Transferindo a Black Friday para setembro, uma época tradicionalmente fraca de vendas, poderemos, além de fazer caixa e renovar estoques para o Natal, fazer com que o dinheiro do décimo-terceiro do consumidor possa trazer mais rentabilidade ao varejista!

Tenho notado que alguns defensores da manutenção da data atual, alguns deles arvorando-se a falar em nome dos varejistas, e geralmente têm usado argumentos que apenas demonstram que nunca estiveram do lado de cá do balcão, não entendem bulhufas de comércio e muito menos de atender clientes! Por exemplo, não entendem que na Páscoa, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Natal e Ano-Novo as pessoas compram por motivos de afeição, de carinho, com o intuito de presentear alguém que amam ou de ter algo especial para compartilhar com a família e os amigos.

Nestas datas, o foco principal do consumidor não está no preço. Na Black Friday, pelo contrário, a motivação das compras é justamente o preço baixo, nada mais! Sendo assim, por que não transferir essa data, que não tem nenhuma relação afetiva para o consumidor, para um mês de vendas mornas, como setembro?

Todavia, há algo que me preocupa seriamente nesta possível transferência. Ela pode ser a correção da burrice, porém, se não for um movimento uniforme de todo o varejo relevante no Brasil, podemos estar criando um monstrinho ainda maior do que já é! Os grandes varejistas precisam ser firmes e levar todo o médio e pequeno varejo de arrasto neste movimento!

Tem que entender que, neste primeiro ano, serão alvos de críticas de vitimistas profissionais, imprensa, associações caça-níqueis, simulacros de políticos populistas e afins! A pior coisa que poderia acontecer é algum dos grandes players, num suposto “respeito ao Consumidor” fazer uma segunda Black Friday em novembro! Sabemos que, se um fizer, todos farão! Com duas Black Friday em menos de três meses, podemos dizer adeus à rentabilidade do segundo semestre!

Sim, visto que as decisões que tomo na minha loja afetam o meu bolso e não o de terceiros, sou totalmente a favor da transferência da Black Friday para setembro! Vislumbro uma Black Friday com menor volume de vendas, mas, que poderá ser operacional e financeiramente saudável para as empresas participantes.

Podemos ter nesta nova data um excelente pontapé inicial para vendas de final de ano, com muita rentabilidade e sem prejudicar substancialmente o nosso cliente, que continuará a ter o seu dia especial de preços baixos!

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1 comentário

Comentários

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  1. Desejo boa sorte em sua empreitada. Já li em diversos outros sites que já desistiram desta ideia, mas de qualquer forma, agora temos a Amazon.com aqui e tenho certeza que ela, sozinha, consegue bancar a BF em novembro. E como você mesmo ressaltou, se um fizer o resto vai na esteira. Entendo e li seu artigo inteiro tentando me colocar na sua posição, de comerciante. Faz bastante sentido o que disse. Mas como consumidor, se por acaso esta ideia vingar, farei minhas compras diretamente na China ou EUA, e farei questão de não agregar os 4 ou 5 mil que geralmente gasto na BF em um evento que não será tão bom – suas palavras – para o consumidor, nesta Black Friday abrasileirada.

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