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2017: o ano em que os marketplaces ferraram o e-commerce brasileiro!

por Felipe Souto Quarta-feira, 20 de dezembro de 2017   Tempo de leitura: 3 minutos

Por anos lutamos contra um conceito errôneo, implantado na mente do consumidor pelos grandes players do e-commerce, que o diferencial de se comprar na internet era encontrar produtos a preço de coxinha, em 10 vezes sem juros no cartão de crédito e com frete grátis.

Muitos de nós sempre entendemos que o e-commerce tem muito mais a oferecer para o consumidor do que brigas intestinas por preço! Afinal, pouca gente tem investidores dispostos a queimar dinheiro para formar mercado (uma burrice monumental, a propósito). De forma que a grande e responsável maioria precisa ter rentabilidade para pagar as contas das suas empresas!

Todavia, as fontes de investimento outrora abundantes começaram a secar. As coisas estavam mudando e a tendência de mercado do e-commerce brasileiro era a da qualificação, da busca pela rentabilidade. Já não víamos preços tão achatados assim, ou pelo menos, não no pagamento parcelado em 10 vezes no cartão de crédito.

Por outro lado, o consumidor já começava a entender que, ao invés de arcar com os custos de tempo, combustível e estacionamento do comércio físico, ele poderia arcar com um custo de frete reduzido para ter a comodidade de receber os mesmos produtos em casa. Os e-commerces  estavam começando a usar o frete grátis de forma pontual, responsável.

Os procedimentos de troca e devolução de mercadorias, bem como as soluções disponíveis no mercado logístico, estavam se aprimorando, ampliando no consumidor essa percepção da comodidade como principal diferencial em se comprar pela Internet.

Porém, os grandes players do mercado do e-commerce, vendo seus investidores encurtar a grana e não podendo mais prostituir seus preços por meios próprios, correram para outra direção: o marketplace! Com ele, astutamente conseguiram terceirizar a prostituição de preços, usando-se de muitos varejistas e fabricantes inexperientes ou até irresponsáveis!

Sabemos que essa onda dos grandes marketplaces não é tão nova assim, mas em 2017 atingiu sua crista e, no repuxo da maré, infelizmente engoliu aquele castelo de areia que era a qualificação do nosso mercado! O tormento da tríade do “preço achatado em 10 vezes sem juros e com frete grátis” retornou com furor ao e-commerce brasileiro!

Uma palavra de cautela: este texto não se destina a ser um choramingo, um “mimimi” de varejista que não consegue mais competir no mercado. Se uma empresa tem melhor estrutura, gerenciamento, atendimento, poder de barganha junto a fornecedores, conseguindo oferecer melhores preços e serviços aos seus consumidores, ela não só pode como deve prosseguir, sem qualquer interferência que não seja a do seu concorrente.

Por outro lado, o marketplace é uma forma inovadora de comércio, que pode ser muito bem utilizada. Não somos opositores da existência deste formato! Mas alguns aspectos indicam que não foram apenas estes fatores concorrenciais leais que mencionamos agora que geraram essa onda devastadora dos grandes marketplaces em 2017.

Por exemplo, em junho, um grande marketplace (de nascença) anunciou que subsidiaria grande parte do valor do frete para os parceiros, nos pedidos acima de R$120,00. Mandatoriamente o parceiro teria de oferecer frete grátis ao consumidor. Na grande São Paulo, tal subsídio seria total. Considerando que este marketplace:

  • Cobrava na ocasião 16% de comissão sobre as vendas, ao mesmo tempo que assumia os custos financeiros de um parcelamento em 12 vezes sem juros para o consumidor;
  • Investe amplamente em marketing digital, o que sabemos ser caro;
  • Banca acesso à internet móvel para os utilizadores do seu aplicativo de celular;
  • Tem seus custos operacionais diversos (tecnologia, funcionários, impostos, ações judiciais, etc)

É um tanto difícil acreditar que tal subsídio tão generoso é bancado apenas pelas comissões das vendas! Sendo assim, precisamos considerar que esse marketplace usa como maior parceiro logístico uma empresa estatal – os Correios. Se o parceiro fosse uma empresa privada, não teríamos nada a ver com isso. Mas estamos falando de uma empresa pública! A menos que a premissa do início deste parágrafo esteja terrivelmente equivocada, temos que perguntar:

  • Que acordo comercial esse marketplace tem com os Correios? Repetimos: se fosse uma empresa privada, era um assunto privado e nada teríamos a ver com isso. Porém, os Correios são uma empresa pública!
  • Por que as empresas privadas não estenderam condições tão generosas para esse marketplace, a ponto dele bancar parcial ou totalmente o subsídio do frete grátis para os consumidores de todo o Brasil? Seria o motivo o simples fato de que essas empresas de logística teriam um prejuízo monstruoso ao fazê-lo?
  • Conseguiria uma pequena empresa postar suas mercadorias nos Correios pelos mesmos valores oferecidos a esse marketplace? Se fosse uma empresa privada, poderíamos argumentar que o marketplace teria um maior volume de cargas, o que justificaria uma condição diferenciada de preços. Porém, repetimos mais uma vez para que a linha de raciocínio esteja bem clara: estamos falando de uma empresa pública!
  • Um dos maiores pretextos para que os Correios não sejam privatizados é a função social que essa empresa tem. Podemos chamar de “função social” de uma empresa pública praticar vários preços para um mesmo serviço, oferecendo os melhores preços às empresas maiores? É correto uma empresa pública promover a oligopolização do mercado de e-commerce, oferecendo a um grande player condições que nenhuma empresa privada teve a coragem de oferecer?
  • Estariam os Correios, uma empresa pública, subsidiando o frete de grandes players utilizando-se dos fretes pagos por pessoas físicas e pequenas empresas?

Confira aqui o posicionamento dos Correios sobre as críticas apresentadas neste artigo

E o que dizer das questões tributárias e trabalhistas? Não há motivos para pensar que os grandes marketplaces não honrem os seus encargos. Mas, podemos dizer o mesmo dos varejistas e fabricantes que lá vendem? É notório que vários parceiros desses marketplaces  enviam suas mercadorias sem Nota Fiscal ou com “meia-nota”. Alguns confessam isso abertamente nas páginas de produto, como o exemplo desta imagem:

 

Isto faz suscitar uma série de questões:

  • Estão todos os grandes marketplaces fiscalizando as Notas Fiscais emitidas pelos seus parceiros? Estão obtendo periodicamente certidões negativas de débitos tributários e trabalhistas dos parceiros?
  • Como explicar que um dos grandes marketplaces permite que parceiros possam vender até R$146.000,00 por ano, sem exigir um CNPJ?
  • É justo um marketplace receber comissões e auferir lucros de atividades criminosas, como a sonegação fiscal, e não ser minimamente responsabilizado por isso?
  • É justo um marketplace receber comissões e auferir lucros de vendas feitas por parceiros que talvez não estejam em dia com o pagamento dos seus encargos trabalhistas?
  • Se um empresário, com duas lojas físicas, ao invés de abrir matriz e filial, abrir uma empresa separada para cada loja, com a finalidade de pagar menos impostos, o governo o acusará de estar praticando evasão fiscal. Se ele fizer uma venda, recebendo o pagamento na loja A, mas usando estoque e emitindo Nota Fiscal da loja B, poderá ter ainda mais problemas com o governo. Agora, se ele chamar este mesmo arranjo de “marketplace”, repassando o dinheiro de A para B e recolhendo uma comissão de 0,1% para a loja A, apenas para “maquiar” a tramoia, passa a estar tudo certo? É só chamar de “marketplace”, que deixa de ser evasão fiscal?
  • Considerando que vários parceiros dos marketplaces são optantes do Simples Nacional: não seria o marketplace uma forma enrustida de grandes corporações, bilionárias, terem os mesmos benefícios tributários de uma pequena empresa?

Com toda esta série de questionamentos do artigo, fica claro que não estamos choramingando por causa de uma competitividade aberta e leal, aonde o mais competente sobreviverá no mercado. Também não estamos pedindo aqui uma “lei dos marketplaces”.

Mas defendemos sim o cumprimento das normas já existentes! Que se abra a “caixa preta” dos contratos dos Correios, uma empresa pública, com esses grandes marketplaces! Que o governo fiscalize a operação destes players com o mesmo vigor e fúria que tem quando vai fiscalizar e atormentar o dono da pequena empresa!

O e-commerce é o ganha-pão deste escriba há quase quinze anos. Já vi muitas transformações, a maioria delas positivas, acontecer no nosso mercado. Mas a influência negativa dos grandes marketplaces, na minha opinião, foi o marco deste ano de 2017.

Discordando respeitosamente de vários colegas, não acho que no aspecto geral houve amadurecimento, mas sim uma infantilização do mercado neste ano. Tenho a esperança que, nos anos vindouros, mais fabricantes e varejistas possam se conscientizar e entender que podem fazer e-commerce sem “chutar canelas”, que há outros caminhos mais sustentáveis e rentáveis para o sucesso!

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6 comentários

Comentários

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  1. Não sei exatamente o que ocorre. Abri meu e-commerce em Outubro/2017 e digo que graças ao B2W, estou conseguindo girar a mercadoria e ainda ter um ganho. Bem pequeno, é verdade, mas tenho um ganho. Se for fazer as contas, em dois meses de operação (e apenas um dentro do B2W), fechei 4 pedidos direto no site e 47 no B2W. Com relação aos custos, vamos lá: seja por cartão de crédito ou seja por boleto, tenho um desconto de cerca de 5% em cada venda. Boleto por eu repassar o “desconto” ao cliente. Não tenho esse custo no B2W. Eu sempre tenho um Cupom de desconto ativo no site e também para divulgar nas redes sociais. Eu acho que o ganho ai, é no zero a zero. Talvez eu teria um ganho maior no site, mas hoje, digo que tá girando e estou conseguindo fazer crescer graças ao marketplace. Falando de nomes, acho que o “marketplace” administrado pelo Mercado Livre é injusto. Injusto por que você não compete em pé de igualdade. Lá encontramos de tudo: pirataria, contrabando… o que em um país que a carga tributária é gigante, acaba fazendo muita diferença. E o pior… nem empresa aberta você precisa ter…

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  2. Devo concordar com o autor do artigo que este grande marketplace ignora a origem dos produtos e estimula a sonegação. Devo discordar de sua posição genérica sobre os marketplaces, não é bem assim. Ademais, se não conseguiu crescer como ecommerce, use a estratégia da Arte da Guerra. Sobre os Correios, é simples: quanto mais remessas, melhores os preços. É lógico. Ironicamente, a boa notícia veio dos Correios ao anunciar que exigirá NF. Para aqueles vendedores que insistem em vender sem NF será uma boa lição.

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  3. Muito oportuno o tema levantado. Mais ainda a oportunidade desse canal abrir espaço para discutirmos o futuro do comércio eletrônico no Brasil. Além da questão levada a público, temos outras diferenças ferozes no setor, como por exemplo a publicidade e o marketing… Onde o maior anunciante tem o melhor espaço, custo, etc… O pequeno varejista praricamente se torna refém desse câncer chamado de marketplace. Porém, na nossa experiência, sabemos que no e-commerce nada é para sempre, com exceção ao atendimento ao cliente. Os leilões se foram. Da mesma forma os “peixes e macacos”… Os aplicativos estão com os dias contados. E também vai chegar a hora dos marketplaces.

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  4. Eu entendo o que o Felipe esta criticando, e concordo em parte .

    Para mim, ele se engana ao querer que o MKP fiscalize seus vendedores, este papel é do estado e até da sociedade. O MKP deve respeitar a lei tributária no que diz respeito a ele, é um erro querer despersonalizar a responsabilidade da pessoa jurídica ( vendedores inidôneos ) e transferir para outra.

    Os correios apesar de ser uma empresa estatal, tem que operar visando o lucro,pois caso tenha prejuízo, será a sociedade de uma forma ou de outra que pagará, logo, um contrato mais volumoso, terá preços menores. Estes contratos dos correios estão abertos a todos, quanto mais sua empresa vende e envia, você fica elegível a novos contratos com os correios mais vantajosos, no preço unitário por envio.

    A operação de um MKP é basicamente um comparativo de preços por SKU, ali naquele ambiente, não existe a marca do vendedor, ou seu padrão de qualidade no atendimento, nada disso conta. Se você tem preço competitivo naquele SKU, você vende, e não pode tentar nem ao mesmo aumentar a quantidades de itens da sua loja no carrinho para melhorar a margem. Então, neste quesito, concordo plenamente com o Felipe, ao mesmo tempo, que os MKP, abriram a oportunidade para milhares de vendedores, esta mesma ferramenta esta fechando a porta de outros milhares. Pois simplesmente é uma disputa de preços pelo mesmo SKU, para ganhar o espaço na box sale do MKP.

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  5. Apesar do excelente texto que fala sobre como os marketplaces trabalham fiscalmente e parceria com Correios, eu entrei para saber porque eles ferraram com os lojistas e não vi isso na matéria.

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  6. Desculpe, mas o marketplace acabou com o e-commerce. Inclusive, os cartões “da loja” se tornaram inúteis. O marketplace oferece empresas totalmente aleatórias, de localidades aleatórias, cobrando preços estapafúrdios com fretes bizarros. Quando vê, o produto que teria frete grátis + desconto no boleto está custando 50% mais caro, com frete desconectado com a realidade, chegando a mais de 100 reais. Não existe mais uma linha de preços, competição entre empresas, acabou a satisfação e segurança em fazer compras on-line.

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O projeto E-Commerce Brasil é mantido pelas empresas:

Oferecimento:
Hospedado por: Dialhost Transmissão de Webinars: Recrutamento & Seleção: Dialhost Métricas & Analytics: MetricasBoss

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